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Do “Magagaga” de Lourenço Marques ao “Pantera Negra” do Benfica e de Portugal, a carreira de Eusébio, o “King”, chega no dia 23 às salas de cinema

Nelson Marques

IMPARÁVEL. Na final da Taça dos Campeões Europeus de 1963, contra 
o AC Milan, Eusébio remata para golo perante o olhar impotente de um homem 
que, 42 anos depois, daria um título nacional ao Benfica, Giovanni Trapattoni

FOTO Central Press/Hulton Archive/Getty Images

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“Estar ao pé de Eusébio era como estar na presença de Deus”
Rui Costa

O homem era rápido como uma gazela, mas forte como um touro. Metia a bola na frente, corria atrás dela, deixava os adversários tombados pelo caminho e só ficava satisfeito quando puxava a ‘culatra’ atrás e via o esférico anichar-se no fundo das redes. “E então não era golo, era poema”, haveria de escrever Manuel Alegre. Como naquela arrancada imparável contra a Coreia do Norte no Mundial de 66: recebeu a bola de Coluna no meio-campo português, arrancou por ali fora, deu 17, 18 toques, sofreu uma pancada à entrada da área, aguentou-se em pé e só caiu quando levou “uma sarrafada brutal”. Penálti que o próprio converteu no segundo golo de uma reviravolta épica. Ou como naquele que ele considerava ter sido o jogo da sua carreira e da história do Benfica, a vitória por 5-1 contra o poderoso Real Madrid, um ano antes, nos quartos de final da Taça dos Campeões Europeus: pegou na bola sobre a linha divisória, foi avançando enquanto os jogadores espanhóis recuavam e, desta vez, não houve pancada que o parasse — à entrada da área rematou, fulgurante, para golo e depois correu de braços erguidos ao céu, uma das suas imagens de marca. Aquela não era a noite do Real, era a noite do “Rei”.

Antes, foi “o príncipe do futebol no subúrbio”, nas palavras de outro poeta, José Craveirinha, que, como ele, cresceu entre as casas de madeira e zinco da Mafalala, bairro pobre da periferia de Lourenço Marques (hoje Maputo). Chamavam-lhe “Magagaga”, supersónico em ronga, uma das línguas locais, porque era tão rápido que não havia quem o apanhasse. Ganhou as primeiras medalhas nos 100 e nos 200 metros, com a camisola do Sporting de Lourenço Marques, mas o futuro não passou pelo atletismo, porque só tinha olhos para a bola. Sonhava ser como o seu ídolo, Alfredo Di Stéfano, astro argentino do Real Madrid.

Por isso, quando a mãe o mandava fazer recados, ele perdia-se a jogar futebol, descalço, no chão de areia vermelha da Mafalala, de onde saíram outros craques, como Mário Coluna, do Benfica — “o senhor Coluna”, como ele respeitosamente o tratava —, Hilário, do Sporting, e os irmãos Vicente e Matateu, que brilharam no Belenenses. “Naquela altura, se Moçambique fosse independente, teria uma grande seleção, não apenas no futebol mas também no hóquei em patins”, conta ao Expresso Joaquim Chissano, que sucedeu a Samora Machel, tornando-se o segundo Presidente do país após a independência. Os dois líderes históricos viveram ambos na Mafalala. Chissano, três anos mais velho do que Eusébio, recorda o talento precoce do conterrâneo: “Jogámos juntos algumas vezes, descalços, com bola de papel de jornal, de meia ou de bexiga de vaca, tudo o que se podia improvisar. Ele era um prodígio, teve sempre um remate muito forte. Lembro-me de um jogo em que estava o cunhado do meu irmão como guarda-redes. O Eusébio disparou e a bola embateu com tanta força no estômago do homem que ele vomitou ali mesmo.”

EUSÉBIO DA SILVA... PEREIRA?

Eusébio nasceu às 15h40 do dia 25 de janeiro de 1942, no Hospital Central Miguel Bombarda, em Lourenço Marques. O pai, Laurindo António da Silva Ferreira, era um angolano branco que fora transferido para os Caminhos de Ferro de Moçambique e que jogara futebol, a médio, no Ferroviário — morreria de tétano aos 35 anos, tinha Eusébio 8. A mãe, Elisa Anissabeni, negra, teve de cuidar sozinha dos cinco filhos (quatro rapazes e uma rapariga). Acabaria por casar-se de novo, tendo mais três. De todos, só Eusébio ficou pela 4ª classe. A escola não era com ele.

O sonho do pai, benfiquista, era vê-lo jogar no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica. O rapaz tentou a sua sorte três vezes e três vezes recusaram dar-lhe uma oportunidade, por ser demasiado franzino. Acabou por ser o rival Sporting a aproveitar para deitar mão à ‘pérola’, então com 15 anos. Eusébio chorou de desgosto, mas achou que aquele podia ser o primeiro passo para o seu sonho: jogar numa grande equipa da metrópole. Foi inscrito na Associação de Futebol de Lourenço Marques com um gralha: em vez de Eusébio da Silva Ferreira era Eusébio da Silva... Pereira.

FOTO Central Press/Getty Images

Como ainda não tinha idade para jogar nos juniores, alinhava só em encontros particulares. No primeiro, uma vitória por 3-0, fez os três golos. Repetiu a façanha na sua primeira partida oficial, contra o ‘seu’ Desportivo. Pediu para não jogar, mas não lhe deram ouvidos, e acabou por marcar os três golos da vitória por 3-1. No final, não sabia se havia de rir ou de chorar.
O clube arranjou-lhe um emprego na Volkswagen: 1200 escudos por mês para tratar do arquivo. Não foi o primeiro dinheiro que ganhou. Antes, ajudou um irmão que tinha um gira-discos e fazia animação em casamentos e batizados. Eusébio ia com ele e recolhia as gorjetas.

Ficou no Sporting de Lourenço Marques até o Benfica o levar para Portugal, numa novela que teve vários capítulos. O Sporting de Portugal também o queria, mas Eusébio recusou ir à experiência e acabou por aceitar a proposta da Luz. Foi Mário Tavares de Melo, dono de um talho no Bazar de Lourenço Marques, quem tratou de tudo. A viagem para Lisboa foi marcada em nome de E. Da Silva e Eusébio embarcou apenas cinco minutos antes da descolagem, com todos os passageiros já dentro do Super Constellation da TAP. Os contactos com o Benfica fizeram-se usando nomes de código. Eusébio era Ruth.

“É OURO DO CÉU, O MENINO!”

Chegado a Lisboa numa noite fria de dezembro de 1960, vindo do calor tropical, Eusébio quis desistir de tudo e regressar a Moçambique. “Trazia um fatinho de verão e parecia um patinho a tremer. Quis voltar para casa. Fui ter com o senhor Coluna e disse-lhe: ‘Isto é muito frio, não é para mim’”, contou a Filipe Ascensão, realizador do filme “Eusébio, História de Uma Lenda”, que tem estreia marcada para dia 23. Decidiu ficar e, no primeiro treino, 72 horas depois do desembarque na Portela, levou Béla Guttmann ao êxtase. “É ouro, é ouro do céu, o menino!”, exclamou o treinador húngaro.

Por causa do complexo processo para a sua inscrição — primeiro o Sporting de Lourenço Marques tentou travá-la, depois o Sporting de Portugal procurou desviá-lo, levando o Benfica a escondê-lo num hotel ao pé de Lagos durante 12 dias —, esteve quase meio ano para se estrear. O imbróglio ter-lhe-á custado a oportunidade de inscrever o nome entre os vencedores da primeira Taça dos Campeões Europeus conquistada pelo Benfica (vitória por 3-2 sobre o Barcelona, a 31 de maio de 1961, em Berna). Fez a sua estreia uma semana antes, alinhando na vitória das reservas sobre o Atlético (4-2), no Festival de Despedida e Homenagem à equipa que partia à procura da glória europeia. Precisou de apenas três minutos para marcar o primeiro golo e somou mais dois nessa noite. “Podia ter feito melhor”, disse no final.

A COROA HERDADA DE DI STÉFANO

A estreia oficial foi amarga. Um dia depois da final europeia, uma equipa de reservas do Benfica — desfalcada dos 15 jogadores que foram à Suíça — foi eliminada da Taça de Portugal pelo Setúbal (1-4). Eusébio marcou o único golo da equipa, mas desperdiçou um penálti, defendido por Félix Mourinho, o pai de José Mourinho. Até ao final da sua carreira, só três outros guarda-redes seriam capazes de repetir tal façanha perante o “Pantera Negra”.
A alcunha colou-se-lhe à pele depois de, em outubro de 1961, ter feito a segunda de 64 internacionalizações (41 golos) com a camisola da seleção nacional. Portugal perdeu em Wembley com a Inglaterra (2-0), mas só falhou o apuramento para o Mundial do Chile porque por três vezes os remates de Eusébio esbarraram na madeira nesse jogo. O jornalista Desmond Hackett, do “Daily Express”, ficou tão impressionado com a sua agilidade felina que lhe chamaria “Black Panther”, o “Pantera Negra”.

Ainda não tinha um ano de Benfica quando começou o seu calvário de lesões. Depois de ter defrontado o FC Porto encharcado em novocaína, deixou as Antas a coxear e foi operado de urgência ao menisco na Clínica da Cruz Vermelha. Foi a primeira de seis operações ao joelho esquerdo e uma ao direito. Por causa das dores, uma toalha branca tornou-se a sua peça sagrada: era nela que abafava os gritos quando lhe espetavam as agulhas no joelho. Depois de terminar a carreira, receava acabar como o amigo Lev Yashin, lenda russa das balizas, a quem tiveram de amputar uma perna.

Apesar das dores, queria sempre jogar. E jogava que se fartava. No Benfica, marcou 473 golos em 440 jogos oficiais, conquistou uma Taça dos Campeões Europeus, 11 Campeonatos e 5 Taças de Portugal, assinando algumas das páginas mais douradas da história do clube. Como em 1962, quando se vingou contra o Real Madrid da ausência na final da Taça dos Campeões Europeus um ano antes. Ao intervalo, os espanhóis venciam por 3-2, com um hat-trick de Puskas. No balneário, Guttmann estava furioso: “Vão comer bacalhau, pá!” Depois, lá motivou os jogadores: “Calma, calma. Este jogo está ganho, eu sei.” Coluna, a quem Dona Elisa enviara uma carta pedindo-lhe que cuidasse do seu rapaz em Lisboa, fez o empate. Eusébio fez os outros dois golos, o primeiro de penálti, num episódio que ficou célebre: quando ia para marcar, o uruguaio Santamaria aproximou-se dele e chamou-lhe “maricón”; Eusébio perguntou a Coluna o que significava aquilo, e este só respondeu que fizesse golo e chamasse “cabrón” ao adversário. O jovem moçambicano cumpriu escrupulosamente.

fotografias cortesia da FAMÍLIA/SPORT LISBOA E BENFICA

fotografias cortesia da FAMÍLIA/SPORT LISBOA E BENFICA

No final, entre a euforia da sua primeira — e única — Taça dos Campeões Europeus, tudo o que Eusébio queria era a camisola 10 do seu ídolo Di Stéfano. Transportado em ombros pelos adeptos, escondeu a relíquia nos calções. No “Daily Mirror”, Peter Wilson, referência do jornalismo desportivo britânico, assinalou a passagem de testemunho simbólica entre dois dos melhores jogadores de futebol do mundo: “Às 21h20 de quarta-feira, Alfredo Di Stéfano, de 35 anos, tirou a sua camisola e deu-a a um rapaz de 19 [tinha 20, na realidade], de Moçambique. Foi o velho capitão a entregar a sua posição, a sua coroa simbólica. A tremenda velocidade, a força do tiro de Eusébio e a sua espantosa facilidade em aparecer e desaparecer na grande área, como uma negra estrela errante, talvez façam dele já o melhor interior-direito da Europa.”

A camisola do astro argentino era tão preciosa que, muitos anos mais tarde, Eusébio irritou-se quando uma das filhas ousou vesti-la. Carla tinha “17, 18 anos” e preparava-se para ir com as amigas ao 2001, histórica discoteca no Autódromo do Estoril. “O meu pai tinha muito bom gosto, e eu vestia tudo o que era dele quando ele estava fora de casa. Aquela camisola tinha uma cor muito gira [roxa], dava um ar muito de surf, e decidi vesti-la. Cheirava a naftalina e tive de pôr quase o Aramis todo dele por cima”, conta. Para que o pai não se apercebesse, escondeu-a debaixo de três camisolas e de um casaco de penas. Estava quase a sair quando o pai a chamou. “Mandou-me tirar as camisolas todas, uma a uma. Quando viu que a camisola era do ídolo dele já não me deixou sair. Eu só soube que era do Di Stéfano muitos anos depois, quando vi uma reportagem na televisão.”

No “De Telegraaf”, o jornal de maior circulação da Holanda, o triunfo da equipa portuguesa e a exibição de Eusébio na final de Amesterdão foram difíceis de digerir. Na primeira página, a foto do jogador levado em braços pela multidão tinha uma legenda em tom difamatório: “Eis Eusébio, exausto pelo cansaço despendido ou pelas drogas que tomou.” Guttmann ficou furioso com a insinuação: “Eusébio drogado?! Se ele precisa de drogas é para ter menos força!”

Nesse ano, entre 17 de maio e 30 de agosto, o astro do Benfica fez 17 jogos e em todos eles marcou pelo menos uma vez. Foi a melhor série da sua carreira.

A SOMBRA DA “VELHA RAPOSA”

Uma das maiores desilusões da carreira de Eusébio aconteceu em 1963, quando o Benfica foi a Londres tentar conquistar a terceira Taça dos Campeões Europeus consecutiva, contra o AC Milan. Eusébio marcou logo aos 19 minutos, numa arrancada irresistível em que deixou para trás o defesa italiano que foi a sua sombra durante todo o jogo (a imagem de Eusébio todo no ar e o olhar impotente do adversário ficarão para a eternidade). Os dois voltaram a encontrar-se 41 anos depois no Estádio da Luz, quando o italiano foi escolhido para treinar o Benfica, após o clube estar 11 anos sem conquistar o campeonato. Era Giovanni Trapattoni.

Em 2014, no dia da morte do “King”, a “Velha Raposa” rendeu-lhe homenagem: “O Eusébio arrancou do meio-campo, em potência, e eu corri direito a ele, mas ele era muito mais veloz do que eu e fez um golo a Ghezzi, um golo incrível, e agora devo reconhecer que era impossível detê-lo.” No “L’Équipe”, Jacques Ferrand descreveu a jogada como “uma dupla obra-prima” e chamou a Eusébio “o Pelé português”.

O Benfica acabaria por perder esse jogo (1-2) e, no final, Eusébio não conteve as lágrimas. Foi a primeira vez que chorou em Wembley. A segunda foi três anos depois, um choro convulsivo após as meias-finais do Campeonato do Mundo, em que os Magriços perderam com os ingleses, depois de a Federação Portuguesa de Futebol ter aceitado mudar o lugar do jogo. “A nossa federação vendeu-se e pronto. Recebeu o dinheiro e limpou as mãos”, disse em 2011 em entrevista ao Expresso. Eusébio foi o melhor marcador desse Mundial, com 9 golos, quatro dos quais contra a Coreia do Norte, numa das páginas mais bonitas da história do futebol português. Quando os coreanos, aos 23 minutos, marcaram o 3-0, Eusébio chorou no relvado. Depois foi o que se sabe: nunca um Campeonato do Mundo vira uma reviravolta assim (5-3), liderada por um homem só. Franz Beckenbauer, que começava a despontar na Alemanha, considerou-o “o avançado perfeito”. E Alan Hoby escreveu no “Sunday Express”: “Eusébio é um demónio da cor do ébano, com o jogo no coração e o poder explosivo nas botas. Direi mais: na soma de todos os seus talentos, Eusébio supera Pelé.”

Depois do Mundial de 66, Eusébio teve tudo acertado para se mudar para o Inter de Milão, numa transferência avaliada em 3 milhões de dólares (o equivalente hoje a quase 22 milhões de euros). Acompanhado da mulher, Flora, escolhera “uma bruta de uma vivenda” perto do lago Como e começara a aprender italiano. “O dinheiro que seria para mim dava para eu comprar os Restauradores, alguém me disse”, conta no livro “Eusébio como Nunca Se Viu”. O Inter, que andava atrás dele desde a final de 63, viu os seus intentos frustrados porque, depois da derrota da Itália com a Coreia do Norte no Mundial, a federação transalpina fechou a porta à contratação de estrangeiros.

Eusébio só se despediria do Benfica um ano depois da Revolução de Abril. Em pleno PREC, ele e António Simões rumaram aos Estados Unidos pela mão de um empresário da construção civil. Assinaram ambos pelos Boston Minutemen, e Eusébio foi apresentado como “A Lenda Portuguesa”. Tinha direito a casa de luxo, carro topo de gama e motorista, que dispensou porque adorava conduzir. As férias eram passadas em Cape Cod, ao lado da casa dos Kennedy.

Desafiado por Fernando Riera, que tinha sido seu treinador no Benfica, foi depois para o Monterrey do México, com o “contrato mais fabuloso” da sua carreira: 2000 dólares por cada jogo realizado. Fez 10, o suficiente para perceber que não lhe pagavam o prometido. Aceitou então o convite (1000 dólares por jogo) de um magnata do cinema e da televisão para rumar ao Toronto Metros-Croatia, do Canadá, onde fez 25 jogos, marcou 21 golos e levou a equipa à vitória na North American Soccer League (NASL).

COMO UM REI EM LAS VEGAS

De regresso a Portugal, Eusébio esteve a um passo do Benfica, mas sentiu-se “humilhado” quando lhe sugeriram que prestasse provas. João Rocha quis levá-lo para o Sporting, mas ele entendeu que “não era de bom tom” jogar no rival. Acabou no Beira Mar, onde recebia por cada jogo que fazia. Treinava no Benfica e jogava aos fins de semana pela equipa de Aveiro.

Já perto do final da carreira, voltou aos EUA, mas as dores no joelho maldito já não lhe davam descanso. Apesar disso, Sandra, a filha mais nova, recorda com saudade a passagem pela América: “Temos grandes memórias dessa altura. Ele esteve em Las Vegas cerca de seis meses e fomos lá visitá-lo, tinha eu uns 8, 9 anos. Ele foi-nos buscar ao aeroporto num grande descapotável vermelho com estofos brancos. Quisemos logo que nos levasse a dar uma volta. Las Vegas, naquela altura, era muito diferente de tudo o resto.”

Simões ainda o convenceu a jogar no União de Tomar, da II Divisão, onde fez os seus últimos 10 jogos oficiais em Portugal. Pendurou por fim as chuteiras em 1979, aos 37 anos, e foi para o Benfica descobrir novos talentos. Num dos primeiros treinos de captação, estavam mais de 500 miúdos à procura de um lugar nos infantis. Bastaram 10 minutos para ele se encantar por um rapaz de 10 anos que viera da Damaia. Era Rui Costa. “Pouco depois de ter tocado algumas vezes na bola, o Eusébio tirou-me da equipa e disse-me: ‘Tu, menino, já chega.’ Saí a chorar, a pensar que não ficaria, mas, no dia seguinte, soube que ia treinar com a equipa”, contou o atual administrador da SAD à Benfica TV. “O primeiro contacto com ele foi assustador. Foi como estar na presença de Deus.”

DE UM GESTO NOBRE NASCEU UM FILME

“Eusébio, História de Uma Lenda” começou na cabeça de Filipe Ascensão há quase 15 anos. Nascido e criado em Paris, filho de pais portugueses, o jovem realizador, de 34 anos, pensou fazer um documentário sobre o “Pantera Negra” em 2003, quando começou a estudar cinema. Recordava uma imagem da final da Taça dos Campeões Europeus de 1968, com o Manchester United. A dois minutos do fim, o jogo estava empatado. No “lance mais negro” da sua carreira no Benfica, nas palavras do próprio, Eusébio, com o joelho pendurado por arames, isolou-se, encheu o pé, mas acertou em cheio no guarda-redes. Tinha acabado de desperdiçar a oportunidade de dar ao clube a terceira taça continental, mas aplaudiu o guarda-redes e estendeu a mão para o cumprimentar. “Fazer aquilo, com o jogo a acabar, é de uma nobreza muito grande. Deu-me vontade de o conhecer e de ver como ele era.”

Filipe Ascensão meteu-se num avião e veio a Lisboa descobrir o homem por detrás da lenda. Ficou fascinado com as histórias que ouviu, mas era demasiado novo para se lançar na aventura de as contar. Há cinco anos, decidiu recuperar a ideia. Mudou-se para Lisboa e, durante três anos, falou quase diariamente com Eusébio. Tornaram-se amigos. O filme chegou a ser anunciado para 2014, mas a morte do futebolista trocou-lhe as voltas. “Tive de repensar a história, já não a podia contar da mesma forma. Depois houve muitos problemas com os grandes do futebol, UEFA, FIFA, clubes e companhia, pediam montantes loucos para usarmos as imagens de arquivo. Isso atrasou o filme.”

Agora espera que os espectadores possam ver Eusébio como ele era. Uma pessoa com “uma autoconfiança e uma força de vontade enormes, mas também com uma grande humildade”. Como quando, em 1965, se tornou o primeiro negro a vencer a Bola de Ouro, mas considerou não ser ele o melhor da Europa. “Em relação a mim, acho que se exagera. Entendo que não sou o melhor da Europa, uma vez que não sou, sequer, o melhor do Benfica. Para mim, o melhor jogador do Benfica é o senhor Coluna”, disse. Teria vencido de novo no ano seguinte, o do Mundial de 66, se não fosse a “traição” do jornalista português Couto e Santos, que votou em Bobby Charlton, que viria a ganhar precisamente por... um voto.

Flora, a viúva de Eusébio, ainda não sabe se vai assistir à estreia do filme. Receia não aguentar ver ali a imagem do marido, ouvir a sua voz como ela era quando a ouviu pela última vez. Três anos depois da morte do homem de toda a sua vida, ainda não consegue lidar com a sua ausência: “Às vezes estou no sofá, a ver um filme, e comento qualquer coisa para o lado, como se ele ainda lá estivesse. Outras, ouço a porta da entrada bater e viro-me à espera de o ver entrar. Faz-me muita falta. Ainda penso que não é verdade que ele faleceu.”