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É previsível que nada imprevisível aconteça

Vamos na terceira época seguida em que os dois primeiros do campeonato estão separados, no máximo, por três pontos, a quatro jornadas do fim. O que é bom. Mas, esta década, só por uma vez houve troca de líder durante o derradeiro mês de competição – e quem estava em 3.º lugar nunca conseguiu vencer os últimos quatro jogos

Diogo Pombo e Carlos Esteves

Este ano não há disso, mas, nas últimas quatro épocas, houve sempre um clássico dentro das derradeiras quatro jornadas - e sempre em casa do FC Porto

Foto Manuel de Almeida/EPA

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O homem, como ser racional, pensante e que puxou pelo que tem na cabeça para se empurrar pela evolução fora, foi inventando frases para alturas como esta. Crescemos a ouvir que a esperança é a última das coisas a saber o que é a morte. Que nos devemos agarrar a ela quando esgotámos todas as outras opções, porque o bom da esperança é estar dentro da nossa cabeça e ninguém lhe conseguir chegar.

Depois, em tudo quanto é desporto, ouvimos os americanos dizerem que só acaba quando a senhora gorda cantar. E ouvimo-nos, desde sempre, a manter a fé no que desejamos com a desculpa de apenas a matemática ter autoridade para nos dizer que é um desejo impossível de concretizar. Não há verdade mais forte que a dos números e é por causa desta crença que o futebol já foi o Manchester United a virar uma final da Liga dos Campeões nos últimos dois minutos ou o Barcelona a recuperar quatro golos de atraso numa eliminatória.
Mas a verdade nestes exemplos é que são jogos isolados, em que entram fogachos de técnica, tentativas de tentar tudo ao mesmo tempo ou golpes de sorte, e não momentos de forma, consistência ou confiança acumulada - coisas que interessam num campeonato que se joga em quase 10 meses e durante 34 jornadas. E ainda mais quando se entra no último desses meses e nas últimas quatro dessas jornadas.

Onde estamos agora.

É por essas coisas que, mesmo em segundo lugar e a três pontos do primeiro, o FC Porto ver-se-á tramado para apanhar o Benfica. Como o Sporting, que está em terceiro e a cinco pontos dos dragões e a oito dos encarnados. A esperança como última das mortes e as possibilidades da matemática dizem-nos que tudo pode acontecer a cada um dos três grandes (curiosamente, hoje cumprem-se exatamente 15 anos desde a última vez em que o Sporting se sagrou campeão nacional, com Mário Jardel e João Vieira Pinto no ataque), mas, como vos escrevi, a verdade dos números também nos ajuda a chegar a outras conclusões: sobre o que é, ou não, previsível de acontecer.

Eles dizem-nos que, esta década, só numa época os rivais trocaram de posições entre eles nas últimas quatro jornadas.

Foi em 2012/13, quando Kelvin ganhou direito a estar no museu, Jesus caiu de joelhos e o FC Porto de Vítor Pereira ultrapassou o Benfica que se pôs a jeito para ser ultrapassado (mas já lá vamos). De resto, nunca o derradeiro mês de campeonato mudou o que fosse desde 2010, e pouco provável é que mude agora, se tivermos em conta o calendário e as tais coisas que estão escritas em cima.

Primeiro, porque o Benfica - Estoril (casa), Rio Ave (fora), V. Guimarães (casa), Boavista (fora) - e o FC Porto - Chaves (fora), Marítimo (fora), Paços de Ferreira (casa), Moreirense (casa) - têm quatro jogos acessíveis, que deverão vencer. E porque o Sporting, que vem atrás, é o que parece ter a vida mais difícil - Braga (fora), Belenenses (casa), Feirense (fora), Chaves (casa). Em segundo, já não há mais dérbis ou clássicos por jogar, fazendo com que nenhum dos grandes possa ajudar ou dificultar a vida a outro nestas lutas pelo título e pelo acesso direto à Liga dos Campeões.

Durante quatro épocas seguidas, entre 2010 e 2014, houve um clássico no Estádio do Dragão durante o pôr do sol do campeonato. A vitória ficou sempre com o FC Porto: em 2010/11 e 2011/12 contra o Sporting, e em 2012/13 e 2013/14 frente ao Benfica. As derrotas mais pesadas acabaram com os leões, que se ligam a outro comportamento típico do campeonato nesta década - nas últimas quatro jornadas, o grande que vem mais atrás é quase sempre o que deixa mais bolas entrar na sua baliza.

Em sete épocas, isso só não aconteceu em 2010/11 e 2012/13. E a verdade dos números é que essa equipa foi, quase sempre, o Sporting, que teve um quarto e um sétimo lugar e apenas acabou duas vezes acima da terceira posição. O que o acaba por ligar a outra coisa que não é uma mentira, mas um facto: a equipa que estava mais atrás no campeonato nunca conseguiu ganhar as últimas quatro partidas. E isso coincide com as tais coisas como os momentos de forma, a consistência ou a confiança acumulada, que encolhem quando já não há o título por conquistar ou o lugar europeu para atingir.

A matemática dos números não me deixa escrever que, esta temporada, é isso que pode acontecer ao Sporting. Embora chegue, contudo, para prever que os leões não deverão sair do terceiro lugar - e para constatar que estamos na terceira época consecutiva em que, a quatro jornadas do fim, os dois da frente estão separados, no máximo, por três pontos.

MIGUEL A. LOPES

O Sporting podia ter baralhado as contas do campeonato no dérbi, mas o Benfica não deixou e o jogo terminou empatado (1-1) Foto Miguel A. Lopes/Lusa
Jogos que podem não chegar para qualquer um dos três grandes atingir os 88 pontos (e golos) com que o Benfica de Rui Vitória foi campeão, o ano passado, à frente dos 86 pontos do Sporting e dos 73 do FC Porto. Esta época, o Benfica vai com 72 pontos (62 golos), o FC Porto com 69 pontos (63 golos) e o Sporting com 64 pontos (59 golos).

A ideia não era maçar-vos com números. Era mais concluir o que esta maçada indica - que é provável que aconteça o que já aconteceu mais vezes esta década. Ou seja, que o primeiro e o segundo e o terceiro lugares se mantêm como estão.

Ou que é previsível que não vejamos nada imprevisível, a não ser que se acredite nas tais coisas que crescemos a ouvir.