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Era isto que não lhes podia acontecer, outra vez

Depois dos empates contra o Vitória de Setúbal e o Feirense e da série de cinco empates seguidos que já lá vai há muito, o FC Porto empatou (1-1) com o Marítimo quando não o podia fazer. E agora está a jeito de ficar a cinco pontos do Benfica a duas jornadas do fim

Diogo Pombo

HELDER SANTOS

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Pode-se comparar isto a brincar no escuro ou a disparar uma arma de olhos fechados e no meio da passadeira de Shibuya, que fica em Tóquio e, por sinal, é a mais congestionada do mundo. O “isto” são aquelas alturas em que há quem comente, narre ou opine com tamanha certeza que parece estar em sintonia telepática com os treinadores ou os jogadores sobre os quais fala. O “isto”, basicamente, são todas essas frases que querem ser afirmativas à força e que, normalmente, começam com - “O que o treinador x quer que y faça é [inserir comentário sobre futebol]”.

Ora, por não gostar nada deste “isto”, não o vou dizer assim. Vou antes tentar adivinhar o que Nuno Espírito Santo terá pensado quando escolheu os jogadores e a equipa para jogar contra o Marítimo.

Os madeirenses são uma equipa intensa com e sem bola, que a tenta usar rápido e pelas laterais, quando a recupera, mas que leva o seu tempo quando a tem de colocar com calma, e em organização, na frente - onde projeta os laterais e deixa muitos avançados e muitos médios, talvez para se precaver contra as alturas em que perde a bola, confiando que a vai perder nessas zonas, por confiar muito na gente que fica atrás a arranjar maneira de ligar passes lá para a frente.

Ora, Nuno sabe isto, e muito mais, muito melhor que nós, por ter observadores e relatórios e detalhes feitos aos montes para conhecer de gingeira contra quem vai jogar. E devia saber que, sem a bola, o Marítimo encolhe-se e recua e junta toda a gente à volta da área, para proteger os espaços. E talvez por isso tenham jogado o André André, o Herrera e o Otávio, médios que gostam tanto de ter a bola como de correrem, desmarcarem-se e rasgarem linhas com diagonais. Com eles havia Brahimi, que não o faz, mas compensa com os rodopios e fintas quando tem a bola, e Soares, que fixa homens e arranja espaço para que eles possam fazer essas tais coisas.

E como a melhor forma de desmontar equipas que defendem atrás, compactas, organizadas e a deixarem poucos metros nas costas, é com gente a mexer-se sem bola e a atrair atenções, este “isto” resultou. Também porque NES, sem Maxi, abdicou de Layún, um lateral que ataca, mas que pára, olha e cruza quando recebe a bola, e não corre, não fura e nem entra na área, como Fernando Fonseca, o miúdo da equipa B que dá muita corda às pernas quando chega ao ataque.

Foi ele que tabelou duas vezes com Herrera e quase marcou. E foi Herrera que se mexeu e atacou o espaço para, na área, cruzar a bola que Zainadine conseguiu cortar, mas não aliviar - a bola que sobrou para Otávio rematar e fazer golo (28’).

Com ou sem o golo sofrido, o Marítimo expôs-se por ser uma equipa que arrisca e prefere pôr-se a jeito de ser feliz do que colocar-se à espera que algo de bom lhe aconteça. A sair com a bola, punha-se com uma espécie de três centrais - o turco Erdem Sem no meio de Raúl Silva e Zainadine -, empurrava os laterais, tentava alargar o campo jogável e esticar os espaços entre os jogadores do FC Porto. E, sobretudo, convidava os dragões a pressionarem, como um mandrião que nos vende a banha da cobra.

Era um engodo.

E este engodo, mesmo que lhes corresse mal muitas vezes e desse muitos contra-ataques alarmantes que Brahimi, Soares e Otávio, por lentidão, toques a mais na bola ou más decisões, não aproveitavam, até era eficaz. Porque os dragões caíam e pressionavam e chegavam-se à frente e davam hipótese aos tais três de trás, que passam bem a bola, tentarem passá-la a quem estava mais à frente.

Quantas mais vezes o conseguiram, mais o ritmo do jogo acelerava e desacelerava constantemente. Ficava fora de controlo, mergulhado numa terra de ninguém que o Marítimo gosta e onde o FC Porto não sabe estar. Os madeirenses chegaram mais vezes à área na segunda parte e, numa delas, ganharam o canto em que Djoussé, pela segunda vez esta temporada, marcou um golo aos portistas (69’). E aqui começa a parte em que não percebo Nuno Espírito Santo.

Porque hoje se voltou a ver o que foi notório contra o Feirense, o Vitória de Setúbal e frente a todas as equipas da série de cinco empates seguidos - os jogadores, e a equipa, não parecem saber o que fazer quando as coisas se complicam e jogam sempre pior quando mais precisam de jogar melhor.

E nem os cabeceamentos de André Silva ou de Soares o desmentem, por terem nascido no meio do caos e da confusão em que se tornavam as tentativas de o FC Porto evitar o empate (o décimo num campeonato é que é preciso baixar até ao 9.º lugar, do Boavista, para encontrar uma equipa com mais) que o deixa a jeito de ficar a cinco pontos do Benfica e com dois jogos por fazer - caso os encarnados vençam, no domingo (20h15), em Vila do Conde.

É um "isto" para o qual até posso tentar adivinhar o porquê, mas não o vou fazer, porque não o sei explicar. Mas sei que isto não lhes podia acontecer a esta altura do campeonato.

Outra vez.