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Uma vitória para o FC Porto - e um olhar triste, fechado e desiludido

Os dragões venceram o Boavista por um golo (1-0) e quem o marcou foi o brasileiro que chegou em janeiro e já vai com cinco. Soares voltou a decidir e, pela primeira vez esta época, alguém que joga sempre ficou a ver tudo do banco

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Vimo-lo a sentar-se, triste, a levar a mão à cara e, com os olhos e meia testa tapados, a pintar-se no retrato de desilusão. Só teve direito a meia hora de futebol por ter sido o primeiro a passar pela cabeça do treinador depois de Telles perder a dele, ser expulso e estragar-lhes a vida. E vimos o miúdo que é portista, é do FC Porto, é dentes cerrados, é cara fechada e é o produto de uma vida crescida a fazer-se jogador do clube, a entristecer-se por se aperceber do que lhe estava a acontecer.

Pela terceira vez em quatro jogos, ele era o primeiro a sair para alguém entrar. O que, fora das linhas do campo e lido entre as linhas, quer dizer que estava a entrar na fronteira de ser algo entre o 11.º e o 12.º jogador. Isto numa equipa que, durante muito tempo, era ele e mais outros 10. Não deve ter sido fácil para André Silva, porque André Silva é o miúdo de 21 anos que tem o peso de ser português, ter uma fama que o persegue, de ir com 18 golos marcados, de inícios auspiciosos na seleção e de prometer muito num país em que não há árvores de onde caiam avançados.

E ele, com a mesma cara cerrada, de quem não quer mais amigos além dos que já tem, ou diz, com voz banal, que quer marcar golos ao melhor guarda-redes de uma geração (Buffon) porque já marcou vários, nos treinos, ao segundo melhor (Casillas), mais fechado se põe quando se senta no banco do Boavista-FC Porto - e nos faz pensar que a vida de um avançado português não é mesmo nada fácil quando chega alguém de fora para fazer o mesmo que ele.

Esse alguém é Soares, o brasileiro que está na pequena área para encostar o pé à bola (8’) cruzada por Corona e dar aos dragões o 1-0 que não faz André Silva sorrir. Porque ele, como nós, deve saber que é o sexto jogo seguido do avançado a marcar e o quinto golo que marca no FC Porto. E vê como Soares, com os novos amigos Brahimi e Corona, troca constantemente de posições e, com André e Óliver atrás, a fazerem o mesmo, se entende na confusão que criam e tira proveito do quão eles confundem a defesa do Boavista.

Mas Soares, para mal dos dragões e para bem do miúdo que está sentado a esmiuçar-lhe todos os movimentos, falha depois com o otimismo com que tenta um chapéu (34’), e com as mãos de Vagner, que lhe param um remate (35’). Em tudo o que o FC Porto faz de bom há Brahimi a fintar o mundo contra o qual sempre joga, já depois de ser Casillas o primeiro guarda-redes a mostrar que os reflexos não envelhecem. Nem o juízo, que é inconsciente nos pitons de Talocha que lesionam Corona e moem o juízo do mexicano que dá a faísca ao sururu que há ao intervalo. O que expulsa Nuno Espírito Santo e Alfredo Castro, treinador de guarda-redes do Boavista.

MIGUEL RIOPA

Acalmadas as coisas, o frenesim portista também se acalma na segunda parte. É uma equipa coxa sem Corona e apenas com um extremo. O raio de espaço livre à volta de Óliver e André aperta-se, Diogo Jota não gosta de viver na linha e Soares não tem o que, nestas alturas, sai de dentro de André Silva - corridas sem fim, desmarcações para as linhas, caça à profundidade e comportar-se como um avançado de apoios quando não dá para ser apenas um de área.

O jogo cede às tentações de um dérbi - fica durinho, com muitas faltas, ressaltos mil e com tantos passes errados como bolas a viajar no ar. Ao Boavista não chega o pé esquerdo de Iuri Medeiros, os pés de lã de Fábio Espinho e os dois avançados com que chega a arriscar. Ao FC Porto quase que é suficiente o que Soares tem dentro dele - a raça, a luta e o combate daqueles momentos de olhar só para bola e levar o melhor das jogadas, à força. É assim que foge de um beco na direita, se livra de dois adversários e deixa a bola à entrada da área, onde André remata (pouco por cima da barra) a única oportunidade que os dragões têm na segunda parte.

O ponto baixo, para eles, é o momento em que Maxi duplica os amarelos e confirma o segundo jogo seguido em que o FC Porto tem alguém expulso. E André Silva, no banco, com o olhar perdido na cara cerrada, triste e sem reação ao segundo em que realiza que a vida no futebol nem sempre é a subir ou feita de flores. Porque é a primeira vez na temporada que é convocado, não é titular, fica no banco e não joga.

Ele parece estar a descer enquanto Soares sobe e a equipa se mantém lá em cima, a um ponto do Benfica. E o olhar diz tudo.

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