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Foi limpinho limpinho. Maia ganhou ao Canelas por 3-1

Porque é que um jogo de futebol das distritais gera tanto interesse? Porque o que mais interessa no jogo é o que não é jogo. No Maia-Canelas houve dez vezes mais polícias que o normal e muitos jornalistas portugueses e estrangeiros a assistir. Esta foi uma reportagem insólita, mas que tinha de ser feita. Porque era um jogo diferente de todos os outros, que começou marcado pela violência e pela polémica

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"Vocês só vão escrever merda". Os adeptos do Canelas não querem falar com os jornalistas - e são dezenas de jornalistas, portugueses e estrangeiros, a ver um jogo que em condições normais seria nota de rodapé. Mas as condições não são normais, o jogo tem intervenções em direto nos canais noticiosos, há 70 polícias no recinto e corpo de intervenção nas imediações do estádio. "Nunca vi tanta bófia! E com tanto gatuno que ainda anda à solta..."

O Maia-Canelas devia ser apenas mais um jogo do Campeonato Elite-Pro, nome pomposo que significa que lá se defrontam as melhores equipas das Distritais, que tentam subir aos campeonatos nacionais. Mas este domingo, 9 de abril, não é assim. No Estádio José Vieira de Carvalho está um forte contingente policial, depois da agressão de Marco 'Orelhas' ao árbitro José Rodrigues no jogo com o Rio Tinto de há uma semana. A agressão à joelhada ao árbitro que partiu o nariz e necessitou de cirurgia reconstrutiva foi notícia em vários jornais europeus, que titularam o canelas 2010 de equipa mais violenta do mundo. A TV Galicia é um dos meios de comunicação estarão presentes na Maia.

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Quando o jogo começa, os jogadores comportam-se com retidão, não há sequer sinais de agressividade. "Parecem uns senhores!", diz um adepto. "Uns senhores, não: hoje parecem uns meninos...", retorque outro. O aparato é muito grande e todos sabem que o mínimo gesto pode ser amplificado. É como se os juízes não estivessem apenas dentro de campo, mas sentados nas bancadas, a ler as notícias, a ver nas televisões. O jogo está a ser filmado por várias estações, preparadas para registar qualquer problema. Mas "hoje vai ser pacífico". Hoje...

Quando as equipas sobem ao relvado, são aplaudidas. A claque do Canelas entoa cânticos. Os jogadores adversários cumprimentam-se, o que segundo adeptos assíduos não costuma acontecer. O próprio treinador do Canelas justifica a não saudação nos jogos anteriores: é para os adversários não se queixarem de intimidação. Desta vez, o treinador está na bancada, castigado. Milton Ribeiro foi castigado em dezembro de 2016 com um ano de suspensão por incitamento à violência.

Seis agentes segue o jogo na pista de tartan, onde a campeã olímpica Fernanda Ribeiro tantas vezes treinou. Os agentes estão virados para a bancada, volta e meia espreitam o jogo. Junto ao relvado estão também o comandante e dois sub-chefes da PSP.

Os adeptos dos dois clubes estão separados por faixas de segurança. Há cerca de meio milhar de pessoas nas bancadas. Normalmente não chegam aos cem.

Do lado dos adeptos do Canelas, os tais que não querem falar, ouve-se apenas um comentário: "Tanta gente a roubar e estão preocupados com o Canelas!".

Nem santos nem criminosos - esta é a senha da claque do Canelas, o Blue Warriors Supportes. A equipa veste de azul e branco. A má fama da equipa tem afastado patrocinadores. O Life Strip Club, casa noturna de Perosinho, é um dos resistentes.

Do lado dos adeptos do Maia, a conversa é um pouco diferente. Joaquim Saldanha, sócio 53, diz que a sua equipa devia "jogar o mínimo, para deixar o Canelas ganhar e subir de divisão, para nos livrarmos deles." Já Domingos Sousa, também sócio do Maia, diz que o ataque ao Canelas "é para atingir o FC Porto através dos Super Dragões". Se jogam duro, afiança, é porque a Associação de Árbitros "não tem coragem para so castigar".

Nas horas antes do jogo, não se sabia sequer que o iria arbitrar. O nome acabou por conhecer-se de manhã: Rui Oliveira. Uma escolha controversa. Ao Expresso, Lourenço Pinto, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), afirmou que é “uma vergonha e uma imprudência” a AF do Porto tar mantido a realização do jogo na Maia, quando a própria associação abriu um processo disciplinar ao Canelas 2010. "Rui Oliveira de árbitro não tem nada, quer protagonismo e não sei se será só isso”, afirmou ainda.

Quanto o Maia marca o primeiro golo, a meio da primeira parte, quase não tinha havido faltas marcadas. Marcou Pedras, número 17 nas costas, 36 anos de idade: 1-0. É o delírio na bancada.

Tudo o que precisa saber sobre o Maia Lidador-Canelas 2010

1. O jogo inicia-se às 16h, no Estádio José Vieira de Carvalho, na Maia. Lotação 16.000 lugares

2. A equipa de arbitragem é liderada por Rui Oliveira, 44 anos, 4ª categoria distrital, que tem por assistentes o filho, Nelo Oliveira, e o jovem Fábio Silva

3. Luciano Gonçalves, líder da APAF, acusa árbitro de só querer protagonismo, sem pensar na maioria dos colegas que pediram escusa em sinal de revolta pelo clima de intimidação do Canelas

4. O encontro está tipificado de alto risco. António Oliveira e Silva, presidente do Maia, diz ter a garantia de meia centena de agentes da PSD e Polícia de Intervenção

5. Líder do Maia condena a marcação do jogo e defende que o Canelas 2010 deve ser excluído da competição

6. Marco 'Orelhas, o agressor do árbitro do jogo com o Rio Tinto, do passado domingo, foi expulso do Canelas, suspenso pela AF Porto e proibido de frequentar recintos desportivos e contatar árbitros pelo o Tribunal de Instrução Criminal do Porto

7. Canelas 2010 é alvo de um processo disciplinar na AF Porto

8. Desde o início da época 12 adversários do Canelas optaram por boicotar os jogos do Canelas 2010. Faltas de comparência foram punidas com derrota na secretaria e multa de 750 euros/jogo

9. Candal foi o único clube que não aderiu ao protesto. Alberto Ribeiro, presidente do clube, afirmou ao Expresso em outubro que os seus jogadores "são homens e não rapazinhos"

10. Fernando Madureira, conhecido como "Macaco", líder dos Super Dragões e capitão do Canelas, criticou as equipas grevistas. Tem por máxima que o futebol é um jogo viril e "não ballet"

11. Chibante, guarda-redes veterano do Canelas e membro da claque portista, considera que a equipa joga "de forma máscula mas dentro das regras"

12. O Maia-Canelas é a quarta jornada da 2ª fase do campeonato Elite-Pro, a Champions dos distritais, prova disputada por seis equipa, a duas mãos, e cujo campeão será promovido ao Campeonato de Portugal, terceiro escalão nacional.

13. Adversários do Canelas justificam presença nesta fase da prova para não serem despromovidos de divisão, dado já terem o limite de faltas na competição - duas

14. Intervalo. Jogo sem faltas. Maia vence por 1-0

15. Lourenço Pinto presidente da Associação de Futebol do Porto está presente. Chegou depois do início do jogo. Mas, para já, não presta declarações

16. Kaka marca pelo Canelas. Jogo empatado. Já houve três amarelos, dois para o canelas e um para a Maia

17. Pedras bisa para o Maia e depois Sérgio Ferreira faz o 3-0 para o Maia. Loucura na bancada

18. Amarelo para o guarda redes do Canelas. Chibante fim do jogo. Tudo está bem quando acaba bem. Ganhou o Maia por 3-1 e o futebol distrital. O jogo da polêmica termina sem incidentes com ambas as equipas aplaudidas. Jogadores cumprimentaram-se. A equipa de arbitragem também

19. O treinador do Maia, Pedro Ferreira, elogiou a equipa de arbitragem. "Fez uma arbitragem quase perfeita sem interferência no resultado". Foi a primeira vez que o técnico defrontou o Canelas, já que foi uma das equipas que optou por não jogar a primeira fase em protesto contra o jogo duro dos canelenses. O Maia dominou e ganhou o jogo com naturalidade

20. O presidente do Canelas, Bruno Canastro, referiu que a asua equipa jogou como nos últimos jogos e voltou a lamentar a agressão que considerou um ato isolado. Pedras, o herói do Maia diz que foi um jogo bonito e bem disputado

21. O capitão do Canelas, Fernando Madureira, afirma que cumprimentou o árbitro e que o elogiou pela sua coragem. Diz perceber a atitude da APAF mas também a do árbitro. "Estamos num estado de direito em que cada um é livre de ter a sua opinião", disse. Para o também líder dos Super Dragões, não foi fácil para a equipa lidar com tanta pressão mediática durante toda a semana. "Eu estive tranquilo porque já estou habituado a lidar com a pressão", comentou. Agora, espera que o ato do seu colega de equipa - condenável mas isolado - sirva de alerta para que todos os jogos tenham policiamento

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