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Futebol nacional

Mais uma voltinha, 
mais uma viagem

Lídia Paralta Gomes

Slimani marcou 
na primeira volta, 
fez as malas e partiu


FOTO CARLOS palma/getty images

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De abril de 2016 a fevereiro de 2017 são 10 meses, quatro estações, um Campeonato da Europa de futebol e uns Jogos Olímpicos. Ou um impeachment no Brasil, um ‘Brexit’ no Reino Unido e uma vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas. O mundo mudou. E se o mundo mudou, e tanto, porque não o clássico entre FC Porto e Sporting?

Pois bem, há 10 meses, o FC Porto era treinado por José Peseiro. A época tinha começado com Julen Lopetegui, despedido pouco depois do Natal, quando estava a apenas quatro pontos do primeiro lugar. Depois, foi por ali abaixo. Quando o Sporting se apresentou no Dragão, também na segunda volta, já os azuis e brancos tinham uns impensáveis 10 pontos de atraso para o rival e 12 para o líder Benfica. Naquela tarde de 30 de abril de 2016, a dupla de centrais do FC Porto era constituída por Bruno Martins Indi e pelo nigeriano Chidozie e Sérgio Oliveira foi titular no meio-campo. A época só não estava irremediavelmente perdida porque o FC Porto ainda se encontrava na Taça de Portugal.

No Sporting, João Mário era o maestro e só nessa tarde deu dois golos a marcar. Um deles para Islam Slimani, que ainda fez outro, um dos 27 com que terminaria o campeonato. Bryan Ruiz andava um bocadinho mais do que a passo, e o Sporting sonhava com um título que estava à distância de dois pontos. A vitória por 3-1 aumentou mais a esperança, mas nas duas jornadas seguintes o Benfica não falhou.

Fast-forward até 4 de fevereiro de 2017: esta noite (20h30) há mais uma voltinha e mais uma viagem nessa montanha-russa que têm sido as vidas de FC Porto e Sporting desde essa tarde de 30 de abril e que fazem com que o cenário seja hoje um bocadinho diferente. Agora é o FC Porto que está na mó de cima e uma vitória coloca a equipa de Nuno Espírito Santo na liderança, à espera do que poderá fazer o Benfica amanhã, frente ao Nacional. Coisa talvez impensável há umas semanas. O Sporting, por sua vez, tenta sair de uma crise que deu cabo de uma época que começou muito bem, teve uns tropeções, voltou a entrar nos eixos e depois descarrilou completamente no arranque do novo ano. O leão chega ao segundo confronto da temporada com o FC Porto a seis pontos da liderança e fora dos restantes objetivos da época: Taça de Portugal, Taça da Liga e Europa.

Vamos lá olhar também para o eletrocardiograma azul e branco. Há 10 meses, o FC Porto estava mal, mas o poço ficou ainda mais fundo quando perdeu a final da Taça de Portugal. A nova época começou com dúvidas, aos altos e baixos: em agosto houve fogo de artifício na vitória em Roma por 3-0, que colocou os dragões na Liga dos Campeões, para cinco dias depois se enxugarem as lágrimas após a derrota por 2-1 frente ao Sporting, que no verão era a equipa mais quente do país. Depois houve mudanças táticas e experiências no ataque (Depoitre e Adrián López chegaram a ser titulares, não esquecer), até tudo aparentemente estabilizar, com a entrada de Diogo Jota para o onze — e o regresso de Brahimi.

Por isso, e mesmo sem impressionar, o Porto de hoje não é o mesmo Porto de agosto ou o Porto de Lopetegui e Peseiro, apesar de Jorge Andrade defender que, na sua génese, “a equipa não é assim tão diferente”. Falando já do primeiro confronto desta época, o antigo internacional e agora treinador defende que “o FC Porto perdeu, mas na altura os jogadores ainda não conheciam os processos da equipa”. E que, se hoje este FC Porto luta pelo título, é essencialmente porque “ganhou mais consistência defensiva”. O exemplo mais visível desta melhoria é brasileiro: “Falo principalmente do Felipe, que tem evoluído muito. No início havia dúvidas, até porque chegou a fazer alguns autogolos. Mas agora até no ataque é perigoso. No lado direito o Maxi e o Layún dão garantias e do outro lado o Alex Telles também, sendo que agora até é o rei das assistências. E, com o Danilo à frente, a linha defensiva tem sido o sector mais constante e tem mantido uma regularidade muito positiva.”

Os problemas surgem no ataque (“há algumas intermitências”), mas Jorge Andrade acredita que a questão poderá ter sido solucionada no mercado de inverno. “O FC Porto fez uma contratação que para mim será um apoio muito grande, que é o Soares. Faltava um jogador como ele, que pode dar outro tipo de agressividade atacante. O FC Porto hoje é uma equipa muito mais completa do que aquela que jogou contra o Sporting na primeira volta”, sublinha o antigo central dos dragões.

A falta que eles fazem

Quanto ao Sporting, Jorge Andrade acredita que as saídas de Slimani e João Mário enfraqueceram a equipa que há 10 meses chegou ao Dragão com 10 pontos de vantagem. “Fazem falta, e isso nota-se principalmente nos jogos em que o Sporting não conseguiu aguentar o resultado. Slimani e João Mário são jogadores insubstituíveis”, diz, frisando que os leões chegam ao Dragão com uma “perspetiva real de ainda lutar pelo título”.

Esse fator, mais a possibilidade de o FC Porto passar para a frente da tabela, só poderá resultar numa coisa: “Vai ser um jogo muito aberto e com golos. Contra o Benfica, o FC Porto provou que pode fazer bons jogos, com grande intensidade. E o Sporting é uma equipa que nunca se fecha a defender.”

Um guia pré-clássico

2,4
Gelson Martins chega ao clássico com um novo contrato no bolso e um 
salário de 2,4 milhões de euros por ano (1,2 milhões
 de euros livres de impostos).

Patrício recordista
Entre os jogadores convocados para este FC Porto-Sporting, 
o recordista chama-se 
Rui Patrício: o guardião 
do Sporting vai disputar o seu 23º duelo com o FC Porto 
e o saldo é positivo (9 vitórias, 
8 derrotas e 5 empates). 
O uruguaio Maxi Pereira 
não está longe: fez 20 jogos frente ao Sporting, divididos entre Benfica e FC Porto, 
e saiu vencedor em oito deles.

Árbitro repetente
Hugo Miguel foi o árbitro nomeado para o clássico de hoje, ele que não é estreante nestas andanças, pois apitou o Sporting-FC Porto da última época, em Alvalade: a 2 de janeiro de 2016, os leões bateram os azuis e brancos por 2-0. Esta época já arbitrou o FC Porto frente ao Tondela (empate) e o Sporting por três vezes, 
duas no campeonato 
(P. Ferreira e Sp. Braga) e 
uma na Taça da Liga (Arouca).

Tudo muito nivelado
O jogo desta noite será 
o 225º da história do clássico FC Porto-Sporting. 
E as contas estão muito niveladas: entre Liga, Taça de Portugal, Taça da Liga, Supertaça e Campeonato de Portugal, os leões têm 81 vitórias e o FC Porto 80. Empates foram 63. Mas em confrontos entre Jorge Jesus e Nuno Espírito Santo, a contagem fica bem mais desequilibrada: em sete jogos, Jesus ganhou todos.

Vivam os miúdos!
Há 10 meses, no último clássico jogado no Dragão, os miúdos André Silva e Gelson Martins fizeram um pequeno cameo: o avançado do FC Porto entrou aos 85 minutos e o extremo do Sporting aos 90, quando já estava tudo resolvido. Hoje são jogadores-chave das suas equipas. Ambos com 21 anos, André Silva é o melhor marcador português do campeonato 
(12 golos) e Gelson é o rei 
das assistências (8).