Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Uma espécie de cegueira (ou o Benfica-Porto visto na rádio) 

O ponto de vista de um portista dos sete costados, neto de outro portista dos sete costados, sobre o clássico de sábado

Martim Mariano

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Aviso: Caro leitor, este texto não tem qualquer pretensão nem tão pouco vontade de fazer uma análise técnico-tática ao desempenho de Benfica e Porto num jogo importante e que terminou com tudo a ficar como estava exatamente antes de ter começado.

Este texto confirma, isso sim, uma verdade que me parece praticamente irrefutável: é extremamente difícil - para não dizer que é impossível – “ver” um jogo destes na rádio. E se eu gosto de rádio!

E foi precisamente por gostar de rádio que me lembrei de propor o texto que se segue. Se está à procura de mais uma análise qualitativa ou objetiva ao jogo propriamente dito, escolheu o texto errado. O que tem pela frente mais não é do que a narração da experiência ligeiramente traumática a que voluntariamente aceitei submeter-me na noite de sábado.

Os jogos na rádio sempre me fizeram confusão, mas uma agradável confusão, uma vez que me habituei desde cedo a conviver com este prazer domingueiro do meu avô. Portista, dos verdadeiros, daqueles que pintaram o coração de azul e branco numa época em que o clube ganhava pouco ou quase nada. Começou a ser do Porto nos anos 1930. Via os jogos todos assim, como eu vi este. A televisão ainda era um sonho distante.

Entristeceu-se com a bola nos últimos anos de vida. Não percebia tanta alteração na sua essência e desconfiava seriamente do obscurantismo crescente que começou a envolver o futebol. Os milhões faziam-lhe espécie. Como lhe fazia igualmente espécie que um dos netos andasse com uma das claques por Portugal, e não só, atrás do clube que ele, o avô, o ensinara a amar. 

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Era um baluarte de paciência e serenidade perante um resultado menos favorável. Tinha a clarividência de quem viveu muito. De quem tinha visto e ouvido, vezes sem conta, ano após ano, o Porto a não ser nem de perto nem de longe a equipa que foi nestes últimos 35 anos. Conheceu mais, muito mais derrotas do que vitórias. Soube bem o que é sofrer por uma bandeira, por uma paixão inexplicável, uma adoração tremenda ao azul e branco com pronúncia do norte e cheiro de luta contra o poder instalado. 

A primeira recordação que guardo de tudo isto não me apanha com mais de 4 anos.
Era uma tarde ensolarada de final de primavera, com o sol já mais quente do que o costume. As pernitas semicobertas por uns calções e orgulhosamente manchadas de nódoas negras e arranhões. Tudo tão próprio de um miúdo que tinha na brincadeira e no terreno baldio que é a imaginação o seu melhor e mais belo brinquedo.

No final do almoço costumava dormir a sesta aninhado nos pés da mesa da sala de jantar da casa dos meus avós onde passava muitos fins de semana, enquanto os crescidos - a quem só via os pés e as pernas - conversavam sobre coisas que eu não entendia.

A certa altura chegava, porque chegava sempre, o momento em que o meu avô se levantava da mesa para ir lavar as mãos e depois se encaminhar para o escritório onde, não havendo televisão, havia um rádio que esperava ansiosamente a hora do começo dos jogos da tarde. O rádio estava quase sempre ligado lá em casa. Antes do jogo havia sempre tempo para dar nova espreitadela às folhas quadriculadas onde trabalhava as fórmulas, as contas, os cálculos, as matrizes e raízes adornadas por símbolos engraçados que só os amantes da matemática entendem. Naquelas folhas o meu avô fazia tudo aquilo que um engenheiro e professor de engenharia faz em folhas quadriculadas. Coisas deles.

Lá me levantei quando percebi que o rádio já estava ligado. Saí debaixo da mesa e fui bater à porta do escritório. O meu avô deixou-me entrar e eu sentei-me no chão, caladinho. A ouvir e a ver. Não me recordo se foi a primeira vez que o fez, também não me recordo tão pouco da estação que costumava ouvir, mas tratando-se da casa de um católico devoto e praticante não me admirava nada que fosse a Renascença.

Já o adversário dessa tarde não deixava margem para dúvidas. Era O Benfica.
O rival. A equipa que ganhava sempre. Que ganhava tudo. Que ganhava a todos. A equipa do Eusébio que tinha um dos maiores estádios do mundo. O Porto tinha o Madjer, o João Pinto, o Mlynarczyk, o André e o bibota Fernando Gomes. Tinha ainda Sousa, Rui Barros, Jaime Pacheco e Jaime Magalhães. E já tinha também o Domingos, o Baía e o Fernando Couto. Jogava nas Antas perante 80 mil pessoas. O Benfica jogava na Luz diante de, por vezes, mais de 130 mil almas. Eram duas grandezas incomparáveis.

Esse jogo ganhou-o o Porto, 3-0, em casa. Dois de J. Pacheco e um de Rui Barros. Foi a 5 de junho de 1988! A época terminou com o Porto campeão.

Desse tempo não recordo muito mais que a alegria propositadamente contida do meu avô. Olhos envergonhadamente marejados de uma felicidade genuína que não lhe via em nenhum outro momento. Olhos de quem sente que a vitória também é sua.

30 anos depois mudou tudo. Mudou o jogo, e muito. Mudou também a televisão, que agora permite que paremos o jogo, por exemplo, e que o retomemos exatamente onde o deixámos. Mudou a forma como todos nós vemos e olhamos para a bola. Mudaram os jogadores, os equipamentos, os estádios dos dois clubes já não são os mesmos e, pior do que isso, o meu avô já cá não está para ver e ouvir as alegrias e tristezas consumadas em pontapés que levavam ou não a redondinha para dentro da baliza. E que falta que ele me faz. A mim e ao Porto!

Para a missão que abracei resolvi escolher uma rádio que me tem acompanhado ao longo da vida. A TSF. Porquê? Por isso mesmo. Pela história que tenho com ela. Pelos relatos em que sorri, em que chorei, em que gritei e em que me calei. Pela inesquecível noite em que morreu Miklos Fehér e na qual fiquei, em casa, à porta do escritório do meu pai, a ouvir o que os jornalistas iam contando do que se passava no relvado de Guimarães.

A quatro minutos do jogo consegui lembrar-me de desligar as notificações das apps de notícias que tenho no iPhone. Não quero cá spoilices a dizerem-me que foi golo quando ainda estou 3 jogadas atrasado.

Apita Carlos Xistra e arranca o clássico.

Dois minutos depois sinto o primeiro laivo de frustração. “Caramba! Quero ver o jogo. Isto assim vai ser uma canseira. Onde é que eu tinha a cabeça quando propus isto ao Candeias?". Passou-me. Segue jogo.

Aos quatro minutos, fico indignado quando percebo que estou já a ouvir pela segunda vez o spot comercial da marca de champôs que patrocina o Casillas (ele está sempre penteadinho, lá isso é verdade…) e enquanto isso, enquanto se fala de cabelos, o espectador, pobre coitado, "cego", em sua casa, não faz a mais pequena ideia do que se está a passar no relvado.

Aos 6’ diz o repórter de pista: “O Benfica sempre mais próximo da baliza do que o Porto… atenção a Jonas… e… penálti. Carlos Xistra aponta para a marca da grande penalidade.”

Ainda o João Ricardo Pateiro estava a perguntar ao ex-árbitro Marco Ferreira se era ou não penálti e já o meu vizinho – ainda bem que não faço ideia qual - se transformava no Spoiler da noite ao gritar golo a plenos pulmões.
Na rádio acrescentam: “Não sei se é percetível pelas imagens, mas fica a ideia”… e nós em casa sem vermos pão do que se estava a passar.
Como é que as pessoas conseguiram ouvir jogos na rádio durante décadas até se ter inventado a televisão?! Isto é dramático. Terrível. Um horror.

A coisa prosseguiu até ao minuto 35’. Não, não houve nenhum caso. Neste caso o que se passou foi que a minha mulher me veio pedir para ir fazer o jantar, não fazendo grande caso das dificuldades que eu estava a enfrentar. Mentira, que ela fez questão de deitar a bebé para que eu pudesse então preparar-me para… isto.

A segunda parte começou com uma substituição. Entrou a Renascença para o lugar da TSF. Para comparar estilos e ver qual dos dois é o mais interessante de se seguir. Facto alternativo: o que eu queria mesmo era ver se introduzindo alguma alteração na equação a coisa se tornava menos penosa. Não tive grande sucesso. Voltei à TSF por volta dos 55 minutos. O golo do Porto foi dito sem pinga de emoção na Renascença. Qual elogio fúnebre.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Mudei e ali me deixei estar até porque “TSF é TSF. Aqui você ouve. Aqui você vê”. Vê, vê. Então não vê!?
“Vou abrir o Twitter para dar uma espreitadela no que se está a dizer em #SLBFCP”, pensei. Encontrei o GIF. do choque do Jonas com Nuno Espírito Santo. Não comento encontrões nem choques. Não sou utilizador de transportes públicos nem eletricista.

Já na TSF e do que resta da segunda parte destaco duas coisas:

A primeira é que Iker Casillas gosta e muito de chatear o Benfica. Pelo menos pela quantidade de vezes que ouvi…

“Casillas!! Casillas!! Casillas outra vez! Que paradón! Casillas” deve ter estado em bom plano. Não faço ideia se esteve ou não. Não vi;
A segunda é que, na opinião do João Rosado, o jogo estava “partido e sem critério”.

Conheço o João e sei que ele não é tipo que embale em factos alternativos, por isso acredito piamente.

Entra a trilha da TSF que assinala que estamos nos últimos minutos do jogo e respiro de alívio. Vai acabar a maçada.

“Apita Carlos Xistra. Benfica e Porto empatam a uma bola e deixam tudo na mesma na frente do campeonato”.

Assim que ouvi isto disse em voz alta: “Não volto a fazer uma coisa destas.” Isso é ponto assente. Mas voltarei a ouvir jogos na rádio pela vida fora, ou pelo menos parte deles. No carro, em andamento, um relato tem outra graça.

No sofá, sentado em frente à televisão, sabendo que podia estar a ver o jogo ali, de verdade, a ver a bola a percorrer o campo, a passar de pé em pé, a ver as camisolas, as chuteiras de mil cores, os remates, as pessoas, as bancadas, tudo, mas que em vez disso escolhi, de forma consciente e intencional, ouvir o jogo na rádio… isso, isso é que nunca mais repito. Foram aproximadamente 100 minutos de teste à minha santa paciência.

A única que ganhou qualquer coisa no meio de tudo isto.