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Como os treinadores de Sporting e Benfica preparam os grandes jogos

O Sporting-Benfica desta noite (20h30, SportTV1) é o jogo que pode decidir tudo. O Expresso foi ouvir jogadores treinados por Jesus e por Vitória e percebeu como são preparados por cada um deles

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Jesus: Com ele, ninguém desliga

Podia não ser com ele e até nem costumava ser. Mas, no balneário, se houvesse uma correção, uma crítica ou uma explicação a dar a alguém, todos a ouviam. Fosse a conversa à distância de uns metros ou perto do ouvido, a maneira de se expressar era a mesma. “Ele fala sempre alto, e ainda bem, assim percebíamos todos. Por exemplo, eu, que era médio, sabia tudo o que ele queria de um central ou de um lateral”, conta Silas, ao rebobinar as muitas vezes que coincidiu num balneário com o treinador Jorge Jesus, que, lá dentro, até nem é de falar por aí além. A maneira dele era chegar, ir direto ao assunto, dizer o que tinha a dizer, não florear e usar os minutos só para falar do que havia para corrigir. Estivesse a equipa a ganhar, a perder ou a empatar.

É um treinador que passa “muita informação”, um viciado no detalhe que se deixa levar tanto por este vício que se torna irrequieto, falador e berrante, atento ao “ínfimo pormenor”. Corrige posições ao centímetro e repete exercícios até saírem iguais aos que tem na cabeça. Muitas vezes. Esta é a descrição de Silas e não está longe da ideia que se tem de Jorge Jesus. Os dois coincidiram no Belenenses (2006 a 2008) durante tempo suficiente para o jogador resumir “talvez o único ponto que limava” no treinador: “É muito exigente com ele próprio e depois transmite isso aos jogadores.”

Porque essa exigência, diz ele, vem do tal vício no trabalho, no detalhe, no posicionamento, de toda a gente estar no sítio certo, o que, “depois de uma semana inteira a treinar, a pensar no jogo e nos pormenores”, é demasiado para certos jogadores. “Há quem precise de se desconectar um bocadinho para, na altura do jogo, estar a 100%. Mas ele não deixa. Até em semanas em que não havia competição, ele queria levar tudo na máxima intensidade”, diz Silas, argumentando que as épocas são grandes, os jogos são muitos, e tudo isto é amplificado quando se está no Benfica ou no Sporting. É assim que se chega ao cansaço psicológico, que costuma ser “o primeiro a aparecer e o mais prejudicial”. Depois, há sempre o ter de lidar com Jesus.

Silas não teve problemas com ele. Nunca ouviu das boas do treinador e “sentia, todos os dias, que ia para casa com alguma coisa aprendida”, mas reconhece que Jesus tem um estilo direto, frontal, sem filtros e com palavrões e duro para com quem fala. O que pode não resultar para todos. “As correções dele não são contra a personalidade do jogador. O mister Jesus não corrige contra o jogador, mas contra as ações que ele fez ou não fez. Há jogadores que, realmente, bloqueiam com ele, porque começam a pensar: ‘Eh, pá, este gajo não gosta de mim.’ Mas basta metermos na cabeça que ele nos diz as coisas daquela maneira porque é a maneira de ele comunicar”, defende o médio, que, aos 40 anos, ainda joga no Cova da Piedade.

O Cândido e o Rodrigo

Silas dá o exemplo de Cândido Costa e Rodrigo Alvim, a quem Jesus “mais lixava a cabeça” nos tempos do Belenenses — o que soa familiar, porque ambos eram laterais. “Os jogadores têm de meter na cabeça que ele o faz porque se preocupa. Quem bloqueia não consegue distinguir uma coisa da outra. Quando o mister Jesus quer corrigir, não dá um minuto de descanso”, explica Silas, lembrando as muitas alturas em que ele, e eles, o ouviram no balneário, nos treinos, nos hotéis, nos autocarros ou durante os estágios.

Porque é assim, a ser ouvido todos os dias, que Jorge Jesus motiva. Ele não é “um motivador nato, como outros treinadores”, que vão pelas palavras certas para carregar nos botões certos que existem na cabeça de quem joga. Não é homem de palestras inspiradoras ou discursos épicos, seja o próximo jogo grande, pequeno, clássico ou dérbi. Ele fala e explica e detalha e ensina e quer passar “tanta informação” que “já se tem quase tudo dentro da cabeça” quando se chega ao jogo. “O Jesus motiva, sobretudo, por os jogadores o ouvirem pela competência. Ele motivava-me só pelo conhecimento que me estava a passar.”
Texto Diogo Pombo

Vitória: a carta 
que ganhou um grupo

Ele tem coisas diferentes dos outros.” Ele, Rui Vitória. Tranquilo, próximo dos jogadores, as primeiras características que surgem quando perguntamos a Caetano sobre o técnico que o lançou na 1ª Liga. Estávamos na época 2010/11, Vitória tinha acabado de chegar a Paços de Ferreira e Caetano era caloiro nos seniores.

Mas, afinal, que “coisas diferentes” são essas? O extremo fala-nos dos dias que antecederam a final da Taça da Liga, que o Paços jogou frente ao Benfica de Jesus, precisamente. “Na véspera do jogo, em estágio, escreveu uma carta personalizada a cada jogador. Não foi uma carta igual para todos, foi uma carta pessoal para cada um”, conta. “A carta apelava à parte mais pessoal, ao carácter de cada um. No fundo, a dar motivação para o dia seguinte, mas também a tirar um pouco da pressão que esses jogos grandes trazem.” E nesse aspeto da preparação, Rui Vitória “é fantástico”, assegura Caetano, atualmente no Desportivo das Aves.
Rui Vitória não se ficou pelas cartas. “No dia do jogo mostrou-nos um vídeo muito emocionante, com imagens motivacionais e com algumas frases e imagens das nossas famílias. Não estávamos à espera. Os adjuntos conseguiram contactar as famílias sem os jogadores darem por isso”, lembra o jogador formado no FC Porto.

Por isso, quando perguntamos se o lado das relações interpessoais é o ponto forte de Rui Vitória, Caetano tem a resposta pronta: “Sem dúvida. A parte humana é o forte dele. É um grande treinador, mas o seu carácter e a sua forma de ser são fantásticas. Como treinador, a maior virtude dele é o homem que é.” Caetano sublinha que Vitória “sempre foi uma pessoa calma, muito tranquila” e que transmitia exatamente essa tranquilidade à equipa durante a semana. Mas nem por isso se esquecia da disciplina: “Se tinha de dar um ‘arranque’ na hora certa dava, não pedia ‘por favor’ para o fazer. É muito próximo dos jogadores, mas também consegue manter alguma distância e disciplina no balneário.”

Sem medo dos jovens

Apesar de já terem passado uns anos e Caetano acreditar que Rui Vitória já tenha entretanto mudado algumas práticas — até porque era um jovem treinador quando chegou ao Paços —, o antigo internacional jovem lembra que o técnico gostava de acompanhar os jogadores até ao último momento e que a palestra antes do jogo era sempre dada no balneário. E mesmo quando os jogos não corriam bem, Vitória não era homem de se exaltar. Se, por exemplo, ao intervalo a equipa estivesse a perder “nunca era de grandes berros ou grandes manifestações”, diz Caetano. “Era calmo, sereno. Se a equipa precisasse de um abanão ele dava esse abanão. Se a equipa estivesse a perder, mas a fazer uma boa exibição, ele não olhava só para o resultado, tentava alterar alguma coisa a nível estratégico, mas sempre de uma forma tranquila.”

A fama de gostar de apostar em miúdos é mais do que fama: Vitória não tem receio de lançar um miúdo, nem mesmo nos jogos mais difíceis. Prova viva? Caetano, por exemplo. “Na altura, era o meu primeiro ano na 1ª Liga e o primeiro ano como sénior. Logo na primeira jornada jogámos com o Sporting e ele não teve problema nenhum em colocar-me a titular. Sentiu que eu tinha personalidade”, conta o médio, que sublinha que para Vitória “um miúdo de 18 anos é igual a um jogador experiente de 35”. E também nisso ele é “diferente de alguns treinadores”.

Num plantel em que conviviam jovens como Pizzi, Nélson Oliveira, David Simão e o próprio Caetano com jogadores já batidos como Filipe Anunciação ou Manuel José, o avançado garante que “o tratamento era igual para todos”. Vitória “é um treinador que não tem problema nenhum em lançar jovens e tem mostrado isso em todos os clubes por onde passou”, lembra o antigo internacional jovem: “Passava-me confiança e eu sentia que ele tinha confiança em mim. Isso para um jovem é muito importante. Para ele, experiência não é ser mais velho.”

Texto Lídia Peralta Gomes