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O poema de Rui Malheiro ao futebol português: deixem a menina dançar (tão bela no seu saltitar)

Faltam cinco jogos para decidir quem será o campeão português em 2016/17 e o analista de futebol Rui Malheiro explica à Tribuna Expresso o que joga(ra)m Benfica e FC Porto, tintim por tintim, antes do Sporting-Benfica marcado para sábado (20h30, SportTV1)

Rui Malheiro

O Benfica-FC Porto terminou com o mesmo resultado do FC Porto-Benfica: 1-1

FRANCISCO LEONG/GETTY

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É um jogo a que não podemos jogar.
Um jogo de que somos os espectadores.
Um jogo de desconhecidos jogadores.
Um jogo a que nunca iremos ganhar.

Olha a menina a dançar tão bela no seu saltitar
Canta a roleta a rodar
Mistérios da sorte e do azar
Olha a menina a dançar
Quem vai com ela ficar?
Canta a roleta a rodar
Mistérios da sorte e do azar.

É um jogo feito para nos comandar.
Um jogo de que desconhecemos as regras.
Xadrez de que se retiraram as negras.
Um jogo feito para nunca acabar.
Olha a menina a dançar tão bela no seu saltitar
Canta a roleta a rodar
Mistérios da sorte e do azar
Olha a menina a dançar
Quem vai com ela ficar?
Canta a roleta a rodar
Mistérios da sorte e do azar.

É a nossa a vida que está em jogo.
É a nossa a vida que outros jogam.

(Mão Morta, “É um jogo”, em “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável”)

Quando figuras canhestras e truculentas se transformam em protagonistas do jogo algo vai muito mal. É certo que há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, mas nunca tanto como nesta temporada. O Futebol tem como figuras centrais os Futebolistas e os Treinadores, algo que é frequente e indevidamente olvidado. E, acima deles, só está a Bola. A menina que devia dançar tão bela no seu saltitar.

Há também um aspeto que não pode ser desprezado: os Adeptos são a mola-real do Futebol. É a partir deles que o jogo adquire uma incomensurável paleta de cores. Entre os adeptos, há os resultadistas, a quem só a vitória do seu clube importa; há os que gostam que o seu clube triunfe, mas ambicionam que o faça proporcionando espetáculos de elevada nota artística; e, por fim, há uma pequeníssima legião que se está a marimbar para o resultado e quer ver (apenas) o seu clube praticar bom futebol. Todas estas visões são – ou deviam ser – veneráveis, mesmo para quem toma partido por uma delas.

Nos últimos anos, cresceu, infeliz e exponencialmente, uma nova vaga: a dos acéfalos, a quem seria exageradamente elogioso atribuir a designação de adeptos. E não, não me estou a referir às claques, porque nunca se deve confundir uma parte – a que polui recintos desportivos com cânticos e ruídos hediondos – com o todo. Mas, sim, a algumas tristes figurinhas que aproveitam espaços mais ou menos mediáticos para instigarem guerras muito pouco venturosas, plenas de maledicência e de ódio, conspurcando desde a pequeníssima janela das suas latrinas, por interesses mais ou menos insondáveis, o espetáculo mais bonito do mundo. E nesse assombro a rivalidade nunca deve deixar de existir, ainda que deva ser praticada de forma totalmente sadia, de preferência com elevadas doses de respeito e muitas pitadinhas de humor.

Para esses tontos metamorfoseados em chico-espertos – que, no fim, também quererão recolher louros de um êxito que não lhes diz respeito; mas que debandarão silenciosamente, como sempre acontece, pelos pingos da chuva em caso de insucesso, como o diabo foge da cruz – faltarão bem mais do que 450 minutos para saber quem vai com ela – a bola – ficar.

Aquilo que realmente importa para quem olha para o Futebol – com 'f' bem maiúsculo – com amor e paixão, num campeonato que poderá estar em aberto até ao último segundo, e quem sabe, até, decidir-se pela diferença entre golos marcados e sofridos.

Quando tu me vires no futebol
Estarei no campo, cabeça ao sol
A avançar pé ante pé para uma bola que está à espera dum pontapé
À espera dum penalty que eu vou transformar para ti
Eu vou atirar para ganhar
Vou rematar e o golo que eu fizer
Ficará sempre na rede a libertar-nos da sede
Não me olhes só da bancada lateral
Desce-me essa escada e vem deitar-te na grama.
Vem falar comigo como gente que se ama
Até não se poder mais, vamos jogar.

(Sérgio Godinho, “Espectáculo”, em “Campolide”)

A irrefreável vertigem de Vitória

Rui Vitória cumpre a sua segunda época no Benfica

Rui Vitória cumpre a sua segunda época no Benfica

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

O inédito tetracampeonato nacional, algo que nem o Sport Lisboa e Benfica bicampeão europeu almejou, já esteve debaixo de um dos braços de Rui Vitória. Basta recuarmos ao final do primeiro terço do campeonato (11.ª ronda), quando o Benfica usufruía de uma confortável vantagem de 5 pontos sobre o Sporting (2.º) e de 7 sobre o FC Porto (4.º), ou perto da viragem de volta no campeonato, mais concretamente à 16.ª jornada, quando os encarnados desfrutavam de 6 pontos de avanço sobre FC Porto (2.º) e de 8 sobre o Sporting (3.º, a par do Sporting de Braga).

Eram tempos em que os apaniguados mais acérrimos dos encarnados afiançavam que o maior rival do onze titular seria o onze de suplentes (onde, se bem me recordo, nem cabia Carrillo), tamanha a qualidade de ambas. Foi também um período em que os mais acérrimos críticos da “estrutura” vermelha falavam de um polvo.

No entanto, os principais tentáculos passavam pela superior qualidade individual dos jogadores, capaz de ocultar as debilidades do processo coletivo, acrescida pela irrefreável vertigem que o Benfica era capaz de imprimir em quase todos os jogos, dominando todos os itens ofensivos da competição nacional.

Algo que podia ser considerado como pouco expetável, dada a longa ausência por lesão do resolutivo Jonas, o melhor definidor do campeonato no remate e no último passe, mas que fez com que Gonçalo Guedes emergisse como segundo-avançado, tornando-se numa figura crucial nesse jogar alucinante. Isto porque o menino de Benavente mostrou-se corrosivo a conjugar velocidade, aceleração, mobilidade e argúcia no ataque à profundidade, fomentando, como vértice ofensivo, uma dilacerante conexão em losango com Nelson Semedo, Salvio e Pizzi (vértice mais recuado) que fazia com que o Benfica, principalmente na última trintena e meia de metros, dinamitasse as defesas rivais no espaço entre o centro e a direita, criando oportunidades de golo em sequência.

Gonçalo Guedes foi vendido ao PSG no mercado de inverno

Gonçalo Guedes foi vendido ao PSG no mercado de inverno

MIGUEL RIOPA/GETTY

Só que Guedes voou para Paris, a troco de irrecusáveis 30 milhões de euros, e as águias foram perdendo o embalo no voo rumo ao tetra e acabaram por ser ultrapassados pelos portistas no comando de grande parte dos itens ofensivos do campeonato.

Contudo, o sinal que o Benfica vive numa montanha russa desarvorada, fruto da incapacidade para conseguir controlar/adormecer um jogo, já tinha sido dado na deslocação ao terreno do Besiktas, onde uma primeira parte épica, com um retumbante 3-0 aos 31 minutos a fazer rememorar jornadas europeias homéricas da década de 1960, findou num empate sofrido (3-3) que quase deu em derrota.

Mais exemplos se seguiriam: o empate caseiro a três com o Boavista, na despedida de Guedes (estranhamente situado como referência ofensiva, com Jonas nas suas costas, numa partida em que Mitroglou ficou no banco), com os axadrezados a colocarem-se a vencer por três golos na sequência de 25 minutos em pressão média-alta, a que se juntou a incapacidade para, após o 3-3, em mais de uma vintena e meia de minutos consumar a reviravolta total no marcador; as derrotas consecutivas ante Moreirense (1-3), nas meias-finais de uma Taça da Liga que parecia desenhada para mais um sucesso rubro, e Vitória de Setúbal (0-1), para o campeonato, em exibições de uma pobreza confrangedora, após um triunfo por 4-0 diante do Tondela, num jogo em que os encarnados, após 59 minutos de um futebol paupérrimo, almejaram a goleada; a dupla eliminatória com o Borussia Dortmund nos oitavos de final da Liga dos Campeões, onde o Benfica, após uma vitória caseira que não refletiu a mais do que evidente – e angustiante – superioridade do germânicos, caiu com estrondo no Signal Iduna Park, num prélio em que Rui Vitória procurou promover uma alteração estrutural para o 4x1x4x1, deixando Jonas e Zivkovic no banco e Rafa, muito estranhamente, na bancada; e, por fim, o empate caseiro a três com o Estoril, na segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal, em que um corte salvador de Grimaldo evitou, nos instantes finais, um escândalo na Luz.

Contudo, o Benfica permanece na dianteira do campeonato, onde é o único clube a depender de si para alcançar o título nacional, e está na final da Taça de Portugal.

O trabalho de Rui Vitória é, no fundo, um deleite para os resultadistas: já é o quarto treinador – entre os que realizaram mais de 30 partidas – da história do clube com maior percentagem de triunfos (74%) em competições oficiais, só superado pelo húngaro Lajos Czeziler, pelo inglês Jimmy Hagan, e pelo chileno Fernando Riera.

Mas há também o reverso da medalha, muitas vezes ocultado. Se olharmos para os confrontos na Liga dos Campeões e ante os eternos rivais (Sporting e FC Porto), o pecúlio é de 10 triunfos (apenas um, ante o Astana, não foi pela margem mínima), 6 empates e 11 derrotas em 27 partidas. Se reduzirmos o leque a Atlético Madrid, Borussia Dortmund, Bayern de Munique, Nápoles, FC Porto e Sporting, os jogos de grau de dificuldade mais elevado, o pé-de-meia do ribatejano é de 4 vitórias, 3 empates e 10 derrotas em 17 partidas.

Números que podem ser considerados curtos, tal como o facto de ser apenas o 12.º treinador do Benfica (entre os que efetuaram mais de 30 jogos) com menor percentagem de derrotas em jogos oficiais (15%). Atrás de Toni (com mais do dobro dos jogos) e de Jorge Jesus (com mais do triplo de partidas).

Jorge Jesus esteve no Benfica entre 2009/10 e 2014/15

Jorge Jesus esteve no Benfica entre 2009/10 e 2014/15

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

Mas Vitória, tal como acontecera no pretérito exercício, tem sido um sobrevivente no momento dos match-points no campeonato 2016/17.

Primeiro, foi a definição primorosa de João Carvalho, prodígio formado no Seixal e forte candidato a integrar o plantel 2017/18 dos encarnados, a fazer com que o Vitória de Setúbal conseguisse roubar dois pontos na deslocação ao Dragão, impedindo o FC Porto, depois do Benfica escorregar em Paços de Ferreira, de assumir a liderança do campeonato.

Agora, o empate portista na deslocação a Braga, já depois do Benfica ter atropelado o Marítimo ao desvendar o á-bê-cê de como arrumar um jogo em dez minutos, coloca Rui Vitória a olhar para o dérbi ante o Sporting como encarou, há três semanas, o clássico diante do FC Porto: sob dois prismas.

Mais uma vez, agora com apenas 5 jornadas pela frente, há dois resultados que são interessantes: a vitória e o empate.

Assim, o técnico dos encarnados não será obrigado a entrar em Alvalade com a necessidade de assumir ou repartir o domínio do jogo, o que faria com que expusesse muito mais no momento de transição e organização defensiva, ante um adversário que, por mais que defenda e pratique um ideário dominador, também consegue ser letal no contragolpe, até porque tem vindo a ganhar maior contundência na reação à perda.

Esse era um aspeto em que os leões eram arrasadores no exercício passado, mas que foi um dos seus grandes problemas na metade inicial da temporada, sobretudo porque Jorge Jesus demorou a encontrar uma solução para a equação mais difícil: a de quem era o jogador que melhor podia desempenhar as funções de segundo-avançado.

Um problema acrescido para o Benfica sob o comando técnico de Vitória, sempre com dificuldades em lidar com oponentes capazes de pressionar com linhas mais subidas, já que desfraldam os problemas de conexão entre os jogadores a partir de fases mais recuadas, independentemente da elevada capacidade – nem sempre explorada – de Lindelöf para oferecer mais critério às saídas em condução e construção.

Na 1ª volta, o Benfica (de Lindelöf) venceu o Sporting (de Gelson) por 2-1

Na 1ª volta, o Benfica (de Lindelöf) venceu o Sporting (de Gelson) por 2-1

JOSE MANUEL RIBEIRO/GETTY

Contudo, o dérbi é apenas a mais árdua de cinco finais – seguir-se-ão Estoril (casa), Rio Ave (fora), Vitória de Guimarães (casa) e Boavista (fora) – que prometem emoções eletrizantes. Só que o Benfica poderá surgir em Alvalade com as linhas mais baixas e a defender de forma mais compacta – procurando dilacerar o adversário que joga com a certeza de encurtar para 5 pontos a diferença para os seus dois mais diretos rivais, (re)abrindo uma pequena frincha para a qualificação direta para a Liga dos Campeões (ainda mais remotamente para o título), até porque Jesus sabe o que é perder 5 pontos e um título nas derradeiras três jornadas do campeonato – no seu erro, atacando as costas do seu último reduto.

Foi essa a chave dos quatros triunfos de Vitória sobre Jesus – já são 18 jogos, com 13 triunfos para o amadorense – ao longo da sua carreira: dois ao serviço do Vitória de Guimarães (um deles numa final da Taça de Portugal), dois como treinador do Benfica. Sempre pela margem mínima.

De resto, não há grandes novidades. O futebol dos encarnados mantém-se dependente das individualidades.

Salvio continua a ser imprescindível para o futebol vertiginoso preconizado por Rui Vitória: arguto a queimar linhas, na busca de uma espécie de duplicado do fascinante Renato Sanches, desta feita aberto sobre o corredor direito, o argentino é, neste momento, o pior dos (cinco) extremos no momento da tomada de decisão, o que não o impede de projetar para o banco o distinto Zivkovic, médio-ala com um virtuosismo assinalável e arguto a explorar o espaço interior, mostrando-se mais cortante e perigoso quando parte da direita do que da esquerda. Os últimos jogos trouxeram a novidade da aposta em Rafa como médio-ala- esquerdo sempre incisivo na busca do espaço interior.

Apesar da ansiedade no momento da definição dos lances, o ex-bracarense acelera o jogo com bola de forma tão impressionante como invade as entrelinhas no corredor central, o que o pode tornar nuclear para desembrulhar o dérbi de Alvalade.

Depois, existe uma dependência extrema das conexões entre Pizzi e Jonas, a dupla de jogadores mais cerebrais dos encarnados que Jesus irá certamente procurar obstruir, e entre Jonas e Mitroglou, o que, por norma, significa golos (no plural), ainda que represente uma menor vertigem, já que as impressionantes acelerações do internacional brasileiro são feitas com o cérebro.

E, principalmente, tem havido muito Nelson Semedo, um lateral supersónico que cria mais desequilíbrios no um contra um do que qualquer extremo do plantel, patenteando uma incisividade tremenda no ataque à profundidade, alternando movimentos sobre o corredor lateral com penetrações aceleradas para o espaço interior.

Depois, ao invés do que aconteceu diante do FC Porto, Rui Vitória poderá contar com Fejsa, uma espécie de super-homem preponderante na forma como oferece equilíbrios defensivos, com uma inteligência posicional que Samaris nunca atingirá, e que permite que a equipa controle muito melhor as entrelinhas e saia para ataque com muita mais segurança; e com Grimaldo, um lateral que, mesmo ainda a recuperar a melhor forma, oferece soluções à esquerda, num registo mais tecnicista e cerebral, próximas às que Semedo regala à direita.

Um Homem (temporariamente) só

Nuno Espírito Santo chegou este ano ao FC Porto, depois de ter passado duas épocas no Valência

Nuno Espírito Santo chegou este ano ao FC Porto, depois de ter passado duas épocas no Valência

FRANCISCO LEONG/GETTY

Ao contrário do que canta Rui Reininho, distinto adepto portista com sentido de humor e poder de escrita corrosivos, nem todos os homens sós preferem perder. É o caso de Nuno Espírito Santo.

Se é certo que falhou dois match-points para abraçar a liderança do campeonato, ao ceder empates ante Vitória de Setúbal (casa) e Benfica (fora), e não arrancou mais do que uma igualdade na deslocação a Braga na derradeira jornada, perdendo dois precisos pontos para o rival encarnado, Nuno tem o mérito de se manter vivo na corrida pelo título, abordando a jornada 30, em caso de vitória do Sporting sobre o Benfica, com hipóteses de se isolar no comando do campeonato. O que não é coisa pouca.

Contudo, nunca foi boa política depender de terceiros para triunfar, ainda que a história do futebol prove, muitas vezes, o contrário.

Diante dos sadinos, o FC Porto foi traído pela ansiedade dentro e fora do relvado, reflexo do risco de um inédito quarto ano consecutivo sem vencer o campeonato sobre a égide de Pinto da Costa, acompanhada por uma angustiante falta de ideias, que se traduziu na insistência de uma chuva de bolas bombeadas – mais do que cruzamentos –, na sequência de lances de bola corrida e de bola parada, em direção à área adversária, ante um Vitória que foi mais arguto a (re)tirar o cerebral Óliver do (centro do) jogo do que a queimar tempo de forma incessante.

Ante o Benfica e o Sporting de Braga, em jogos em que entrou praticamente a perder, o FC Porto teve a capacidade para reagir e chegar ao empate, mas mostrou, em vários momentos (muito mais contra as águias do que contra os guerreiros minhotos), uma maior preocupação em não perder do que em correr riscos em busca do triunfo.

Algo que se fez sentir ao não ser contundente nos momentos de maior desorientação dos antagonistas e em algumas das opções que Nuno (não) tomou: André Silva, num superlativo momento de confiança, após um golo e uma assistência pela Seleção ante a Hungria, foi suplente na Luz; Diogo Jota, em Braga, não saiu do banco, mesmo quando Brahimi foi retirado.

FRANCISCO LEONG/GETTY

A prisão de Espírito Santo aos equilíbrios defensivos, reflexo das influências do seu mestre Jesualdo Ferreira, é, por ventura, o seu lado mais sombrio. Aquele que também contribui para que pareça, tal como na canção de Reininho, um homem (demasiado) só.

Prova disso é o olhar desconfiado com críticas e contracríticas às suas opções, e o estranho acanhamento em tecer elogios ao treinador que (re)introduziu a palavra “fortaleza” no léxico do futebolês. Significado que poucos, como ele, conhecem.

É que Nuno Espírito Santo soma 33 jogos consecutivos sem perder em casa em jogos a contar para campeonatos nacionais, mesmo tendo somado 51 partidas numa prova tão competitiva como La Liga. A derradeira aconteceu, a 30 de novembro de 2014, na receção do Valencia ao Barcelona (0-1), graças a um golo de Busquets aos 90’+4’, numa recarga oportuna a uma parada espantosa de Diego Alves a uma finalização de Neymar. Foi o único insucesso doméstico de uma aventura espanhola em que conseguiu um 4.º lugar – a apenas um ponto do Atlético Madrid, então campeão em título – e o apuramento para fase de grupos da Liga dos Campeões, após derrubar o Mónaco, orientado por Leonardo Jardim, no play-off.

Para trás, ficara o feito histórico de conduzir o Rio Ave, em 2013/14, às finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga (ambas perdidas ante o Benfica de Jesus), depois de no exercício anterior ter conseguido acabar o campeonato em igualdade pontual com o Sporting.

Para perceber a dimensão do trabalho de Nuno como técnico dos portistas é crucial recuar a 3 de dezembro de 2016. Foi esse o momento da viragem da temporada do FC Porto, que até começara com a insigne eliminação da Roma no play-off de acesso à Champions. O golo do júnior Rui Pedro, ao minuto 90’+5’ da receção ao Sporting de Braga, colocou um ponto final num incomum jejum de 520 minutos sem marcar golos dos azuis e brancos, reflexo, acima de tudo, de uma ineficácia aterradora, mas também de alguma previsibilidade no processo ofensivo que a (re)incorporação de Brahimi e a aquisição de Soares foram desvanecendo, ainda que não debelando totalmente.

Por essa altura, até pelo atraso pontual, poucos ousariam conjeturar que o FC Porto pudesse chegar à 30.ª jornada, a caminho do final de mês de abril, com a possibilidade de lutar pela conquista do título nacional.

Há muito de obra e graça de Espírito Santo nesta estafante e espinhosa marcha, onde conseguiu impor, na quase totalidade dos jogos, aquilo que definiu com a ajuda de uns preciosos rabiscos como “visão FC Porto”: a capacidade para reduzir o campo para 65 metros (também já o reduziu mais), de forma a estar mais perto da baliza oponente.

Com menos um ano de trabalho do que os treinadores dos mais diretos rivais (Rui Vitória e Jorge Jesus), o detalhista Nuno conseguiu, em nove meses, ter duas estruturas trabalhadas (4x3x3 e 4x4x2), algo que não acontece nos competidores (presos ao 4x4x2), além de um híbrido entre ambas, aquela que tem gerado mais indefinições, fruto da colocação de André Silva a partir do corredor direito (em direção à área), onde não se consegue sentir confortável, até pela vontade indómita de estar em todo o lado, e ser ala, segundo-avançado e avançado-centro em simultâneo.

Espírito Santo conseguiu, acima de tudo, construir um edifício sólido a partir dos andares de baixo: rés-do-chão, primeiro piso e a escadaria de acesso ao segundo andar. A sua principal preocupação, desde a chegada ao Dragão, passou por afiançar uma consistência defensiva superlativa, da qual não abdica nem sem situações limite.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

Tudo começa no guardião Casillas, que atingiu patamares exibicionais muito acima dos patenteados no último exercício; prossegue num quarteto de defesas, onde é evidente o crescimento coletivo – como dupla – e individual dos centrais Felipe – contundente no futebol aéreo e nos duelos, e cada vez mais adaptado à realidade europeia – e Marcano – de dispensável a titularíssimo –; e termina no médio-defensivo Danilo, claramente uma das figuras da temporada pela impressionante capacidade de recuperação e disponibilidade para correr quilómetros, mas também pelo crescimento evidenciado nas ações de construção (vertical), de condução e na conquista de bolas aéreas – e finalizações – na área adversária.

Além disso, importa evidenciar a forma abnegada como toda a equipa trabalha em prol do processo defensivo, tendo nos atacantes os primeiros defesas, o que garante uma reação lancinante à perda. Depois, o coletivo, mesmo necessitando de aumentar e aprimorar os índices de consistência, foi crescendo do ponto de vista ofensivo.

Capaz de ser pungente no ataque à profundidade, defendendo com linhas mais baixas e apostando numa construção mais longa direcionada a Soares (e/ou André Silva), o FC Porto também consegue ser dominador no meio-campo adversário, ainda que continue excessivamente preso ao jogo exterior (mesmo com três médios interiores), sempre com os laterais Alex Telles (esquerda) e Maxi Pereira (direita) disponíveis para oferecerem largura e profundidade – e aos inevitáveis cruzamentos – muitas vezes, bolas bombeadas – para finalizações aéreas, aspeto em que é tão dilacerante – até pela facilidade com que coloca jogadores em zona de definição – como extraordinariamente previsível.

No entanto, a mobilidade das peças – por vezes, excessiva – é ponto de ordem, e os cinco elementos mais adiantados nunca dão referências aos rivais e fazem permutas posicionais permanentes. Daí resulta que os avançados também busquem muitos movimentos à largura; que os alas/extremos indaguem o espaço interior; e que os interiores percorram imensos espaços entre o corredor central e os laterais.

Um aspeto que poderá ser crucial para explicar o menor esclarecimento nas conexões através do jogo interior, apesar do talento superlativo de Óliver Torres, um jogador com uma intensidade cerebral – visão de jogo, qualidade no passe, tomada de decisão (e disponibilidade física) – extraordinária, mas que não consegue ser simultaneamente “8” e “10”, apesar de se tratar, a léguas, do portista mais esclarecido e deliberativo nas duas funções.

André André, mestre no toque curto e de uma entrega admirável ao jogo, tem sido o seu habitual parceiro numa estrutura em 4x3x3, em detrimento do acelerador Herrera, que foi perdendo espaço com o decorrer do exercício.

A reincorporação de Brahimi, a partir do momento em que percebeu que para jogar com Nuno era necessário resistir à sua tendência para individualizar excessivamente as ações, permitiu que o FC Porto recuperasse o jogador mais desequilibrador do campeonato no um contra um, juntando-se a Corona, um médio-ala/extremo que, apesar de alguma volubilidade, tem vindo a crescer com Nuno – muito mais capaz no processo defensivo e na tomada de decisão/definição, para além de acelerativo e ziguezagueante um contra um -, jogadores extremamente hábeis no ataque às entrelinhas no corredor central, ainda que, por norma, mais assentes em premissas individuais do que num futebol conetivo.

Brahimi e Soares, duas das peças fundamentais do ataque do FC Porto

Brahimi e Soares, duas das peças fundamentais do ataque do FC Porto

MIGUEL RIOPA/GETTY

Depois, a aquisição de Tiquinho Soares, um avançado com uma força física e uma mobilidade extremas, que o transformam num corrosivo carro de assalto à profundidade com um apetite insaciável pela baliza adversária (com os pés e através do jogo aéreo), garantiu uma nova solução de peso para a frente do ataque, onde deixou de se sentir a dependência extrema da capacidade de finalização de André Silva.

E se é certo que Soares beneficia da parceria com o jovem internacional português, são muito menos óbvios os proveitos que André Silva retira do consórcio com o brasileiro, algo que, muito provavelmente, contraria as previsões de Nuno quando avançou para a aquisição do ex-vimaranense, que tinha feito, durante grande parte da primeira volta, um casamento corrosivo com o maliano Marega ao serviço do Vitória.

Com Brahimi ausente nas próximas duas jornadas por castigo, Diogo Jota, que tem vindo a exibir-se em muito bom plano (principalmente como jóquer ofensivo), poderá ser um ás de trunfo: acelera, rompe, desequilibra, assiste e não tem medo de ser feliz ao buscar, com alguma insistência, a baliza adversária fruto da sua espontaneidade no remate. Bem mais do que Otávio, preponderante no início da época, mas que demora a reencontrar-se com a melhor forma após uma lesão prolongada.

Por fim, nota para outro aspeto determinante: com Nuno, os dragões tornaram-se na equipa mais contundente do futebol luso no aproveitamento de lances de bola parada laterais, onde tiram partido do excelso jogo aéreo de Felipe, Marcano, Soares, André Silva e Danilo, para dar seguimento aos cruzamentos venenosos de Alex Telles, Layún, Otávio ou Brahimi. Algo que tem sido crucial para desbloquear muitos jogos.

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