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O que acontece quando não vemos a bola a rolar

Os dois golos do dérbi que empatou (1-1) o Sporting e o Benfica apareceram quando a bola parou - primeiro, no penálti batido por Adrien, depois, no livre rematado por Lindelöf. Quase mais nada de perigoso aconteceu para as balizas e o Benfica garantiu que, com quatro jornadas até ao fim, continua a depender dele próprio

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Se é um dos neandertais, estagnados nos tempos, para quem o futebol é apenas uma desculpa ou motivo fácil para a pancadaria, a violência e para o esquecimento de que o homem é humano porque tem neurónios para pensar, então saiba que o jogo entre Sporting e Benfica acabou 1-1. Se é dos que vão na manada do só-estamos-bem-se-estivermos-contra-os-outros, ou a berrar, a acicatar, a odiar e a guerrear, então não lhe deve interessar o que vem a seguir. Que é futebol.

Portanto, pare de ler.

Se não parou, é talvez sinal de que está intrigado, pelo menos curioso, de como uma equipa começou tão melhor que outra num jogo com jogadores que se conhecem bem, treinadores que sabem como o outro pensa, e em que a gente que pensa, corre, executa, bate, passa, reage e se adapta é da melhor que há em Portugal.

A resposta está no espaço.

Porque os jogadores podem-se distinguir pela técnica que têm nos pés, o atleticismo que carregam no corpo, a forma como unem as duas coisas com o que a genética lhes deu, e o jeito que têm em bater com os pés numa bola redonda. Mas, quando há duas equipas assim - boas, com jogadores bons, treinadas por homens bons no que fazem e bem rodadas nisto -, elas distinguem-se uma da outra com o uso que fazem do espaço.

Se defendem mais à frente para jogarem com o fora de jogo e com o espaço que deixam nas costas, se juntam os jogadores atrás para não haver espaço entre eles, se pressionam à frente, para recuperarem a bola e haver menos espaço entre o sítio onde se é ladrão e o outro, em que se dispara ao alvo, que é a baliza.

Os primeiros minutos costumam ser de ressaltos, passes errados, chutos sem nexo e tudo o mais que a descarga de adrenalina costuma provocar. Estes serviram para Ederson não reagir tão rápido e fácil como devia, e deixar-se apanhar pela rapidez com que Bas Dost o foi pressionar quando Luisão atrasou uma bola ao guarda-redes - por não ter espaço para a passar na frente. Ederson foi lento e trapalhão e faltoso no pé com que derrubou Dost e deu o penálti que Adrien Silva bateu o espaço onde ele não estava. Cinco minutos e o Sporting ganhava 1-0.

E qualquer estratégia que uns ou outros tivessem, mudou. Porque os jogos pensam-se para os noventa minutos e mais uns quantos pózinhos que têm, e não para se estar atrás de um prejuízo tão matinal. Rui Vitória, penso eu, não tendo Jonas, pensou em Rafa e em Cervi e em Salvio, na frente, e em Grimaldo e em Nélson Semedo a virem de trás, para atacar com velocidade os momentos em que o Sporting estivesse com gente fora dos sítios em que deviam estar. São os momentos em que os jogos se decidem e que se chamam as transições, ofensivas para uns, defensivas para outros.

Só que, na primeira parte, o Benfica só conseguiu ser uma vez o que foi há meses, no dérbi da primeira volta - contra-atacou rápido, projetou homens rápidos nas alas, jogou com poucos toques e chegou à área do Sporting a sprintar e a aproveitar os espaços que a equipa de Jorge Jesus, descompensada por uma perda de bola, deixou livres. Foi aos 32 minutos.

Antes e depois, os leões juntaram-se, deixaram a linha da defesa perto da própria área, apertaram os espaços na sua metade do campo e, mesmo pressionando muito e com força cada adversário que tinha a bola, apenas o fizeram quando eles cruzassem a fronteira do meio campo. Assim, encurtava os espaços com que havia entre a defesa e a baliza - que é o que os treinadores chamam de profundidade, coisa onde Rafa, Salvio, Cervi e Grimaldo e Nélson Semedo prosperam.

Sem ela, os encarnados tiveram sempre mais a bola, Pizzi passou-a mais vezes (34) do que qualquer outro que estivesse em campo, mas os laterais não tinha espaço para correr nas costas dos extremos. Não havia espaço para a bola chegar a Mitroglou. Nunca criaram espaço para Cervi ou Salvio arrancarem e cruzarem na passada, mesmo a insistirem no lado mais pesado e molengão do Sporting. O esquerdo, de Jefferson e Bruno César, onde Jesus encostou Paulo Oliveira, um central mais rápido e concentrado que Rúben Semedo, que até ali tinha jogado sempre como o central à direita.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

A segunda parte parecia ser uma cassete rebobinada e tocada de novo. Os leões começaram acelerado, mais pressionantes, a darem tudo nos momentos em que recuperavam a bola e a desconfortarem os encarnados. Notava-se a prioridade em carregar com os dribles, a rapidez e o cair-em-cima de Gelson no lado de Grimaldo, que está fora de forma. Foi desse lado que Adrien picou a bola que Bas Dost cabeceou por cima da barra. E que Gelson cruzou outra, rasteira, num contra-ataque que o holandês fechou com o mais frouxo dos remates, ao lado da baliza.

O Benfica parou de sofrer e correr atrás e contar poucos segundos de respiração com a bola apenas quando Rui Vitória se conformou com a falta de espaço - e tentou inventá-lo.

Desistiu da ideia de ter Rafa a correr por todo o lado e a não ter espaço em lado algum para a equipa usar a velocidade que ele tem, e acreditou que ter Jiménez perto de Mitroglou ia fixar William por ali e afastá-lo de Adrien. A crença deu-lhe razão e depois de Pizzi ter espaço para encontrar Mitroglou, na área, e o ver a rematar às mãos de Rui Patrício, a bola parou.

E quando a bola pára, deixa de interessar o espaço e como o abrir e como o fechar. É um pé a batê-la e umas mãos a tentarem travá-la. E foi o pé direito de Lindelöf a rematá-la, à entrada da área, e as mãos do guarda-redes do Sporting e nem tempo terem para se aproximarem dela. O Benfica empatava aos 66 minutos com um livre, como Grimaldo quase o fizera pouco antes do intervalo. A equipa só era perigosa quando a bola deixava de rolar.

Mas pareceu-se importou pouco, ou quase nada, com isso. Feito o empate, e com Jiménez no campo, William ficou preso aos centrais, Adrien foi-se cansando no isolamento e isolando-se ainda mais, o Sporting partiu-se e Pizzi foi tendo cada vez mais tempo, e espaço, para ter a bola e a equipa tê-lo com a bola. E estando ele assim, o Benfica viveu, respirou, abrandou e, no fundo, controlou melhor as coisas. Porque Gelson é humano e também se cansa, Jefferson e Bruno César mais lentos ficaram a recuperar espaços sem a bola, e os leões só deixaram de abrandar, aos poucos, quando Jesus se lembrou de Podence e dos raides que podiam reanimar a equipa.

O jogo continuou a ser intenso, com muitos vaivéns e poucos momentos de pausa, mas com os passes errados e as faltas e tudo o que o cansaço causa de mau na concentração e na tomada de decisão. O espaço foi aumentando no centro do campo, à medida que o Benfica se encolhia e resguardava o resultado, e o Sporting, esgotado do próprio esforço, tentava reagir com William e Adrien separados por dezenas de metros - e a darem sinal de que já só dava por via longa e direta e não de forma curta e trabalhada.

Os encarnados acabaram a controlar o espaço e a encolherem-se nele, enquanto os leões o tentava reabrir e atacar com o cansaço. O Benfica sabia que este ponto o deixava com quatro que, na pior das hipóteses - que é o FC Porto ganhar no domingo (20h15), ao Feirense -, seria apenas um, que o mantém no primeiro lugar com quatro jogos em falta para o fim do campeonato. Viu a garantia da auto-dependência à vista e não mais arriscou perdê-la.

Sem a bola parar, as balizas deste dérbi tiveram muito pouco perigo perto delas. Quando a bola parou, houve golos. Como houve violência e morte e estupidez e o pior que o futebol tem na noite anterior.

Só um destes lados da história deveria acontecer quando a bola deixa de rolar. E, se leu até aqui, sabe do que eu estou a falar.