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Mais depressa se apanha um mentiroso que um espanhol desprevenido

O Benfica marcou primeiro e muito cedo, com um penálti do avançado que fazia anos e nunca tinha marcado contra os grandes. O FC Porto empatou pelo uruguaio mais assobiado no Estádio da Luz, logo após o intervalo. A partir daí, os encarnados foram sempre melhores - e Iker Casillas segurou o empate (1-1) e, um ano depois, voltou a fazer um jogo dos grandes. A sete jornadas do final do campeonato, tudo fica na mesma

Diogo Pombo

Jonas, o aniversariante e marcador do primeiro golo do clássico. E Casillas, o guarda-redes que o impediu de marcar mais.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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A cabeça deles devia andar à volta de duas coisas, que por acaso são dois números - um e sete.

Só havia um ponto entre o líder e o segundo lugar. E só haveria mais sete jogos por jogar depois de eles jogarem este, já tantas vezes repetido que lhe chamam um clássico. Ninguém levaria a mal se também lhe chamassem o jogo do título, porque as tais duas coisas eram tão pequenas e diminutas que ganhar significaria ser mais líder ou tornar-se líder, e perder seria igual a ter pouco tempo, poucos jogos e pouca mão no que poderia acontecer no resto do campeonato. No dia inventado para mentir, a verdade era esta.

Seria de esperar, portanto, que Rui Vitória e Nuno Espírito Santo, perante a verdade destas coisas, se comportassem assim - com cautela e respeito.

Um pegou em Rafa, dos tipos mais rápidos que há em Portugal a correr atrás de uma bola, e pô-lo num dos lados da equipa, por saber que estes jogos se jogam nos desequilíbrios das transições e dos contra-ataques. O outro quis ter dois extremos e três homens no centro do campo, para pesarem mais na balança que os dois do Benfica. Para isso sentou André Silva, o puto goleador que mais tem servido para sentar quando o treinador tem dúvidas. De quem, a meio da semana e na rádio, ouvi dizerem dele que estava lançado para ser titular por ter marcado pela seleção, à Hungria, na Luz.

Um palpite disparatado, pensei, sem raciocinar no sentido que aquilo fazia. Porque o futebol não é só a bola que entra e não entra, ou que é passada e chutada - é também (e muito) a moral, a confiança, a fezada e o crer que se é melhor que o outro. É tudo isso que está com Jonas, que é o melhor de uma equipa, tem nos pés e no corpo a ginga e a técnica que os outros invejam, e na cabeça sabe que faz anos e que nunca marcou a um grande em Portugal. Ele finta e toca com classe e passa a bola por cima de adversários no primeiro minuto. Ao quinto, está a receber um passe de Salvio - que antes tem a fezada de fintar dois adversários - e a ser derrubado por Felipe na área.

O brasileiro agarra-se ao penálti, marca-o, festeja como um doido desabituado a isto e depois corre, corre e corre. Mais sem do que com a bola, porque ele sabe que um 1-0 tão cedo num jogo destes é sinónimo de o Benfica jogar ainda mais como costuma. A equipa recua, monta a primeira linha no meio campo, não deixa mais de dois metros entre os médios e os defesas, encurta os espaços e tenta obrigar o FC Porto a jogar a bola sempre por fora. Consegue-o com Jonas a cansar-se no cerco ao dragão que mais e melhor passa e vê o que tem à volta (Óliver) e com Salvio e Rafa a não deixaram os laterais sozinhos.

A bola foi ficando mais do FC Porto e muito de Brahimi, que ia ziguezagueando à força por entre adversários, sem a rematar ou passar quando podia. Os encarnados, mais encolhidos e perto uns dos outros, não conseguiram ser rápidos a aproveitar muitas das bolas que recuperavam, porque não havia gente a esticar e sprintar para o espaço. Quando houve, Rafa e Salvio driblaram até não poderem mais. Os dragões, sem arranjarem forma de abrirem espaços ao meio, circulavam a bola por trás e de um lado ao outro sem grande velocidade.

Eles só acertaram com a bola na baliza quando ela parou, à porta da área, no livre em que Brahimi viu Ederson a esticar-se e a defender (37'). Marcado o golo, o Benfica também só assustou quando a altura de Luisão e da cabeça dele rematou a bola que Pizzi cruzou e que passou pouco por cima da barra.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Com uma equipa recuada, a fechar-se ao centro e a precaver-se, e com a outra a não arriscar, a ser lenta e a não acelerar por fora, não vale a pena mentir - perigosas só as bolas paradas perto da área.

Ao intervalo, terão vindo à cabeça de Nuno e à conversa com os jogadores as duas coisas pequenas e diminutas que os levaram até ali. Terá ficado decidido que iriam devolver o que lhe tinha sido dado e, a uma entrada de peito feito, responderam com outra. O FC Porto arrancou a segunda parte com mais intensidade, com os laterais a correrem para lá dos extremos e mais finca-pé nas bolas que se tinham de dividir.

E para isto fazer efeito só tiveram que esperar até conseguirem deixar Brahimi com um par para bailar. Escrever que o argelino não leva a melhor de oito em cada 10 um para um seria mentira. E foi verdade que, na esquerda, foi ele que ultrapassou adversário e originou a jogada que acabou, na área, com o uruguaio mais assobiado da Luz a rematar a bola para dentro da baliza (50'), depois de André André a pontapear contra um de vários encarnados que estavam em cima da linha.

O empate, o reinício forte, o tempo que restava jogar e mais a história da moral, da fezada e da confiança, poderiam ter feito do FC Porto uma equipa mandona, controladora e dominadora que Nuno prometera. Implicava tino no passe, fazer esses passes mais por dentro do que por fora, recuperar bolas onde as perdiam e encontrar Soares - no espaço entre os defesas e a baliza, que conhecemos como profundidade, com bolas para serem rematadas. Tudo mentira, porque os dragões separaram-se, perderam éne bolas, reagiam tarde e só encontraram o avançado num contra-ataque em que Ederson sprintou baliza fora (59’) para se fazer aos pés de Soares.

A verdade das coisas é que foi o Benfica, já sem os dribles e a cabeça em baixo de Salvio, e com os esticões de Cervi na esquerda, a reagir. E a crescer e a atacar mais e a soltar-se e a soltar os jogadores no espaço que os dragões iam fechando cada vez menos. Óliver e André ficaram com as pernas mais pesadas e Danilo era demasiadas vezes apanhado no dilema entre ir a Pizzi ou preocupar-se com Jonas. O português ia fixando o trinco e o brasileiro aniversariante foi-se soltando para tornar o resultado um pouco mentiroso.

FRANCISCO LEONG

Porque foram três as vezes em que o pé direito ou a cabeça de Jonas acertaram com a bola na baliza ou lá perto. E nos lembraram que só podia ser mentira aquilo que diziam de um guarda-redes de Mundiais, Europeus, Ligas dos Campeões e muitos anos disto - que vinha para Portugal acabado e já com os melhores anos atrás dele.

Casillas desviou a bola que não viu partir, que bateu na relva à sua frente e que vinha em arco. Casillas deu uma palmada, por instinto, na bola que ele rematou a dois metros da baliza, no fim de uma jogada ao primeiro toque. E Casillas bloqueou outra que rematou, ainda mais perto dele, após um livre cruzado para a área, que era a recarga a uma bola que Mitroglou já tinha rematado.

As paradas dele não explicam tudo, mas foram as que mais seguraram o empate que me faz voltar às mesmas duas coisas. O Benfica continua líder (pela 23.ª jornada esta época), o FC Porto mantém-se a um ponto, e faltou escrever lá em cima que os encarnados ainda jogam em casa do Sporting (23 de abril) e o mais difícil que os dragões têm é uma ida a Braga (15 de abril). Ou seja, este podia ser o jogo do título, mas em sete jornadas e com estes jogos dos difíceis, ainda pode mudar muita coisa.

Portanto, apanharam-me, foi uma meia mentira no dia em que não faz mal mentir. Mais depressa se apanha um mentiroso que um guarda-redes espanhol desprevenido na Luz.