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Quão grego se pode ver Samaris?

Saiba o que pode acontecer ao benfiquista se a Liga decidir que houve uma agressão ao jogador do Moreirense. "É uma situação muito desconfortável para o árbitro", admite Duarte Gomes, ex-árbitro, à Tribuna Expresso

Sónia Santos Costa e Patrícia Gouveia

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Samaris pode receber de volta o murro no estômago que deu a Diego Ivo. Isto se for formalmente acusado pela Liga de agressão. O árbitro Tiago Martins pode não ter visto, mas as câmaras da Sport TV não deixaram escapar o momento em que, no tempo de compensação do Moreirense-Benfica (0-1) de domingo, o grego deu um soco no adversário.

A Liga ainda não se pronunciou, mas já vários juízes distribuíram as sentenças e exigem castigo para o benfiquista. Francisco Marques, diretor de comunicação do FC Porto, partilhou uma publicação na sua página pessoal do Twitter onde compara o gesto de Samaris à agressão a que assistimos no jogo do Canelas, na semana passada.

Nuno Saraiva, diretor de comunicação do Sporting, também fez questão de deixar a sua perspetiva do sucedido nas redes sociais. No Facebook, partilhou um vídeo do tão discutido momento, escrevendo: “Quando existe impunidade, há sempre reincidência. Será que desta vez o árbitro também vai dizer que foi um lance normal de jogo? Aguardemos…”

A verdade é que os segundos em que Andreas Samaris perdeu a cabeça têm feito correr muita tinta na imprensa desportiva e podem ter consequências duradouras para a sua carreira. Para que seja punido, a Comissão de Instrutores tem três dias para escrever um auto - que enviará, posteriormente, ao Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.

A decisão final de castigar ou absolver o jogador está nas mãos deste último organismo, que não necessita de qualquer queixa para atuar - ainda que o Sporting já tenha feito saber que apresentou queixa contra Samaris.

O camisola 7 dos encarnados pode ter à sua espera umas amêndoas da Páscoa muito amargas - o artigo 151.º do Regulamento Disciplinar da Liga, dentro da subsecção de "Infrações disciplinares graves" e referente a "Agressões a jogadores", prevê uma suspensão entre um e 10 jogos em casos de agressão.

No pior dos cenários, a temporada acaba aqui para o jogador, já que faltam seis jogos para o final do campeonato.

A alínea a) deste artigo fala de agressões de jogadores a outros jogadores, e, leia-se, "No caso de agressão, com a sanção de suspensão a fixar entre o mínimo de um e o máximo de 10 jogos e, acessoriamente, com a sanção de multa de montante a fixar entre o mínimo de 5 UC e o máximo de 50 UC".

"Nenhum árbitro do mundo conseguia ver aquilo", garante Duarte Gomes

OCTAVIO PASSOS

Duarte Gomes, ex-árbitro internacional, não tem dúvidas de que a agressão de Samaris a Diego Ivo era humanamente impossível de ver pelo árbitro dentro de campo. Mas admite à Tribuna Expresso que esta é uma situação desconfortável para Tiago Martins.

"É uma situação muito desconfortável para o árbitro. Quando um árbitro, ainda por cima internacional, que arbitra um jogo que sabe que é importante para as duas equipas, quer para o Moreirense – que tinha de pontuar – como para o Benfica – que não podia ceder – e tem a perceção clara de que qualquer erro ou situação que ele não visse, ou interpretasse mal, podia ter uma grande consequência... Sei que neste tipo de jogos os árbitros habitualmente preparam muito bem as equipas, estudam muito bem o jogo, as tendências previsíveis do jogo em função do histórico das duas equipas e quando acontece algo que escapa ao olho humano, é frustrante", diz Duarte Gomes.

O ex-árbitro explica que a ação envolvendo o Samaris passa tão despercebida a olho nu que só se conseguiu ver através de uma repetição na televisão. Nem na imagem corrida é percetível. "O movimento de ontem é um movimento que apenas se consegue ver nas imagens. Nenhum árbitro do mundo conseguia ver aquilo. Aliás, a prova é que em imagem corrida ninguém viu. É depois uma repetição que dá, que por acaso está a filmar o Samaris, que se consegue perceber que houve ali qualquer coisa", afirma.

Contudo, Duarte Gomes sublinha que, tratando-se de um profissional experiente como Tiago Martins, a experiência mostra que erros acontecem e que um árbitro não consegue ver tudo. "Sei que isto pode chocar muito as pessoas que estão em casa que acham que o que veem em casa, o árbitro também vê no campo, mas não é assim. Estamos sujeitos aos jogadores que passam à frente, aos jogadores que estão embrulhados em conflito e não conseguimos ver o que acontece no meio. Há a frustração de não ver no campo, mas há também a consciência tranquila de perceber que era humanamente impossível ver", conclui.

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