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Ali esteve Jiménez, aí está Jiménez

Há um ano, o avançado mexicano marcou o único golo do Benfica em casa do Rio Ave. Agora, com 12 dias, uma jornada e dois minutos de diferença, fez o mesmo, os encarnados ganharam e podem ser tetracampeões já no próximo sábado

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Um jogo acabou de acabar.

A partir desse momento, vamos fazer de conta, um treinador tem oito dias para preparar o próximo. É capaz de passar as 24 horas seguintes a dormir pouco e a ver e rever muito do que a equipa fez nessa partida. O posicionamento sem a bola, os comportamentos nas transições, onde e como os jogadores reagiram à perda, as bolas paradas, as transições para trás e para a frente. Play, pára, rebobina, pause. Quando tira as conclusões já tem as análises e os relatórios para esmiuçar sobre o próximo adversário.

É com tudo na cabeça e com conversas com os adjuntos e com quem trabalha com ele que, depois, pensa nos treinos. Os exercícios, como os montar e como os explicar aos jogadores para que todos percebem o que é suposto retirar, aprender e encaixar com eles. Repetição, repetição, erro, erro, explicar e entranhar as lições. Depois, quando a semana já acaba, há os livres e as faltas e os cantos para nós e para eles que se têm de ensaiar e tentar prever. Antes do jogo há palestra, no balneário há conversa curta, e no campo é ver e corrigir o que se puder.

Este é um resumo, mais que resumido, do exemplo do que pode ser a semana que um treinador tem para pensar e lidar com a equipa. E com o acumular de semanas e de trabalho e de todos a remarem para o mesmo lado, a que eles costumam chamar de processo, que uma equipa ganha uma forma de jogar e se habitua a jogar junta, de uma maneira.

E a ideia que dá o Rio Ave-Benfica é que estão ali duas equipas bem treinadas durante a semana, mais do que habituadas a jogar de uma forma e a ter os mesmos jogadores juntos, a colidirem. E as peças de cada uma estão tão bem encaixadas que as equipas não demoram a perceber como se podem encaixar uma na outra - e minimizar os estragos das coisas que não conseguem evitar que a outra faça.

Os vilacondenses têm o chutão para a frente como nós temos os bombeiros e só lhe ligam em caso de emergência. Mantêm a bola na relva, desde trás, e têm tudo tão mecanizado ao ponto de cada um dos centrais ter um passe pré-definido para dar e a equipa preferir optar por Roderick a dar bolas rasteiras a Krovinovik, o médio que é miúdo e crota e pouco falado, mas que pede a bola e segura-a como a ginga de um sul-americano. E dele até Gil Dias ou Heldon vai um instante, porque o Rio Ave de Luís Castro é uma equipa de jogadores juntos, de poucos toques na bola, de passes rápidos e de toda a gente saber para onde se tem que mexer.

Os encarnados, muitos há quase dois anos juntos, controlam o espaço nas costas da defesa - conhecido como profundidade - como ninguém, e fazem à prova dos nove à rapidez de gestos e pensamentos do adversário que ainda não perdeu em casa com este treinador. E recorrem automaticamente às corridas e projeções de Grimaldo e Nélson Semedo quando o Rio Ave lhes tapa o acesso a Pizzi e congestiona o atalho para Jonas.

Tudo isto somado e encaixado dá a mesma dose de bola a cada equipa, poucas faltas e paragens ao jogo, dá um ritmo intenso e exige mais de quem joga. E puxa pelos pormenores que Rui Vitória, antes do jogo, realçou por, talvez, prever que equipas tão igualadas obrigassem a que as coisas dependessem dos jogadores - e na qualidade que os do Benfica, num dia em que todos dormissem, comessem, pensassem, vestissem ou até fizessem o mesmo, teriam sempre a mais que os do Rio Ave.

Por isso o intervalo chegou com uma bola rematada na baliza pelos vilacondenses contra as oito dos encarnados, mesmo que entre Rafa, Pizzi, Cervi, Jiménez, Jonas e Nélson Semedo, apenas os dois últimos o tenham feito dentro da área. Como o fez o avançado mexicano, logo no arranque da segunda parte, no meio dos 15 minutos em que o Benfica acelerou, pressionou e reivindicou mais das segundas bolas para tentar o procedimento do costume - entrar forte, resolver cedo o imbróglio dos golos e, a partir daí, gerir.

MIGUEL RIOPA

A partida manteve-se com a bola a chegar para todos, renhida, dividida, igualada e demais adjetivos em que nenhuma das partes é maior que a outra. A partir da hora de jogo, contudo, o Rio Ave começou a recuar uns metros na linha de pressão e a preferir defender mais atrás. Houve mais metros e segundos para o Benfica abusar dos laterais e tornar evidente como as coisas lhe correm melhor quando as pode fazer em velocidade e por instinto, em vez com calma e a matutá-las.

Mesmo agarrando com mais força, aos poucos, o volante do jogo, os encarnados só cruzavam e cruzavam a bola para a área, enquanto os vilacondenses ameaçavam Ederson com remates de Heldon e Tarantini, no fim de ataques rápidos.

O jogo parecia embrenhado nele próprio até ter algo que aconteceu mesmo muito poucas vezes - uma transição. Ofensiva para um lado, defensiva para outro, e ficar do lado sem a bola é das coisas que um treinador mais teme, por ser das mais difíceis de replicar nos treinos.

O Rio Ave bateu um canto, não comeu a segunda bola, o Benfica conseguiu ligar o primeiro passe e encontrar Jonas, que lançou Salvio para o argentino, na área, encontrar Jiménez. O mexicano derrubava os da casa com um golo aos 75’, um ano depois de ali marcar aos 73’. Na altura, a equipa ganhou 1-0 e, hoje, voltou a fazê-lo.

Porque Rui Vitória percebeu que a loja era para fechar o mais cedo possível, reformou Jonas no banco e mandou Samaris guardar a caixa com Fejsa e o resto da equipa junta e recuada. E a gestão e a retranca correu bem, também, porque uma bola rematada por Gonçalo Paciência foi ao poste a menos de uma semana do Papa chegar a Fátima, terra onde está um clube já treinado por quem treina o Benfica.

E há muitas coisas nesta vida que estão ligadas e que nunca conseguimos explicar.

Como as coincidências, que por muito que os treinadores treinem, e treinem bem, são muitas - em anos diferentes, mas em quase no mesmo dia (24 de abril e 7 de maio), na mesma jornada (na 31ª, em 2016, na 32ª, agora) e no mesmo minuto (75’ e 73’), Raúl Jiménez marcou o golo que deu a vitória ao Benfica em Vila do Conde e, provavelmente, o título. Que, a acontecer, será, pela primeira vez, o quarto seguido.

P.S. E se o tetracampeonato aparecer já no próximo sábado, calhará no fim de semana em que o Papa visita Fátima e em que se realiza o Festival da Eurovisão que, nos últimos anos, mais tem entusiasmado quem dele gosta.