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À memória do tio Cruz

Nunca saberei que jogo era, mas nunca mais esqueci a minha primeira ida ao futebol. Durante toda esta semana publicamos a memória que os jornalistas da Tribuna têm do primeiro jogo de futebol a que assistiram

Alexandra Simões de Abreu

d.r.

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O tio Cruz era um tipo magricela, que usava calças à boca de sino e um boné aos quadradinhos. Era pai da Dulce e sogro do Serrano, grandes amigos dos meus pais. Como tínhamos chegado todos pouco tempo antes de Angola, uns mais retornados do que outros, os laços afetivos e o convívio ainda estavam muito presentes. Lembro-me de visitar o tio Cruz e a sua mulher, a Lili (que faz o melhor arroz de manteiga do mundo) com muita regularidade e até de passar alguns fins de semana em casa deles.

Calculo que tenha sido numa dessas minhas curtas estadias que o tio Cruz tentou catequizar-me. Agarrou no cachecol vermelho e branco, colocou a pastinha preta debaixo do braço, o boné na cabeça e lá fomos nós Rua Damasceno Monteiro abaixo. Eu tinha talvez uns sete anos e não faço a mínima ideia de qual foi o jogo. Tenho o raio de uma memória tão desmemoriada que confesso ter admiração por aqueles que se recordam de jogadas inteiras de mil novecentos e troca o passo.

Bem, mas voltemos àquela tarde de sábado ou domingo, do ano de 1976 ou 77. Lembro-me de ir de mão dada com o tio Cruz no meio de uma multidão de homens que falavam e se riam alto. Mesmo sem entender nada do que diziam, gostava de ver o sorriso rasgado do tio Cruz. Era o suficiente para me sentir feliz.

Não recordo nada do jogo, mas lembro-me que, de vez em quando, alguns homens - e o tio Cruz - levantavam-se da bancada de cimento. Eu punha-me logo de pé também. Eles esbracejavam, eu fingia que percebia. Até que, de repente, após uma enorme algazarra, os homens começaram a ir-se embora e alguns desataram a atirar para o relvado aquelas pastinhas pretas, que quando se abriam tinham uma espécie de almofadado em veludo vermelho para nos ajudar a não ficar com o rabo tão quadrado. Umas abertas, outras fechadas, choviam almofadas de todos os lados. O meu ar de espanto devia ser tal que o tio Cruz olhou para mim a rir-se à gargalhada. “Queres atirar?”. Então não queria!

Voltámos para casa contentes, por isso acredito que o resultado agradou ao tio Cruz. E foi já junto da Lili que veio o momento mais difícil para mim. “Ela já é do Benfica, não és Xaninha?”. Ainda hoje não sei porque é que sou do Sporting. O meu pai e o meu irmão nem sequer ligavam muito à bola. Desde Luanda que preferiam o karaté. Nunca descobri uma explicação, mas nunca menti ao tio Cruz. Ele também nunca se zangou comigo. Ao longo dos anos cultivámos uma rivalidade sã, que era mais um laço. Sempre que nos encontrávamos havia picardia.

A última vez que falámos de futebol foi ao telefone. Liguei-lhe por causa dos famosos 7-1 com que o Sporting derrotou o Benfica, em 1986 . Ele riu-se, mais feliz por me ouvir do que outra coisa. Não sei se foi por causa do tio Cruz, mas nunca consegui odiar o Benfica. Tenho amigos que dizem que só por isso não sou sportinguista a sério. Bom, a verdade é que nunca deixei de ser do Sporting - mesmo se o meu primeiro jogo de futebol foi, na Luz, ao lado de um benfiquista ferrenho, que eu tanto admirava… - e apesar de o raio do clube não vencer um campeonato há 15 anos. É que, o que nasce no coração nunca morre.

À tua, tio Cruz.