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Entrevista ao presidente do superMoreirense: “Ninguém nasce grande”

Quase 17 anos após pisar pela primeira vez o palco da I Liga, a equipa que veste de xadrez verde-branco está de novo em festa. Caué e companhia são hoje recebidos com pompa e circunstância nos Paços do Concelho, em Guimarães, antes do regresso em grande à vila de Moreira de Cónegos. O líder histórico do clube, Vítor Magalhães, conta como vai repartir irmamente as receitas da Taça CTT pelos heróis improváveis da conquista do único troféu entre os grandes, em 78 anos de história. Republicamos a entrevista que saiu no Diário desta segunda-feira

Isabel Paulo

FESTA. O histórico presidente do Moreirense, Vítor Magalhães, quer festejos curtos em Guimarães e Moreira de Cónegos porque quinta-feita, é dia de jogo com o Feirense

ANTÓNIO COTRIM/EPA

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Quando o Moreirense subiu pela primeira vez à I Divisão afirmou que era um sonho inatingível. Ontem, frente ao Braga, acreditou noutro milagre?
Não era o previsível, mas depois da vitória com o Benfica havia essa esperança. Ninguém nasce grande, somos um clube que tem vindo a evoluir, defendendo valores de rigor, frontalidade e lealdade dentro e fora de campo. Somos a equipa de pobres na Liga dos grandes, mas mas ninguém sabe receber como nós. Do balneário aos funcionários, até aos dirigentes, existe uma enorme solidariedade.

Qual é o prémio da vitória na Taça da Liga?
Nada ficou combinado antes do jogo com o Benfica. Antes da final, já no estádio, fui ao balneário e reuni com todo o grupo de trabalho. Disse-lhes que não sabia quanto iria receber de receitas da Taça CTT – como ainda não sei – mas que assumi logo ali que todos os profissionais do futebol iriam receber 50% da receita líquida. São para quem batalhou para vencer esta taça. O restante é para o clube. Nunca será muita coisa, que as receitas mesmo neste formato (Final Four) são curtas.

Hoje são recebidos pelo presidente da Câmara de Guimarães, nos Paços do Concelho. Há festa em Moreira de Cónegos?
Haverá uma pequena receção aos adeptos e já pedi ao presidente da Câmara, Domingos Bragança, que esteve connosco no Algarve, para a cerimónia ser breve. Hoje, a equipa ainda vai fazer banhos e massagens, porque quinta-feira temos um jogo importantíssimo com o Feirense, quinta-feira. Como assumiu o nosso treinador em conjunto com a direção, o campeonato é o nosso maior objetivo. Para se fixar sem sobressaltos na I Liga, o clube precisa de receitas televisivas centralizadas, como se faz no resto da Europa civilizada

Por uma questão de prestígio e receitas?
Pelo prestígio, sim, mas também pelas receitas, que não são comparáveis na I e II ligas. Aqui parámos no século XIX.

Qual é o vosso orçamento?
Com tudo, incluindo a formação, são €4 milhões/época.

O Moreirense tem 78 anos de história, sete épocas entre os grandes. O que falta ao clube para se fixar sem sobressaltos na I Liga? Infraestruturas?
De direitos televisivos centralizados. Não faz sentido na mesma divisão coexistirem concorrentes que ganham pouco mais de €3 milhões por ano, quando outros recebem €40 e €50 milhões. A concorrência é demasiado desleal. Na Europa do futebol, países como Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Itália, as receitas de TV são negociadas em conjunto e, pequenos, médios e grandes, todos ficam a ganhar. Penso que só em Portugal e Ucrânia é que isto não acontece. Alguma coisa se passa quando o futebol português, o campeão europeu que não acompanha os países mais desenvolvidos. Parámos no século XIX do futebol... É preciso bom senso por parte do poder político, Federação e Liga. O futebol é uma indústria demasiado importante para o país para serem os clubes a negociarem cada um por si.

Os emprestados Francisco Geraldes e Podence regressam ao Sporting...
Hoje ainda estarão de regresso com a equipa, mas vão voltar a Alvalade. Estamos a ultimar os termos do fim do empréstimo...

Em troca de outros emprestados?
Possivelmente, ainda temos mais umas horas de negociações. As relações com o Sporting são boas.

A vila de Moreira de Cónegos tem 4853 habitantes e está a 8 quilómetros de Guimarães. O concelho tem dimensão para ter a competir duas equipas na Liga NOS?
Somos uma família grande de cerca de dois mil associados, gente de trabalho numa sociedade demasiado materialista. A nossa diferença é o espírito coletivo com que se trabalha nesta terra e neste clube. Costumo dizer aos meus colaboradores e funcionários que quem muito não é quem ganha mais, é quem gasta menos. A forma apaixonada com o nosso adepto Hugo Varandas festejou frente ao Benfica diz muito de como se vive neste clube...

Augusto Inácio, que está no clube pela segunda vez, diz que o Moreirense tem uma vantagem competitiva em relação a muitos clubes que é pagar a tempo e horas.
Não é só nos salários. Cumprimos escrupulosamente todos os nossos compromissos. É uma questão de princípio não dever nada a ninguém na terra onde nasci, vivi e estou a envelhecer.

Está ligado ao setor têxtil...
E não só. Tenho 1300 pessoas a trabalhar comigo, numa dúzia de empresas ligadas à confeção, tecidos, imobiliário, restauração, aproveitamento de híbridos e um projeto agrícola com jovens empresários de tudo quanto seja frutos vermelhos. Tenho fábricas em Portugal, Tunísia, Moçambique e Brasil. Hoje as minhas empresas faturam mais de 100 milhões de euros/ano. Enfim, é uma vida de alguma dimensão para quem começou do zero. Costumo dizer que só não sou profissional de futebol.

Presidente só amador?
Não sou nem serei dirigente profissional. Ontem voltei logo para cima. Cheguei a Moreira de Cónegos às 6 horas da manhã, que o meu mundo é há 40 anos o das empresas. Estou no futebol há mais de 20 anos e tento incutir a gestão das minhas empresas, ou seja, que é preciso semear para colher. Na formação temos 300 miúdos, estamos na I Divisão Nacional de Juniores. Em mais de 300 concelhos, ao nível da formação estamos nos 15 melhores.

Presidiu ao Vitória de Guimarães de 2004 a 2007 e regressou ao clube do coração...
Sou sócio do Vitória há quase 50 anos, e fui presidente da cidade onde estudei enquanto achei que era preciso. Como muitos adeptos, sou sócio dos dois clubes. Defendo rivalidades sadias, de bons vizinhos num concelho onde há lugar para os duas equipas. A minha filosofia não é acabar com os ricos, é acabar com os pobres. Como disse, tenho empresas em vários países e não há povo mais maravilhoso do que o português. E ninguém trabalha melhor com África do que nós e sei do que fala que já fiz obras de alguma envergadura, como o edifício do Comité Olímpico de Moçambique, no coração de Maputo.

O Parque Desportivo Comendador Joaquim Almeida Freitas pertence ao clube, foi requalificado quando subiram de divisão, mas ainda falta um campo de treinos...
A direção, eu e outros empresários da região, com o apoio da autarquia, fizemos o que podíamos, tal como muita gente da terra às sua maneira.

Quanto já lhe custou a sua paixão pelo Moreirense?
Não sei quanto custou, nem faço contas. Algum, mas não me faz falta. Como já referi, este é um clube solidário, com uma estrutura pequena de funcionários, e a ajuda voluntários de reformados da terra. É um clube com um peso social grande a nível local, não só pelos miúdos que andam aqui, mas também damos apoia a reformados e pré-reformados que vêm aqui fazer manutenção, acompanhados por um profissional. É minha obrigação colaborar com quem precisa.

Roberto e Geraldes foram assistidos após o lançamento de petardos da bancada dos adeptos do Braga. Houve danos?
É pena que se exagere na rivalidade. Futebol tem de ter a sua dose rivalidade, paixão, mas também é necessário respeito e educação, o que nem sempre acontece. Felizmente, foi só um pequeno incidente. O que importa é que foi um final feliz.