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José Couceiro: “Por amor de Deus, querem um jogo positivo? Como? Se somos logo demitidos por um resultado menos bom?”

Sábado há clássico (Estádio da Luz ou BTV, às 20h30) e falámos com o único treinador que roubou pontos a Benfica e FC Porto em todos os jogos desta época (leia a análise tática mais pormenorizada na edição do semanário este sábado nas bancas): José Couceiro, o dirigente que passou a treinador mas ainda se vê a voltar para as bancadas

Mariana Cabral e José Carlos Carvalho

José Couceiro tem 54 anos e treina o Vitória de Setúbal - e, excluindo os treinadores dos três grandes, é o único da Liga portuguesa desta época que não foi despedido

JOSÉ CARLOS CARVALHO

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Como é que um treinador de 54 anos, de I Liga, que já esteve no estrangeiro, ainda aprende?
Ah, isso aprendo todos os dias. Basta ter alguém de fora, a debater, a perguntar, a ler... Não temos de aprender exclusivamente de futebol, essa é uma falsa questão. Estamos claramente dentro do campo das ciências humanas, portanto temos de cada vez mais perceber como é que nos relacionamos com as pessoas, porque trabalhamos diretamente com pessoas, não trabalhamos no meio financeiro. Tudo o que possa aprender a nível de pedagogia, psicologia, sociologia... Para se ser treinador, o conhecimento académico é fundamental, mas o conhecimento empírico não é menos importante.

Gostava de observar mais colegas a trabalhar?
Isso gostava, pela curiosidade de perceber as coisas que eles fazem, cá dentro e lá fora. Uma vez defrontei o Bielsa, quando estava no Lokomotiv e ele no Atlético de Bilbau, para a Liga Europa, e no final fui falar com ele, sem problema nenhum. Porque tinha curiosidade, porque acho que as equipas dele jogam bem e identifico-me.

A parte da marcação homem ao homem é que...
Pois, isso também não gosto. Mas são opções. Até me lembro que uma das conferências de imprensa foi conjunta. Nós ganhámos 2-1 em Moscovo e depois perdemos 1-0 em Bilbau. E houve um jornalista que contou os passos que ele dava e na conferência de imprensa perguntou-lhe por isso, que ele dava 13 passos para um lado e 13 para o outro. E ele responde: "Num jogo tão importante e tão interessante, com tanta coisa boa para ver, você foi contar os meus passos? Veja lá coisas melhores." [risos] É uma pessoa aberta, com quem se fala bem. Ele conhecia a nossa equipa muito bem, sabia todos os jogadores que tínhamos de fora e disse-me que se tivéssemos os jogadores todos naquela altura, provavelmente não teríamos perdido em Bilbau.

No outro dia, quando jogou um amigável contra o TSV do Vítor Pereira, também conversaram? 

Claro, mas o Vítor Pereira é uma pessoa de quem gosto, porque também é muito aberto, fala sem problemas. Vamos lá ver uma coisa, sei muitas vezes como é que as equipas adversárias vão jogar e não é por isso que ganho. É verdade ou não é? Não sei como é que o Barcelona joga? E se jogarmos contra eles vamos ganhar? Ah, bom... O que interessa somos nós e o que queremos fazer. Temos é de ficar satisfeitos com as nossas vitórias e não com as derrotas dos outros. Há um problema de fundo aqui e não gosto cá dessas tangas que isto é só em Portugal, não, é um problema geral. Há muita gente que está como dirigente no desporto mas que não é do desporto. Nunca fez desporto, nunca passou pelo desporto. De futebol toda a gente fala e manda bitaites. Se for falar de fotografia também sei o que é uma grande angular mas depois não percebo nada daquilo. Nem a luz, quanto mais o resto [risos]. Porque o futebol em Portugal é de facto muito importante. E é importante também como imagem do país. Você tem marcas coletivas e marcas individuais em Portugal que têm dimensão mundial, como a seleção nacional, o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho. Já para não falar de Benfica, Sporting e Porto. Temos dimensão, portanto o futebol deve ser utilizado dessa forma e não como um elemento de guerra e de conflito. Ninguém ganha com isso. É interessante para as massas associativas, mas pronto. Já estamos a divagar... [risos]

José Couceiro já foi selecionador da Lituânia e treinou os russos do Lokomotiv de Moscovo e os turcos do Gaziantepspor

José Couceiro já foi selecionador da Lituânia e treinou os russos do Lokomotiv de Moscovo e os turcos do Gaziantepspor

Foto José Carlos Carvalho

Acha que o facto de se ter candidatado à presidência do Sporting o marcou negativamente?
Admito que sim. Num curto/médio tempo, marca. Posteriormente, não vai marcar nada, bem pelo contrário.

Arrependeu-se?
Não, não me arrependi nada, mas sei que pus a minha carreira em perigo, tenho noção perfeita disso. Voltei a treinar também por isso, para ter este gozo de saber que consigo fazê-lo. Não tem a ver com dinheiro nem nada que se pareça, tem a ver com gozo de treinar.

Como é que começou a ser treinador?
Foi em 2002, no Alverca. Era administrador e já tinha feito o quarto nível na altura.

Porquê?
Porque tinha tido uns convites anteriores para treinar mas depois acabou por não acontecer. Naquele ano a equipa não teve uma boa prestação e ia descer de divisão. Quando a equipa já estava mal, o conselho de administração achou que eu devia ter mais peso na equipa. Disse-lhes que isso era impossível, porque não me ia substituir ao treinador. Mas então propuseram-me que fosse quase um manager, que estivesse no conselho de administração e fosse treinador. Disse-lhes que a lei não permitia ser ambos e nesse momento eles disseram então - claro que isto ao longo de alguns dias - que gostavam que fosse treinador. Pensei e fui falar com o treinador que estava com a equipa naquela altura, que já não era o primeiro da época, que era o Vítor Manuel. "Vítor, passa-se isto e isto, não sei se me vou embora, se aceito..." Ele respondeu-me assim: "Eh pá, tu gostas disto, tens jeito, conheces as pessoas... aceita. Aceita!" Ou seja, aceita o lugar dele, que ele assim saía. Curiosamente falei com outras pessoas... O Quinito disse-me: "Tu és louco. Tu és o nosso melhor dirigente, não vais aceitar nada" [risos]. Tive uma conversa em casa, porque ser treinador não é o mesmo que ser dirigente.

Perdem-se mais horas de vida familiar.
E fins de semana, o que não acontece com um administrador. Mas tive apoio familiar: "Se gostas e queres fazer, estamos cá para te apoiar". E comecei como treinador. Início da época, nos primeiros quatro jogos empatámos três e perdemos um. E aquilo estava... O que vale é que depois ganhámos seis e no final subimos de divisão, voltámos à I Liga.

Se tivesse lá um dirigente mais precipitado, se calhar tinha sido logo despedido.
Provavelmente. E até estive para ser treinador mais cedo, aos 27 anos, como adjunto do Jesualdo Ferreira. Ia antecipar o final da minha carreira de jogador, só que depois ele não foi para o clube que o convidou e acabei por continuar a jogar. Repare, começo a ser treinador quando vou fazer 40 anos, foi muito tarde. Devia ter começado aos 27, era uma grande vantagem ter começado mais cedo.

Porquê?
Porque nós não pensamos como treinadores quando começamos. Hoje não penso da mesma forma que em 2002, nem tenho o mesmo tipo de relacionamento com os jogadores. E quem começou mais cedo tem vantagem. Tenho dois assistentes, um tem 23 anos, outro tem 24. São muito novinhos, mas vou dizer-lhe uma coisa: vão ser treinadores. Precisam de dez anos, é preciso deixá-los crescer. É como os jogadores, é preciso deixá-los crescer. Nesse aspeto, gostando eu tanto do jogo, foi um erro meu, porque fui para o lado do dirigismo pela minha veia política, porque fui para o sindicato. Mas não estou arrependido do percurso que fiz, atenção. Sempre assumi posições e vou continuar a assumir.

José Júlio de Carvalho Peyroteo Martins Couceiro, sobrinho-neto de Peyroteo, um dos maiores jogadores portugueses, foi presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, antes de enveredar pela carreira de treinador

José Júlio de Carvalho Peyroteo Martins Couceiro, sobrinho-neto de Peyroteo, um dos maiores jogadores portugueses, foi presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, antes de enveredar pela carreira de treinador

Foto José Carlos Carvalho

Não nos fazem falta também bons dirigentes?
Claro.

E onde é que vamos buscá-los?
Ao jogo. Como os árbitros. Para já não concordo que não se prolongue o limite de idade para lá dos 45 anos, acho que é uma estupidez. Depois, acho que o recrutamento também tem de ser feito entre antigos jogadores. Os miúdos não podem aos 20 anos ser árbitros e não jogarem futebol. É muito importante jogarem futebol e só depois serem árbitros. Há muitos miúdos que arbitram e sente-se que eles não jogaram futebol. Aquela tanga, aquela malandrice da falta que deixa ficar o pé... Portanto com os dirigentes o mesmo, o dirigente que passou pelo jogo e que passou até por mais do que um clube, que foi jogador, que foi treinador... Vai ter uma visão diferente. É inadmissível que neste momento, do 5º classificado para baixo, só eu é que ainda não caí. Acho que isto não é razoável, sinceramente. Fico muito satisfeito por mim e pelo Vitória de Setúbal, porque significa que estamos a fazer um campeonato tranquilo, mas por amor de deus, querem um jogo positivo? Como? Se nós somos logo demitidos por um resultado menos bom? Como é que é possível lançar jogadores e formá-los? Assim é impossível.

O treinador português adapta-se bem ao estrangeiro?
Não digo o treinador, digo mesmo o povo português. É nosso, é cultural, somos pessoas que se integram bem. Na Turquia comecei a perceber que quando havia linhas de passe, a bola entrava sempre nos mais velhos, pelo respeito. Então tive de falar com eles e com os mais velhos porque assim estávamos a prejudicar-nos. Depois, a vontade deles em ganhar o jogo é tanta que de repente deixa de haver organização. Se puderem estar dez na frente, estão todos na frente. Na Rússia, nós pensamos que nós é que somos os latinos, mas eles são mais emocionais do que nós, são de oito e oitenta e oito. É uma coisa de extremos. Quando entrámos no Lokomotiv, eles estavam numa fase má e no primeiro jogo em casa ganhámos 4-0. Quando cheguei à cabine depois da flash interview, parecia que tínhamos ganho a Champions. Uma festa... Eram pizzas, eram padres ortodoxos, uma coisa impressionante. Espera aí, mas nós não ganhámos nada. Quando perdemos o primeiro jogo, se não estou em erro, ao fim de 17 jogos, entrei no balneário e parecia um funeral. Tive de lhes dizer que era só um jogo, mas era um estado depressivo incrível. Basta ver a literatura russa, aqueles dramas todos.

Quer voltar ao estrangeiro? Já esteve no Porto e no Sporting, ainda que por pouco tempo.
É assim, estive três meses e meio no Porto e dois meses e meio no Sporting. Isto é tudo muito bonito... Entrei em fevereiro no Porto e era o terceiro treinador da época, e o Porto estava abaixo da classificação em que o deixei. Entrei no Sporting numa crise brutal, a equipa não ganhava há nove jogos. Conseguimos assegurar o 3º lugar, que era onde estava quando chegámos, é verdade, e no último jogo fomos ganhar ao Braga, que foi à final da Liga Europa. Creio que quer num caso quer no outro, as coisas correram melhor do que aquilo que era previsível. Você pergunta-me: gostava de representar uma equipa que lutasse para ser campeã? Claro, acho que todos queremos isso. Sei que é muito difícil fazer isso no Vitória de Setúbal, ainda que não haja impossíveis na vida.

Não é como em Inglaterra.
Não é. Não temos dimensão. Já que falou em Inglaterra, gostava de trabalhar lá, tem um ambiente completamente diferente. Na Alemanha também, é só ver a quantidade de público que há nos jogos. É completamente diferente nós jogarmos no Dragão com 50 mil pessoas do que jogar com 3 mil pessoas. As pessoas só falam em dinheiro, mas não é só o dinheiro, a quantidade de pessoas que há nos estádios é completamente diferente. Nós cá em Portugal não temos isso.

Oiço-o a falar e imagino um futuro presidente da Liga.
Não, não. Já houve quem quisesse que isso acontecesse mas já foi há muitos anos. Não aconteceu e acho que não vai acontecer. Eu preciso de trabalhar, não posso dizer que seja completamente independente financeiramente mas tento fazer as coisas que me dão gozo. E acho que o poder político tem de começar a não ter receio pelo menos de influenciar a melhoria das coisas. Não estou a falar deste governo, falo em geral. Tomar decisões... isso é que é complicado. E algumas são na hora. É o que os treinadores fazem.

Pode voltar para dirigente.
Não vou dizer que não vou acabar como dirigente. Talvez deixe de treinar, porque há um momento em que temos de sair do campo. Se posso ser dirigente? Sinto-me capaz para sê-lo, mas outra coisa que me daria gozo era treinar equipas mais jovens. Miúdos, mesmo. Treinar no aspeto de formar, não no aspeto competitivo. Se tivéssemos uma formação melhor, a todos os níveis, tínhamos melhores espectadores para o futebol. Nós temos uma posição excessivamente passiva. É assim: "Tenho aqui um jogo de futebol, vocês se quiserem venham cá vê-lo". Fazemos pouco para trazer as pessoas ao nosso espetáculo. Repare, houve uma altura em que teve de se acabar com os campos pelados. Foi uma medida dura, houve muita resistência. Como há sempre muita resistência à mudança. Na Turquia, todas as equipas têm um centro de treinos. Não é uma, são todas. Há uma série de coisas que são fundamentais. Isto mexe comigo, porque nós somos passivos. "Ai o gajo desenrascou? Porreiro". Em vez de percebermos como temos de evoluir. E essa é uma grande luta que temos de ter. Ando a bater nisto há muitos anos e vou continuar.