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Senna, o tetra é teu

No primeiro dos artigos que vamos publicar ao longo desta semana sobre que memórias têm os jornalistas da Tribuna do primeiro jogo de futebol de que se lembram, Lídia Paralta Gomes recorda a final do Mundial de 1994, entre o Brasil e a Itália, realizado no dia 17 de julho nos Estados Unidos, no estádio Rose Bowl, em Pasadena

Lídia Paralta Gomes

AQUELE FALHANÇO. Brasil festeja o tetra no Rose Bowl, depois de Roberto Baggio errar a baliza de Taffarel

Omar Torres/Getty

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Eu era mesmo muito miúda mas há coisas que, vá-se lá saber porquê, ficam. Não me lembro de muito, apenas de entrar com o meus pais e a minha irmã num tasco ali em Matosinhos chamado Rei da Sardinha Assada, um tasco daqueles a sério, com bancos de madeira e uma grelha à vista de toda a gente, de olhar para a pequena televisão pendurada na parede e ver que o FC Porto perdia por 1-0 com o Famalicão. Talvez pelos comentários que ouvia vindos do balcão, achei aquele resultado assaz estranho. Mas não liguei muito mais e voltei para o meu carapau grelhado.

Fui agora pesquisar e esse jogo realizou-se a 7 de março de 1993. Eu tinha 5 anos, portanto. Esta é a minha primeira memória futebolística, mas é possível que não conte para este exercício. O primeiro jogo que me lembro a sério realizou-se um ano e tal mais tarde e não foi um jogo por aí além: a final do Mundial de 1994, Brasil-Itália, a primeira a resolver-se nas grandes penalidades.

Eu torcia fervorosamente pelo Brasil. Não que percebesse alguma coisa de futebol na altura, mas dois meses e meio antes tinha visto o meu primeiro ídolo desportivo perder a vida na curva Tamburello. E se Ayrton Senna era brasileiro, era pelo Brasil de Romário e Bebeto que eu ia torcer. A minha irmã pintou inclusivamente umas bandeiras a lápis de cor, às quais nem faltava o “Ordem e progresso”. Não quero mentir, mas penso que nos inspirámos numa bandeira gigante com que um vizinho emigrante no Brasil tinha vestido a casa (e olhem que a casa era grande). Uma bandeira em que podia ler-se a frase “Portugal e Brasil: dois países, um coração”.

Levámos aquilo a sério e sofremos muito naquela final, em que pela primeira vez ouvi o termo “morte súbita” aplicado ao futebol ou a outra coisa qualquer - não sei porquê, acho que nem sequer havia golo de ouro naquela altura. Mas sofremos porque sentíamos que, lá em cima, Senna ficaria feliz com o título. Como já disse, o jogo não teve grande graça, mas lembro-me bem do meu coração ter ficado pequenino e mirradinho depois daquele remate do Mauro Silva que o Pagliuca não segurou ter batido, como que por inércia, no poste da baliza italiana. Ahh, foi quase!

Lembro-me também, claro, de Roberto Baggio falhar aquele penálti, de Dunga receber a taça de Al Gore. Mas, mais que tudo, lembro-me dos jogadores brasileiros darem uma volta ao Rose Bowl com uma tarja que dizia: “Senna… aceleramos juntos. O tetra é nosso!”. Aos 6 anos, eu não sabia o que significava a palavra catarse, mas hoje, 23 anos depois, quase podia jurar que foi isso mesmo o que senti.

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