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José Couceiro: “Não há uma solução milagrosa, há escolhas”

Contra o Benfica, uma vitória (1-0) e um empate (1-1). Contra o FC Porto, dois empates (0-0 e 1-1). O Vitória de Setúbal está em 12º, mas sabe roubar pontos aos grandes. E é por isso que José Couceiro é o treinador indicado para sacar o quadro tático e explicar o que podemos esperar do clássico de hoje (20h30, BTV)

jose carlos carvalho

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Deixa que vejam os seus treinos?
Não digo que deixo qualquer pessoa ver, mas se me pedirem... Há muita gente que eu não conheço, mas que os meus adjuntos conhecem, e que vai. Ainda agora, antes do Porto, houve quem estivesse a ver o microciclo. Lembra-se do Gil Gomes, dos sub-20 campeões do mundo? Um primo dele, treinador em Angola, pediu-me para ir e foi. Não sabia se o gajo estava a ver para levar para o Porto ou não, não é? Até posso suspeitar isso, mas não me importo. Lembro-me de que, aqui há uns anos, quando o Mancini estava no City, fui lá. Eles iam preparar o jogo de terça-feira para a Champions e no domingo jogavam contra o Tottenham, treinado pelo Villas-Boas. Vi tudo, mas depois não quis ver o treino de sábado. Mas o Mancini insistiu, disse que não havia problema nenhum.

Mas já lhe correu mal?
Já tive dissabores. Há muitos anos, uns alunos da Faculdade de Motricidade Humana pediram-me para ver um microciclo. Teve muitos períodos lúdicos, e expliquei-lhes porquê: a equipa estava com vários meses de ordenados em atraso e as coisas estavam difíceis, portanto tinha de prepará-los de uma forma diferente. O relatório deles ‘rasgou-me’ todo, de cima a baixo. A sério. Fiquei desgostoso, porque dificilmente se é treinador assim, há que conciliar o lado académico com o empírico. E por acaso até ganhámos a esse Braga do Jesualdo, no ano em que o Vitória depois ganhou a Taça.

infografia carlos esteves

Planeia os treinos todos?
Funcionamos de forma conjunta. Evidentemente, assumo a responsabilidade final, mas funcionamos muito de forma colegial, digamos assim.

Olhando para o microciclo do jogo contra o FC Porto, foi diferente?
O que muda é o mediatismo. Já cheguei a ter, mais do que uma vez, só um jornalista em Setúbal. É preciso um ponto de equilíbrio, e a equipa tem de ter noção disso, que é apenas um momento, não a regra. Mas em termos de trabalho não foi nada alterado. Não treinámos mais, não houve mais volume, não houve mais intensidade do que nas semanas anteriores. E em termos motivacionais é uma semana mais fácil. A equipa prepara-se sempre para ganhar e não para esperar por aquilo que o adversário pode fazer. Não costumam reparar, mas o Vitória faz poucas faltas. Fomos acusados de muita coisa, a única coisa de que se esqueceram foi que fizemos 15 faltas no Dragão e 14 na Luz. É um dado curioso. Se uma equipa tem 30% de posse de bola e só faz 15 faltas, então alguma coisa tem de estar bem no processo defensivo.

Foi isso que treinou mais?
Posso mostrar-lhe o microciclo [pega no telefone e mostra].

Posso publicá-lo?
Isso já é de mais [risos]. Claro que há diferença na estratégia que adotamos, evidentemente. O que é que nós procurámos com Porto e Benfica? Limitar o jogo interior do adversário, claramente. Não permitir transições, mas ao mesmo tempo jogar com o bloco um bocadinho mais alto, sabendo que iríamos destapar as costas.

O sector defensivo tem de controlar bem a profundidade...
Se não, chapéu. Ou seja, o portador da bola tem de estar sempre debaixo de pressão, se não, como sabemos, a linha defensiva tem de baixar. Trabalhámos tudo isso com grande intensidade. Foi o que a equipa fez no jogo. Houve algumas jogadas de perigo em que nós íamos na transição e perdemos a bola sofrendo faltas. Numa delas, o Felipe entrou a pés juntos, aquilo é falta, e deu oportunidade de perigo do Porto. Na nossa oportunidade do Arnold, já no final, em que o Felipe faz obstrução, o que ouvi na televisão foi que “Casillas leu muito bem o jogo”. Casillas nada, é amarelo e falta. Até este momento, o Vitória não tem uma expulsão, nem por vermelho direto nem por duplo amarelo. Para isso, temos de nos controlar emocionalmente, na adversidade não nos podemos virar para o árbitro. Como dizia, obrigá-los a jogar por fora... Mas agora você diz: “Atenção, eles por fora são muito perigosos.” Pois são, a bola entra no Brahimi e é uma chatice. Mas o que é que é preferível?

infografia carlos esteves

Ter a bola controlada no corredor central é sempre mais perigoso...
Claro, é preferível a bola entrar por fora, longe da baliza. É claro que, com jogadores daquele nível, tudo é difícil, mas tenho de tomar opções. É o que digo aos jogadores: não há uma solução milagrosa, há escolhas. Há três fatores: primeiro, jogadores de qualidade; depois, todo o nosso processo e a estratégia para o jogo; e o terceiro ponto é a sorte do jogo. Não me venham cá com coisas que é só mérito nosso. Durante a semana, o que trabalhámos foi fundamentalmente isso: limitar o espaço interior, fazer a bola circular por fora, ter o nosso bloco junto e o mais alto possível, não deixá-los sair a jogar, bloquear a primeira fase de construção... Pontapés de baliza a favor do Porto não houve muitos, mas nos que houve não saiu a jogar. E o Benfica também não. Ou seja, não metemos um autocarro. Porque a probabilidade que temos de não marcar e perder é muito grande. O normal é uma equipa grande marcar um golo. Se nós conseguirmos recuperar a bola mais à frente...

Estão mais perto da baliza.
Claro, e isso tem de ser incutido. Mas algumas vezes as coisas correm mal e vimos de lá com um saco cheio de bolas. Não é? É um risco.

om o Benfica foi semelhante?
Há muita coisa igual, mas há diferenças. Acho que o Porto ataca melhor, e com mais perigo, a profundidade, em 4-4-2. É uma diferença grande. O Óliver não pode jogar de frente para a baliza, no meio. Quando isso acontece... aliás, o golo que sofremos nasce assim. O Benfica tem o Pizzi, que comanda o jogo e tem de ser bloqueado, tal como os movimentos entre linhas do Jonas, que é muito inteligente. É preciso saber como é que a equipa vai encolher para que eles sejam obrigados a circular por trás, não por dentro. Circular pelos centrais é diferente de circular pelo ‘seis’, e isso é igual para ambos. Nos corredores, qualquer um tem jogadores que desequilibram. O Benfica na altura tinha de forma mais definida o movimento dos alas para o espaço interior, com os laterais a passarem por fora, com o Nélson [Semedo] com um andamento que não para. Enquanto o Porto, ao meter o segundo avançado na área, deixa os alas mais por fora, apesar de o Brahimi fazer muito esses movimentos interiores, mas com bola no pé.

infografia carlos esteves

Quem antevê como superior?
É sempre um jogo de tripla.

São as únicas duas equipas num degrau acima das outras?
Acho que o Sporting não está num degrau abaixo. Perguntaram-me no início da época quem é que eu achava que era favorito para o campeonato, e até fui criticado porque disse que ia acabar numa corrida a dois. Mas disse isso pelo histórico, tem acabado sempre numa corrida a dois. A última vez que acabou a mais do que dois foi em 2005, para azar meu.

Consigo no Porto...
Isso já é outra questão. Entrei em fevereiro, disseram que foi muito mau, mas nunca fizeram melhor. Deixo-os falar. As estruturas nunca têm culpa, a culpa é sempre dos treinadores. Agora, o que lhe disse em relação às duas equipas... vão ter de defender assim e não podem permitir transições. Repare no Benfica-Sporting: o Sporting teve mais qualidade, mas o Benfica ganhou. O Sporting permitiu uma transição e acabou. Estes dois pontos são fundamentais para o clássico. O terceiro tem a ver com os esquemas táticos, porque qualquer um é muito forte nesses lances. Ou seja, se alguém baixar o bloco a pensar que vai esperar pelo adversário para ver o que dá, um esquema tático pode mudar o jogo. Tanto o Benfica como o Porto sabem que este é o jogo da época. Quem vai ganhar? Não sei. Mas quem marcar muda o jogo.