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#Espinho. Os 'miúdos' da claque

Nelson Marques

A bandeira é maior do que ele, mas nem isso trava a determinação deste jovem adepto do SC Espinho

Foto Filipe Couto/EspinhoTV

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Quando era miúdo, o Sporting Clube de Espinho ainda estava entre os grandes do futebol português. Ao domingo, se não tinha de trabalhar no café, o meu pai pegava na família e íamos até ao velhinho Estádio Comendador Manuel de Oliveira Violas cumprindo o ritual de sempre: caminhávamos em romaria pela marginal, ouvíamos os pregões das varinas, comprávamos tremoços e gelados. Depois as gargantas ficavam roucas de tanto gritar. O Espinho nem sempre ganhava, mas isso nem importava muito. As gentes do mar estavam habituadas a sofrer.

Foram onze épocas na Primeira Divisão. O clube realizou o último jogo no principal escalão em 1997, quando fui estudar Jornalismo para Coimbra. Depois disso, foi sempre a descer: da II Liga para a 2.ª B, mais tarde para a 3.ª e, por fim, a queda no abismo dos Distritais. Ao mesmo tempo que a cidade ia definhando (chegou a ser o concelho com a maior taxa de desemprego do país há poucos anos), o SC de Espinho batia no fundo, com um estádio em ruínas, dívidas de 14 milhões de euros e incapaz de cumprir com os salários e os pagamentos aos fornecedores.

Quando há três anos um grupo de jovens, muitos saídos da claque, os "Desnorteados", venceram as eleições para a direção do clube, prometendo recolocá-lo no lugar que merece, houve quem não os levasse a sério. O novo presidente, o Bernardo Gomes de Almeida, filho de Lito Gomes de Almeida, que levou o Espinho à Primeira Divisão, era mais conhecido na cidade por causa das enormes rastas, quase a tocar o chão.

Em vez das rastas, o Bernardo tem agora um bigode muito presidenciável. Mas, mais importante do que isso, conseguiu devolver a credibilidade ao clube, que paga agora a horas e negociou com a câmara local a construção de um muito desejado (e há muito adiado) novo estádio.

Esta semana, o SC Espinho voltou a ser notícia por causa de um golo no último segundo que carimbou a subida ao Campeonato de Portugal, o terceiro escalão do futebol nacional. E o que surpreendeu o país não foi a subida, mas a multidão que, jornada após jornada, acompanhou a equipa, tanto nos jogos em casa como fora. A cidade voltou a aproximar-se do clube, que está nos Distritais mas mete mais gente no estádio do que muitos clubes da Primeira Liga. Raça vareira é isto. Ponham os olhos na foto que abre este artigo, tirada pelo Filipe Couto, meu antigo colega de escola. Está lá tudo.