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Ele não tinha pés de chumbo

No terceiro dos textos que publicamos esta semana sobre a primeira memória que os jornalistas da Tribuna Expresso têm de um jogo de futebol, Diogo Pombo recorda a estreia do Brasil no Mundial de 1998. E lembra-se de um tipo careca, dentudo e com uma baliza dos dentes, que brincava com toda a gente

Diogo Pombo

O DAS CHUTEIRAS ESQUISITAS. Ronaldo, o verdadeiro, o Fenómeno, é o que está à esquerda, em baixo

d.r.

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Nas paredes lá de casa cabia pouco futebol. A televisão, a única, estava na sala, e era do meu pai e da minha mãe nos horários deles, gente de trabalho diurno e descanso noturno e com um filho na idade de querer tudo a todo o tempo. Os flashes da Parmalat em camisolas encarnadas e do Queijo Castelões nas listadas a verde e branco, do Isaías, do Paneira e do Preud’homme, do Balakov, do Figo e do Oceano, são apenas rasgos de memória por culpa disso - do merecido lazer deles calhar nas mesmas alturas em que eu sabia que a bola ia aparecer no ecrã.

Eles, avessos a futebol, queriam ver as coisas deles. Não senhor, ali não havia tempo para "pés de chumbo", como o meu pai chamava, e ainda chama, a todos os que vivem a vida a pontapear. Nesse tempo, miúdo que era miúdo jogava à bola com outros miúdos durante cada minuto do recreio ou do tempo de esperar pelos pais, na escola. Era assim que eu vivia o futebol. E só o devorava e discutia e pensava e idolatrava, sem o jogar, quando estava com o meu avô, craque no tempo dele, um leão arrancado das águias pelos pais e meus bisavós, que o queriam a estudar e não a viver a vida ao pontapé.

Se não, talvez tivesse sido outro pé de chumbo, para o meu pai.

Só que, quando o forno já aquecia para o verão, lembro-me de ver amigos, colegas e miúdos, com os mesmos 9 e 10 anos, a faltarem nos campos pelados e alcatroados lá da escola. Era 1998. Preferiam ficar a rasgar cadernetas, a prender cromos com elásticos, a trocar os excessos por novidades que lhes faltavam colar. Vinha aí um Mundial, deixei-me levar. Entrei no vício e a boa vontade (dinheiro) de minha mãe deixou que eu me viciasse e levasse amigos lá a casa, para passarmos tardes a viver dos cromos. A corrida da caderneta fez-me acabá-la antes de o torneio arrancar. Por isso, tinha de o ver.

Não sei como, mas logrei ter a televisão para mim no dia em que um brasileiro careca, com dentes grandes e uma baliza no meio deles, ia jogar. Era o Brasil-Escócia e eu sabia que Ronaldo era o nome do tipo que vivia da forma que todos os putos do recreio tentavam viver. Era o melhor a fintar, a ultrapassar, a driblar, a correr, a marcar golos, e a fazê-los parecer fáceis e a fazer-nos querer imitá-lo. Lembro-me de estar sentado no chão, colado à televisão, a vê-lo com umas chuteiras esquisitas da Nike, fazer isso tudo. E a brincar com um escocês grande, com uma cabeleira ainda maior, loiro e tosco - chamava-se Colin Hendry -, como nós queríamos brincar uns com os outros, nos recreios. A minha mãe a dizia-me para endireitar as costas ou ir para o sofá.

E lembro-me do meu pai chegar à sala. Pensei, pronto, foi bom enquanto durou, sem saber que, entre uma frase com “pés de chumbo” no meio, ele ousou olhar para a televisão. Calou-se. O pai ficou tão admirado que começou a fazer perguntas ao filho. Quis saber quem era aquele brasileiro com dentes feios e a fazer coisas feias aos adversários, que ele e eu e toda a gente achava que eram das mais bonitas que podia haver. Até à final, salvo erro, vimos juntos todos os jogos do Brasil. Foi a primeira vez que partilhei um torneio e uma televisão e um interesse pelo futebol com o meu pai. Tenho a certeza que foi por causa desse jogo em que, por acaso, o Ronaldo nem marcou.

Mas este era o brasileiro que era mais brasileiro que os outros. Não podia estar mais longe de ser um pé de chumbo.