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Quatro extremos não fazem um ponta de lança

O Benfica está na final da Taça de Portugal após um empate sofrido (3-3) com o Estoril. Os encarnados puseram-se a jeito, porque falharam golos, defenderam mal e cometeram erros diante de uma equipa com dois bons avançados (Bruno Gomes e Carlinhos)

Pedro Candeias

Rafa, rei dos velocistas, plebeu dos goleadores

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Hoje vamos aos chavões, que são muitos e bons no futebol: a equipa que ganha não se mexe, a melhor defesa é o ataque, equipa que não marca golos é a que sofre, só custa o primeiro golo depois é sempre a andar como o ketchup, este é um desporto feito de equilíbrios; e, acabei de inventar este, quatro extremos não fazem um ponta de lança.

Tive de arranjar o meu chavão de algibeira porque acabei de perceber que as outras verdades universais da bola se revelaram espantosamente permeáveis às circunstâncias de um jogo de futebol - que para os mais distraídos, é isso mesmo, um jogo de futebol. Um jogo de onze contra onze (escapou-se-me o chavão do Lineker), jogado por homens e embora os cristãos digam que os homens foram criados à imagem de alguém, a realidade diz-nos outra coisa completamente diferente.

Por exemplo, que André Almeida não é Semedo, Filipe Augusto não é Pizzi, Júlio César não é Ederson, Grimaldo não é Eliseu (aqui, a piada funciona ao contrário) e, sobretudo, que Zikvovic, Carrillo, Cervi e Rafa não são Mitroglou ou Jonas.

Ou seja, Rui Vitória mexeu de mais na equipa quando esta parecia ter ganhou o élan diante do FC Porto, escolheu um onze de ataque e desequilibrado e colocou quatro jovens rapazes lá à frente, nenhum deles um avançado centro, todos eles extremos.

E o Benfica pôs-se a jeito a partir do momento em que o Estoril subiu os níveis de confiança (outro chavão) e descobriu como marcar os velocistas encarnados, tão rápidos a engatilhar para a baliza, como desajeitados a disparar para a mesma.

Aos 33 minutos, Bruno Gomes fez o primeiro golo do encontro, mas aquele bom karma que acompanha Vitória nos momentos de aperto tratou de recompor as coisas: disparate do guarda-redes Luís Ribeiro, bola em Samaris, bola em Carrillo e empate feito.

Segunda parte

E, depois do intervalo, aconteceu um dos golos mais caricatos que já vi, ao nível daquela assistência de Secretário para Acosta. Houve um erro de André Almeida, a bola em Bruno Gomes, bola em Carlinhos e 2-1 - Carlinhos tinha entrado instantes antes. O que se seguiu foi um jogo de loucos (chavão número 9), com falhanços na cara do guarda-redes do Estoril, passes errados do meio-campo defensivo do Benfica (e de Carrillo), contra-ataques sucessivos, e os que deixaram um ponto de interrogação na eliminatória quase até ao fim: 2-2, por Zivkovic; 3-2, por Jonas; e 3-3, por Bruno Gomes.

Para os adeptos de futebol que assistiram, equidistantes, ao que se passou na Luz - os que não eram benfiquistas ou estorilistas - este foi um jogo incrível, apaixonante, rápido, veloz e descontrolado. Para os treinadores, nem por isso. E para a história do futebol português, o Benfica chega à sua 36.ª final da Taça de Portugal.

P.S. Filipe Augusto está lesionado, outra vez, e parece cada vez mais claro que este é um jogador fisicamente fragilizado. Pergunta: para quê resgatar um futebolista que só tinha 9 nove jogos disputados pelo Rio Ave?