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Um domingo passado a domingar

O Sporting aproveitou o domingo para roubar pontos à diferença para o Benfica e o FC Porto pela segunda jornada seguida. Os leões, que até estiveram a perder (1-2), marcaram dois golos num minuto na primeira parte e, partir daí, pareceram domingar - e acabaram o jogo encolhidos perante uma equipa que somou a sétima derrota seguida

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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É domingo, está uma bela tarde, o calor e o sol são melhores amigos. São como uns comparsas que conspiram e são chatos, mas com boas intenções. Dos que nos chateiam para sairmos de casa, ligam para o telemóvel, enviam sms, batem à porta, atiram pedras às janelas e berram na rua. Eles dizem-nos que hoje está um domingo para espreitar a praia, hibernar numa esplanada, ter na mão bebidas frescas, ter à frente uma paisagem e estar ao ar livre.

Com isto quero dizer que esteve um domingo para domingar e não para jogar futebol.

Não sei como está o clima em Arouca quando o jogo começa, mas não pode estar muito diferente do que, mais ou menos uma hora antes, me dá a sensação de estar a derreter, a ficar mole, lento a reagir, com as pernas a pesar e a pensar que devia estar a domingar em vez de estar a jogar o jogo da bola em que estava. Talvez fosse nisso tudo que Schelotto e Zeegelaar estavam a pensar, quando foram amorfos, lentos e inativos perante o que estavam a ver o adversário fazer nas suas barbas.

O primeiro não cerrou o tempo e o espaço que Vítor Costa, lateral esquerdo do Arouca, de frente para a baliza e perto da área, teve para deliberar sobre o sítio para onde ia cruzar a bola; o outro percebeu tarde que era má ideia não fechar o espaço por dentro e deixar Mateus ficar, e saltar, entre ele e Rúben Semedo. Nove minutos não chegaram para se habituarem ao sol, ao calor, e à moleza e peso que abatiam em quem tinha de correr atrás de uma bola. Eles e todos os que jogavam pelo Sporting.

Durante muitos minutos, os leões são mais lentos, menos intensos e parecem reagir uns centésimos de segundo mais tarde a tudo do que os jogadores do Arouca. A equipa que Jorge Jesus não fazia ideia de como ia jogar - porque vai no terceiro treinador na temporada e este era o primeiro jogo de Jorge Leitão a dar ordens - joga com intensidade, a ocupar os espaços ao centro e a confiar no tino de André Santos, Adílson e Nuno Coelho. O trio de médios pressionava muito William e Bryan, que lhes facilitavam a vida por jogarem quase sempre em linha um com ou outro em vez de um ficar mais perto da bola e o outro ir farejar outros lugares.

O Sporting, perro nesta apatia e enferrujado no jogo interior que, trocado por miúdos, são os passes, os toques, as tabelas e os jogadores que aparecem e fogem do centro do campo, nada era capaz de inventar por ali. Portanto, quem jogava atrás procurou os atalhos de levantar a bola e fazê-la chegar, pelo ar, a quem estava à frente - depois, era ir com força à primeira bola e ainda com mais à segunda, caso fosse preciso.

Foi assim que Gelson, à direita, desviou de cabeça para Alan Ruiz, na área, simular, rematar e empatar. E assim que Zeegelaar, na esquerda, insistiu para resgatar a bola que cruzou rasteira para Bruno César, na área, chutar com a ponta da chuteira e marcar.Estes dois golos aconteceram num minuto e foi o instante em que tudo mudou: o Sporting assentou, os jogadores ganharam confiança, a bola já não precisava de ser tratada com tanta pressa e os espaços deixavam respirar com mais calma, porque o Arouca tinha que arriscar.

Poderíamos pensar que, após o intervalo, o jogo ficaria mais rijo, intenso e com mais gente a sprintar para os espaços que se abririam mais vezes e a fazer movimentos para romper com a organização dos outros. Só que não. A segunda parte foi como o toque final de um domingo feito a domingar, em que há um sofá, um filme na televisão, uma preguiça no corpo e uma vontade em mexer o corpo o menos possível.

Os leões quiseram tocar a bola, e tocá-la e tocá-la devagarinho e avançarem com a bola juntos e sem pressas. O Arouca fazia o que podiam, tentava fechar-se e recuava tanto que mal conseguia fazer chegar a bola a Walter González, o avançado que estoirou à primeira jogada em que lutou contra o mundo, ultrapassou Rúben Semedo em 30 metros e rematou a bola bem ao lado da baliza. As coisas apenas melhoraram quando Podence entrou e se tornou na exceção frenética à calma organizada do Sporting.

Tanta foi a calma que o Arouca ousou crescer e pressionar e o jogo acabou com o Sporting recuado, a defender de cruzamentos pelo ar e remates de longe. Encolhido perante uma equipa que sofria golos há 15 jogos seguidos e perdera os últimos seis. E com Jesus, que já tinha posto Palhinha ao lado de William, a tirar Paulo Oliveira do banco e a pô-lo como terceiro central em campo.

O domingo servuiu para o Sporting encurtar as distâncias para o cume do campeonato pela segunda jornada seguida (com esta vitória, o Benfica fica a oito pontos e o FC Porto a sete), mas acabou a domingar com tanta calma que passou demasiados minutos encostado pelo Arouca lá atrás. E o calor não pode explicar tudo, mesmo que Bruno César, no fim, se tenha queixado dele.