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Quando é Carnaval e se experimenta uma máscara diferente

Jorge Jesus voltou a apostar em Palhinha, tentou mascarar William de Adrien e o Sporting, quando se habituou às coisas novas, mascarou-se com uma vitória (2-0) contra o Estoril, que até podia ter engordado para lá dos golos de Bryan Ruiz e Bas Dost

Diogo Pombo

Mário Cruz / Lusa

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Stanley Kubrick era um americano que passou a vida a baloiçar na corda bamba entre a genialidade e o bizarro. As coisas que fez na vida, e a vida dele foi a de um realizador de cinema, portanto, baloiçavam da mesma forma. Kubrick não fez muitos filmes, mas, aos que fez, deu quase sempre uma pitada de momentos esquisitos - que são pedaços de bom cinema e que nos fazem pensar como ele brincava tão bem com uma linha tão ténue. Um desses momentos é no último filme que fez, chamado “De Olhos Bem Fechados”.

Nele há um Tom Cruise novo, rico, bem vestido e a viver de luxos, que começa a deixar a mulher sozinha com as noites e com a casa. Porque ele deixa-se encantar pelo bizarro e o estranho de uma festa cheia de pessoas como ele, mas sem cara, por se taparem com máscaras bizarras e estranhas, enquanto fazem coisas tão bizarras e tão estranhas que nem cabem nestes dois adjetivos.

E conto-vos isto, quer tenham, ou não, visto o filme, por estarmos no Carnaval e no tempo de máscaras e por haver muita gente no Estoril-Sporting que parece levar a tradição de mascarar bastante a sério.

Sem Adrien, que se lesionou, Jesus tentou fazer de William Carvalho um oito que vá, volte, corra, coma quilómetros de relva e dê rotação ao ritmo a que a equipa joga. Tudo o que ele não é, nem João Palhinha, o miúdo que tentou mascarar de William e perde bolas, perde no corpo-a-corpo com tipos mais franzinos e não tem nos pés o passe que a equipa está habituada a ter ali.

O Sporting não é o mesmo. Mascara-se de uma equipa lenta com a bola e a ter de recorrer aos passes longos e pelo ar. Tenta disfarçar a lentidão de ter os dois Ruiz - que são os únicos que, mesmo a passo, dão critério ao jogo -, mas as fintas de Gelson e as cavalgadas solitárias de Schelotto parecem não chegar. O Estoril tenta ser rápido, ter a bola perto de Eduardo Teixeira e Matheus Índio, canhotos brasileiros com mais técnica no pé, só que não consegue entrar na área dos leões com a bola. Tenta mascarar-se de equipa perigosa e que pressiona lá à frente e que tem a linha dos defesas quase no meio campo.

Isso não lhe sai caro, como o momento em que, no filme de Kubrick, os mascarados da festa bizarra percebem que Tom Cruise não pertence ali, porque Luís Ribeiro mascarou-se por três vezes de Manuel Neuer e correu área fora para afastar as bolas com que o Sporting tentou explorar isso. E o jogo foi sendo assim-assim até Alan Ruiz fazer um raro pique para receber a bola na direita, a cruzar para a área e a espécie de remate de Schelotto ser desviado por Bryan Ruiz, colado à baliza.

O golo (23') deixou os leões mais confortáveis e à vontade com as máscaras. A bola chegou mais a William e Alan e Bryan perceberam que, com ele recuado e Palhinha mais ainda, tinham de recuar também. Aproximaram-se uns dos outros, o Sporting habituou-se a controlar a bola assim e o hábito foi-se prolongando. William mostrou-nos que o remate, para ele, continua a ser um problema, quando atirou uma bola bem por cima da baliza, à entrada da área, cruzada por Gelson - que cruzou outra, de trivela, para Bas Dost não ir na cantiga de um golo cantado, ao falhar o remate perto do segundo poste.

Depois, com o tempo, e como a tal festa em que Kubrick enfiou Tom Cruise, houve o estranho de ver o melhor marcador do campeonato falhar outro golo feito, em outra bola cruzada por Gelson. E o bizarro de ver Paulo Oliveira a jogar vários minutos com o pescoço e a cara ensanguentadas, após abrir um corte na cabeça.

Entre os muitos cruzamentos com que o Estoril tentou chegar a Kléber, na área - só tiveram uma jogada em que o avançado se desmarcou e dividiu uma bola com Rui Patrício -, o Sporting foi melhorando com a relação entre Palhinha e William. Eles atinaram um com o outro, eram dois a recuar e guardar a área e começaram a dividir-se melhor nos espaços onde pedir, tocar e ter a bola.

O novato roubou uma bola, aguentou uma carga, arrancou e com um passe isolou Gelson, que deu um jeito a mais à bola e a desviou (70’) para lá da baliza. O graúdo e capitão foi o cerébro no centro da melhor posse de bola que o Sporting teve no jogo e que pensou a jogada que acabou com Diakhité a derrubar Bas Dost - e com o holandês que JJ disse, depois, que não sabia marcar penáltis, a levar dali o 18.º golo no campeonato (86’) e, talvez, a única alegria que teve no jogo. E nada foi parecendo estranho a Jorge Jesus, que apenas começou a fazer substituições a 10 minutos do fim.

A melhor máscara para o Sporting foi a que conseguiu vestir pela segunda jornada seguida - a de equipa que não sofreu golos, quando já tem 24 sofridos no campeonato. E a da vitória, a quarta consecutiva, que o deixa seguro no terceiro lugar e em posição de Liga dos Campeões que, como diz JJ, tem de defender.

E nisto não há nada de estranho, nem bizarro.

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