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O físico - ou quando não se quer puxar por ele

O Benfica foi a primeira equipa a marcar e fê-lo cedo. Mas, depois, pareceu que foi perdendo estofo para lidar com os contra-ataques do Chaves. Parecia, apenas. A equipa acelerou, correu e jogou mais na segunda parte, Rafa marcou e Mitroglou bisou para fechar a vitória (3-1) com o seu 22.º golo da época

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O telemóvel juntou-nos na conversa. No dia antes, falámos pela voz, agora, conversávamos pelos dedos. Do nada, ainda com umas horas de sobra até à partida que me ia segurar no trabalho e a ele (talvez) no sofá de casa, envia-me uma imagem. Era a ficha de um jogo do Europeu de sub-19, em 2007, em que Portugal jogou e ele jogou pela seleção. Lembrou-se daquilo para mostrar “os ilustres” com quem jogara. Disse-me, com um “olha lá” que dá a pista que vem aí algo curioso e engraçado, para ver quem rematara a única bola que dera em golo. Por coincidência, era alguém que diz muito a muita gente.

Escrevo que é coincidência porque o jogo de que ele me fala aconteceu há dez anos, nenhum de nós, antes, menciona a Grécia, ele não conhece o tipo que marcou o golo, eu tão pouco, e o Benfica nem era tema de conversa. Mas o rapaz que, na ficha, tinha uma bola de futebol à frente do nome, é o mesmo que já nos habituámos a ver com brilhantina a suster o cabelo, com uma barbicha a alongar o queixo e com uma mecânica no acenar de mão importado da Rainha de Inglaterra.

Pergunto-lhe se, nesse tempo, ele já era como é hoje. Ao que ele me responde apenas isto:

Já tinha o físico que tem hoje.

Ele menciona o corpanzil, o tamanho e a estampa de Kostas Mitroglou, o homem em questão, o que aumenta a coincidência. Porque é isso - o facto de ter alguém com quase 1,90 metros em altura, que é forte e que salta alto - que faz Nélson Semedo cruzar uma bola quando ainda está bastante longe da área. É um bola esperançosa, tão larga que seria das que fazem figas para acertarem em quem a ataca de lado e não em quem a defende de frente. Mas ela cai na cabeça do tal grego que sorri pouco e a cabeceia, quase sem tirar os pés da relva, com força, para a baliza. O físico, e o saber que se tem alguém com físico na área, dava em golo.

O Benfica fazia mais ou menos as coisas como gosta de as fazer: tinha mais bola, usava-a com intensidade, encostava o adversário à área e marcava cedo (17’). Esperava-se que o resto se desenrolasse como mais lhe apraz e é costume, que é a equipa insistir até festejar mais uma ou duas vezes e, aí sim, abrandar e entrar em modo poupança de energia. E não vê-la a poupar a bateria logo após marcar e fazer-me voltar ao mesmo.

Ao físico.

Porque os encarnados, marcado o golo de Mitroglou, correram menos, mais devagar e com menos pressa para terem os jogadores nos sítios certos, na altura certa. Continuaram a ter mais bola por serem quem são e terem quem têm, que são jogadores melhores que os do Chaves, mas isso não chegava. Porque Pizzi, Samaris, mais Rafa e os dois extremos, eram lentos a recuperar posições e a reagirem sem a bola, e do outro lado estava uma equipa que já dera desgostos a FC Porto e Sporting e sabe jogar simples e rápido e fazê-lo com poucos toques na bola e muita gente a movimentar-se como deve ser.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Parecia que faltava físico ao Benfica para acompanhar os quatro contra-ataques que acabaram em remates de Fábio Martins e Pedro Tiba e com paradas de Ederson. O Chaves, que já não tem Assis e Battaglia, gente que corria e suava e laborava, era perigoso e ameaçava muito por, agora, ter Bressan, Braga e Tiba a meio campo, que tocam e passam e fazem a bola correr por eles.

E mesmo que Mitroglou, sem o físico e com o pé direito, ameaçasse com um remate na área, foram os flavienses a marcarem mesmo antes do intervalo. Bressan, à entrada da área e de primeira, fez um golo que, como estamos em época de Oscares, seria o protagonista de “O Estranho Caso do Brasileiro que Jogou pela Bielorrússia”, um eventual filme sobre a sua carreira.

Parecia que o físico estava a dar cabo da equipa do Rui Vitória - porque, se estivesse, não seria de estranhar. A época é longa, vai em 38 jogos, que são 3.420 minutos, jogos a cada três dias e o último deles feito na Liga dos Campeões, a correr atrás da bola da qual o Dortmund abusou e passou.

Tudo isto cansa e, mesmo sendo criticável, os encarnados pareciam cansados. A culpa era do físico. Ou talvez não, porque a segunda parte começou e o Benfica voltou a portar-se como costuma no início dos jogos - a ser agressivo, intenso, a trocar jogadores de posição no ataque e a jogar ao primeiro e ao segundo toque. Mal Jonas, o profeta desta forma de jogar, se levantou do banco em que começou sentado e se preparou para entrar, uma dessas jogadas acabou com Nélson Semedo a cruzar na área para Rafa encostar. Era um sinal.

Um sinal de que o problema, afinal, não era o físico, mas o querer, ou não, aproveitá-lo. Feito o segundo golo, o Benfica foi domando o Chaves - que foi tentando reagir e errando como não errara na primeira parte - e associando os jogadores com a simplicidade que resulta. Com Jonas já no centro de tudo e a dar seguimento à bola, ele, Zivkovic, Pizzi e Nélson Semedo remataram no fim de jogadas bonitas. E já depois de Pedro Tiba, de longe, bater na bola e ainda obrigar Ederson à melhor parada do encontro, voltámos à questão do físico.

O de Mitroglou, que usou o dele para afastar e ultrapassar o central Massaia e, na área, apanhar o passe de Jonas. Fez o terceiro golo da vitória do Benfica, o seu 22.º da época e provou que não é uma questão de ter físico - é mais saber usá-lo. Ou puxar por ele.