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Na fé e no futebol ninguém segura os canelenses

Violência. Esta época já foram agredidos 44 árbitros. Ao último, Marco “Orelhas” partiu o nariz à joelhada. Crónica de um ato anunciado

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

rui duarte silva

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A primeira vez que a industrial freguesia de Vila Nova de Gaia entrou com alarido nas casas dos portugueses foi em 2014, quando mais de metade da população de Canelas saiu à rua, num cordão humano de dois quilómetros, indignada com a mudança de paróquia do amado padre Roberto. As vigílias sucederam-se, o bispo do Porto fez finca-pé e Roberto Carlos também. O sacerdote deixou a Igreja de São João Baptista, padroeira da freguesia, e afastou-se da diocese, sem abdicar dos paroquianos. Criou uma associação humanitária e agora celebra ‘missas’ num armazém, comprado pela comissão de apoio “Uma Comunidade Reage” e vizinho do velhinho Estádio do Canelas, com quem rivaliza em sócios.

“Quem me dera ter tantos. Nós somos pouco mais de 200, eles quase mil”, confessa Bruno Canastro, presidente do mal-afamado clube que no domingo chocou o país e saltou fronteiras, titulado de mais violento do mundo. Na terça-feira, o Expresso foi assistir ao treino da equipa que excomungou Marco “Orelhas” Gonçalves, o avançado que aos dois minutos do jogo com o Rio Tinto partiu o nariz do árbitro José Rodrigues, depois de este lhe mostrar um cartão vermelho por ter agredido um adversário. Colegas e adeptos condenam a brutal agressão, mas não admitem que o clube possa ser impedido de competir por “um ato tresloucado” de um jogador.

“Macaco” e companhia admitem que jogam de forma máscula, mas dentro das regras. Juram que a campanha contra eles e os Super Dragões é uma desculpa para atingir o FC Porto

“Macaco” e companhia admitem que jogam de forma máscula, mas dentro das regras. Juram que a campanha contra eles e os Super Dragões é uma desculpa para atingir o FC Porto

rui duarte silva

“Nem parasitas nem assassinos”

No Café Diferenças, a clientela receia que “pague o justo pelo pecador” e não percebe “o circo de tanta notícia” numa época em que já houve 44 agressões a árbitros. José Santos, adepto do Canelas, lembra que João Pinto também agrediu um árbitro e Luisão “deixou um inconsciente num particular e não aconteceu nada à seleção e ao Benfica”. Joaquim Cantarino, dono do café, propõe uma varridela de balneário para limpar a imagem do Canelas, defendendo que “há uma perseguição à equipa por causa de lá jogar o ‘Macaco’ e outros Super Dragões”. Branca, a mulher, não poupa Marco “Orelhas”, “um culturista que parece um jogador de râguebi e mete respeito aos adversários”, embora garanta que fora de campo foi sempre tranquilo.

A voz corrente é a da cabala anti-FC Porto, numa altura em que ‘águias’ e ‘dragões’ se precipitam para o título separados por apenas um ponto. “Até ao fim, o Benfica, que manda nisto tudo, não vai arranjar confusões para conquistar o tetra”, sentencia o defesa Isaac, amigo de infância do líder dos Super Dragões Fernando Madureira, que acompanhou Marco ao Tribunal Criminal do Porto, na segunda-feira. Conta que o juiz “deu o pior castigo de todos”, impedindo Marco de frequentar recintos desportivos, e declara que, ao contrário do que os adversários fazem crer, os jogadores do Canelas, onde atua desde 2012, “não são parasitas nem assassinos”. Caixeiro numa loja do Porto, Isaac diz que na equipa quase todos têm emprego e jogam por amor à camisola, até porque a ajuda que recebem não dá para o gasóleo. Chibante, funcionário público, admite que não gostam de perder e se subiram de divisão por três épocas consecutivas é porque jogam mais. “De forma máscula, viril, mas dentro das regras”, diz, indignado com as “notícias mentirosas” sobre seis jogadores do Canelas com cadastro criminal.

Ao que o Expresso apurou, Marco “Orelhas”, ex-funcionário da SPDE, acusado na ‘Operação Fénix’, está referenciado por ameaças a árbitros. Kaká, que recusou falar ao Expresso, estará indiciado por tráfico de droga. Cadastro tinha ainda o ex-canelense Carlos Silva, aka “Aranha”, em prisão domiciliária após ter sido detido em 2016 na ‘Operação Jogo Duplo’. Fernando Madureira, investigado em casos de agressão e venda ilegal de bilhetes, também optou pelo silêncio. Bruno Canastro desconhece o registo criminal da equipa e não se conforma com a má fama do clube, onde jogam mais de 100 miúdos. Teme pelo futuro do Canelas, apesar de achar que há uma conspiração concertada por parte dos rivais. “O boicote de 12 dos nossos 13 adversários aos jogos é algo inédito na Europa”, lembra. “Um estigma”, na versão de Milton Ribeiro, o treinador, suspenso por “incitamento à violência” e ausente em Rio Tinto por se encontrar em Barcelona.

rui duarte silva

Maia em estado de sítio

A teoria da conspiração é rejeitada pelos árbitros do núcleo da AF Porto, que recusam apitar o Maia Lidador-Canelas, amanhã, jogo que contará com um contingente policial de 70 agentes da PSP, dez vezes mais do que o usual, e Polícia de Intervenção nas imediações do Estádio Vieira de Carvalho. António Oliveira, líder do Maia, confidencia que, “se pudesse, não jogava”, mas como a equipa já se recusou a sair do balneário num dos jogos e faltou a outro na 1ª fase do campeonato Elite-Pro, “seria despromovida de divisão, quando luta para subir ao Campeonato de Portugal”. Defende que a AF Porto devia ter adiado o jogo e evitado o risco de o mesmo se realizar sem equipa de arbitragem. “Podem ir à bancada buscar alguém ou apitarem os capitães de equipa, metade do jogo cada um, mas será uma imprudência e um atentado à verdade desportiva”, alega o dirigente.

A mesma opinião é partilhada por Manuel Gomes, líder do Grijó, e Carlos Caseira, do Pedrouços, dois dos clubes que optaram por perder seis pontos na secretaria e pagar 1500 euros de multa em vez de jogarem com o Canelas. “Acha que arriscava esta situação se não temesse pelos atletas?”, interroga Caseira, que suspeita de que o incêndio da carrinha do clube, em janeiro, possa estar ligado ao Canelas. O caso está ainda em investigação na Judiciária, tal como o fogo posto a parte do relvado do Grijó. Além do boicote, os 12 clubes revoltosos apresentaram queixas à AF Porto, em outubro, e à FPF, FIFA e UEFA, em janeiro. “Até domingo, assobiaram todos para o lado”, critica o presidente do Grijó. A PSP reforçou entretanto o policiamento, medida que não evitou a brutal joelhada de domingo.

TRÊS PERGUNTAS A João Paulo Rebelo

(Secretário de Estado 
da Juventude e Desporto)

A SEJD vai propor o endurecimento de sanções para a violência no desporto? Marco Gonçalves deve ser irradiado?
A reunião que juntou Federação Portuguesa de Futebol, Liga, Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, Sindicato dos Jogadores, Associação de Treinadores e o meu próprio gabinete foi muito útil para se perceber que as principais entidades responsáveis pelo futebol português concordam que há margem para evoluirmos no quadro das sanções, a exemplo de outros países europeus. Vamos aguardar as propostas concretas que os intervenientes se comprometeram a trazer para a discussão. Não obstante, sublinho a relevância que todos atribuímos à necessidade de combate à violência, pela prevenção e sensibilização de todos os agentes desportivos — adeptos incluídos, naturalmente.

As entidades desportivas foram negligentes com o Canelas?
A forma como o clube acedeu esta época às fases finais do campeonato distrital causa seguramente perplexidade a quem gosta de desporto e defende a ética desportiva.

A que se deve tanta intolerância com os árbitros?
Todas as agressões são graves e condenáveis, mas temos de as colocar em perspetiva. Numa época há mais de 124 mil jogos, falar em intolerância generalizada não deixa de ser algo alarmista. Sendo o policiamento um fator de dissuasão da violência, a FPF já assumiu a proteção às equipas de arbitragem nos jogos seniores e juniores A. E eu dei ao Instituto Português de Desporto e Juventude a garantia de acompanhamento das necessidades de policiamento sinalizadas pelas associações distritais e respetivas comissões de arbitragem. Vamos assegurar que nenhuma necessidade fique por suprir. São medidas de quem quer dar um contributo inequívoco para o erradicar destas agressões.

QUEM É QUEM NO CANELAS 2010

Treinador

Milton Ribeiro 35 anos, treinador, suspenso por um ano por incentivo à violência, cabeleireiro

Guarda-redes

Chibante 39 anos, membro dos Super Dragões, funcionário público na secretaria de uma escola em Miragaia

André Pereira 25 anos, suplente, nutricionista responsável por ementas escolares em Vila Real

Defesas

Ricardo Moreira 20 anos, estudante de Desporto no ISMAI (Instituto Universitário da Maia)

Fábio Pimentel 30 anos, natural de Canelas, sportinguista, dono de uma loja de tatuagens, cabeleireiro

Salvador 30 anos, cabeleireiro na Baixa do Porto

Cláudio 41 anos, funcionário numa empresa de ar condicionado

Isaac 42 anos, membro dos Super Dragões, 1º caixeiro há 19 anos na Casa das Colchas, na Baixa do Porto

Oliveira 32 anos, serralheiro, adepto do Benfica

Filipe 34 anos, assistente de segurança no El Corte Inglés

Médios

Moustapha Modi 24 anos, camaronês, de passagem por Portugal, há dois meses no Canelas

Zé João 34 anos, estudante de Gestão Desportiva no ISMAI

Jorge Oliveira 26 anos, empregado de mesa num restaurante no Porto

Tiago Silva 24 anos, carteiro

Fábio Guill 29 anos, restaurador de móveis

Ângelo 20 anos, trabalhador do call center da NOS

Avançados

Kaká 21 anos, desempregado, ex-jogador do Candal

Fábio Rola 27 anos, desempregado, ex-jogador do Valadares

Vítor Hugo 19 anos, trabalhador da Telepizza, ex-jogador do Coimbrões

Hugo Verrati 22 anos, estudante de Gestão Desportiva no ISMAI

Fernando Madureira (“Macaco”) 41 anos, líder dos Super Dragões, capitão de equipa do Canelas, empresário do ramo da restauração

Márcio 25 anos, empregado numa fábrica de componentes para camiões em Alfena

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