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Futebol nacional

Obrigado e espero que tenham gostado, porque a manhã não caiu bem a todos

Como a liga parece querer piscar o olho a novos mercados (leia-se, a China), esta poderia ter sido a apresentação do primeiro jogo matinal deste campeonato e da história do Sporting - que acabou com a derrota (1-3) dos leões e a primeira vitória do Belenenses em Alvalade, desde 1955

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Estamos numa sala onde há uma mesa, várias cadeiras, um ecrã gigante e um projetor. A sala está cheia de pessoas com os olhos em bico, ornamentadas com fato e gravata, que se sentam nas cadeiras. Elas estão atentas ao ecrã em que está a ser projetado um jogo de futebol. Essas pessoas são chinesas, da terra onde o relógio vai sete horas à frente, onde há centenas de milhões a viver, onde há tantas mesas de ténis de mesa em parques, jardins e escolas como pessoas, e onde há muito, muito dinheiro.

E na sala há outra pessoa. Está de pé, ainda mais bem vestida, ao lado do ecrã que projeta o jogo de um país que, à escala da gente que o está ali a ver, é do tamanho do quintal de algum milionário mais abastado. Agora imaginemos que esse tipo tem de vender um jogo de futebol que foi agendado, de propósito para de manhã, com a ideia de seduzir quem está de fato e gravata e tem tanto dinheiro que não sabe em que mais o há-de investir.

Acho que a hora e meia e mais uns minutos em que ele estaria a a descrever-lhes e a vender-lhes o que se passa seria, mais ou menos, assim:

Boa tarde, senhores. Ou bom dia, se estivéssemos ali, no estádio que, como podem ver, está bonito, cheio de gente, com o sol a brilhar e afagado pelo calor. Saibam que é costume estar neste estado, com pais e filhos e mães a sorrir e toda a gente a cantar aquilo que puderam ouvir, antes de o jogo começar. É um cântico do Sporting e dos que estão de verde e branco e que jogam em casa. Eles já foram campeões nacionais muitas vezes, mas já não o são há 15 anos e estão em terceiro no campeonato.

É melhor não lhes dizer que é dia da mãe e que isso, provavelmente, incentivou as famílias e as mulheres a irem à bola. É uma mentira doce.

Os de azul são o Belenenses, que joga na mesma cidade, o estádio deles está a uns dez quilómetros dali e também já foram campeões, mas talvez ninguém aqui na sala fosse nascido. Por isso, estão a assistir a um dérbi, um jogo entre rivais. Mas não estranhem isto de verem os de azul mais juntos e compactos e encostados à baliza que defendem, porque eles, em teoria, têm piores jogadores, são pior equipa, jogam a outro ritmo e a outras coisas que o Sporting.

Não estranhem o que estão a ver, estes passes para o lado e para trás, a lentidão com que a bola é trocada, a falta de jogadores a sprintarem com e sem a bola. As equipas estão-se a estudar e faz parte da estratégia, porque o futebol é difícil e requer planeamentos e táticas e jogadas que, com o tempo, vocês se vão habituar a reconhecer e perceber. Porque não é costume ver o Sporting não conseguir fazer algo a que chamamos de jogo interior. Imaginem vários jogadores, pelo centro do campo, a trocarem passes rápidos, rasteiros e com poucos toques, e a mexerem-se muito.

Não sei se me safo com esta, mas não consigo embelezar mais o quão enfadonho é ver um Sporting sem Gelson ou Podence que joga à velocidade de Bryan Ruiz e Bruno César. E que se farta de cruzar bolas confusas e só remata uma vez, pelo Adrien, enquanto o Belenenses usa Abel Camará, Juanto e Edgar Ié e vai montando uns contra-ataques rápidos que não dão em nada.

Aproveitem o intervalo para ir beber água, comer algo ou conversarem. Seria muito melhor caso estivessem ali no estádio, acreditem.

E acabou de acontecer algo que está ligado ao que vos ia explicar, que é o lado imprevisível e inesperado que o futebol tem. Como viram, num jogo que vos parecia estar enfadonho e entediante, o Bryan Ruiz cruzou esta bola da esquerda, ela acabou por bater na barra, o guarda-redes do Belenenses foi apanhado na curva de tudo isto e não reagiu tão rápido como o Bruno César, que fez o golo.

Sorte a minha, que já não sabia o que lhes dizer para dourar este jogo.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Reparem, as coisas até ficaram mais aceleradas. Há jogadores a correrem mais rápidos, a passe está a ser passada com mais força, eles já tentam jogadas ao primeiro toque. Estão a arriscar mais. Um golo é a melhor coisa que pode suceder a um jogo, mas acho que vocês já sabiam isso. E olhem, quando há uma mão dentro dos retângulos que envolvem a baliza, é penálti, e o Matheus, que se preocupou mais em pintar a barba de branco do que aproveitar a ausência de Gelson, acabou de parar um cruzamento com o braço. E este Abel Camará quis marcar e marcou e vejam como ele festeja como um louco. O futebol faz isto às pessoas.

É melhor não lhes dizer, porque acho que eles não perceberam, mas o Camará fez questão de marcar o penálti quando não era suposto e pôs o Domingos Paciência a assobiar para o campo. E berrou, saltou, gritou, quase tirou a camisola a reagiu como um possesso porque, a meio da semana, ele e a mulher foram ameaçados e os adeptos têm-lhe caído em cima e até ele até falou do sucedido numa conferência de imprensa organizada pelo sindicato de jogadores.

O normal, agora, seria verem o Sporting, que em Portugal se conhece como equipa grande - e fiquem a saber que há outras duas -, a atacar e a rematar e a chegar-se muito à baliza do Belenenses. Até o vimos. Saibam, contudo, que este Luc Castaignos raramente joga e talvez por isso tenha feito cara de espanto e rematado a bola bem por cima após chegar a um passe de Coates por Hugo Ventura ter ficado a meio caminho e em terra de ninguém.

Mas este falhanço, chamando as coisas pelos nomes, deitou-os abaixo. Desorganizou-os e fê-los tentar de demasiadas formas e com pouco tino. Desconcentraram-se tanto que, num livre, a bola foi cruzada para a área até cair perto do segundo poste e Dinis Almeida, um central, rematá-la à avançado. E mais ainda quando, passados três minutos, vimos isto de ver defesas a não reagirem e parecerem ignorar o que se estava a passar, que foi a bola chegar a Maurides, na pequena área, e ele a passar, rasteira, para Gonçalo Silva marca o terceiro golo.

Os de azul não ganhavam em casa dos de verde desde 1955, o que dá 62 anos. O Sporting não perdia há 11 jogos e volto-vos a dizer que o futebol é um espetáculo por causa disto - de ser imprevisível e de as surpresas acontecerem e de, muitas vezes, os que achamos melhores acabarem por ser os piores. Espero que tenham gostado e fiquem a saber que, em Portugal, estas surpresas acontecem e as pessoas adoram-nas.

Mesmo que não seja nada costume aparecerem pela manhã. Mas como gostamos de vocês e queremos que gostem de nós, por isso, espero que tenham gostado.

Espero mesmo, porque só mesmo uma reviravolta do Belenenses no meio da implosão do Sporting foi capaz de salvar este jogo. É melhor não lhes dizer que a época do Sporting, agora, é que já não deve ter salvação.