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Este é o onze do ano

O campeonato ainda não acabou e ainda falta uma jornada, é verdade. Mas, com o Benfica já tetra, nada deverá acontecer para nos mudar a opinião. Este é o onze deste campeonato para a Tribuna Expresso e nele cabem cinco jogadores do FC Porto, quatro do Benfica e dois do Sporting

MIGUEL RIOPA

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Iker Casillas

35 anos, FC Porto

Recuemos um ano e pensemos, todos juntos, em quem era o espanhol - um guarda-redes consagrado, cheio de títulos, estatuto intocável, mas que acabava a época a duvidarem dele e do que a sua idade ainda o deixava fazer, porque cometeu erros, assou alguns frangos e teve lapsos de concentração e sofreu 28 golos no campeonato. Esta temporada, com mais um ano na idade, nas rugas e nos cabelos brancos, praticamente não se falou dele por maus motivos.

A grande diferença de um ano para o outro é que Casillas fez mais vezes o que fizera, o ano passado, no jogo na Luz, contra o Benfica. Foi decisivo nos jogos grandes que, supostamente, decidem muita coisa, foi homem de grandes paradas em clássicos contra Sporting e Benfica, e voltou a ser o guarda-redes de quem ninguém questionava o facto de se transformar num muro entre os postes. Não tem o pontapé ou a rapidez a sair da baliza de Ederson, mas sofreu apenas 15 golos e, aos 35 anos, foi o senhor consistência deste campeonato.

MIGUEL RIOPA

Nélson Semedo

23 anos, Benfica

Existe uma página de Facebook, que é benfiquista e é das que gozam muito mais do que falam a sério, que se dirige ao português como Nélson “Sem Medo”. Fora de brincadeiras, a alcunha até se podia aplicar ao lateral do Benfica, que apenas cumpriu a segunda época na equipa principal. Ou época e meia, se formos rigorosos e nos lembrarmos que, o ano passado, esteve lesionado durante vários meses. Mesmo assim, esta temporada apareceu mais veloz, com ainda mais tração à frente, com mais cruzamentos e remates no pé e com maior pulmão para apoiar a equipa no ataque.

E, sobretudo, melhorou atrás, onde revelou menos distrações e maior concentração para estar no sítio certo e aguentar a posição na linha defensiva - coisas em que ainda era demasiado verde e novato. Foi, de longe, o melhor lateral direito do campeonato, mais ainda devido às montanhas russas que foram as épocas de Maxi Pereira ou Schelotto.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Felipe

27 anos, FC Porto

Duro, com cara de mau e fiel seguidor da filosofia que ordena a vida de muitos defesas - ou passa a bola ou o jogador, nunca ambas. O primeiro contacto com este central brasileiro de farta barba e músculos grandes dava a entender que talvez fosse demasiado agressivo e resolvedor de coisas à força para se aguentar, com estabilidade, na defesa de uma equipa grande. Mas, com o tempo, o brasileiro mostrou as primeiras impressões são traiçoeiras e mostrou como dentro daquela armadura de mauzão e pronto para a guerra, há um central bom na antecipação, fortíssimo no jogo aéreo e rápido a recuperar dos erros de abordagem que, por vezes, comete.

Entre as equipas grandes, Felipe foi o central que mais remates bloqueou (18) e que mais desarmes (63) completou.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Luisão

36 anos, Benfica

Começou a época sentado, a duvidarem dele, a falarem da idade e da areia para a qual já não tinha camião. O capitão do Benfica provou, com os jogos, que muito se falou antes de tempo e que, mesmo com 36 anos, foi o central mais seguro e menos virado para invenções da equipa campeã nacional. É verdade que a lentidão, o peso e a velocidade de reação já não lhe são coisas favoráveis e o tempo encarregar-se-á de o acentuar, mas foi o líder que o Benfica sempre teve e que precisou - sobretudo numa época em que Lindelöf errou bastante mais do que o esperado.

Alex Telles

24 anos, FC Porto

Um lateral brasileiro que apanha o avião para a Europa tem sempre uns quantos estereótipos à espera no aeroporto - que ataca mais do que defende, é descuidado sem a bola e tem de ser ensinado porque não ligará muito a posicionamento coletivo. A Alex Telles foi dado o desconto de vir de Itália, que ainda é estereotipada como país onde melhor se aprender a defender, e com alguma razão.

Mesmo que Alex Telles ainda ferva em pouca água e cometa muitas faltas nas alturas erradas e sítios errados do campo, é um lateral que ofereceu muito ao FC Porto no ataque, com corridas, cruzamentos, livres e cantos com chegada à área adversária. E com os oito passes para golo, que o fazem o melhor assistente do campeonato. A agressividade e o querer ir a todos ainda jogam muito contra ele, embora o tenham abonado o suficiente para ser o melhor lateral da liga (também porque a longa lesão de Grimaldo abonou a seu favor).

FRANCISCO LEONG

Danilo Pereira

25 anos, FC Porto

Para escrever o que seja sobre o Danilo, é preciso compará-lo a Fejsa e a William Carvalho. Eles são os três melhores trincos a jogar por cá e se achamos que um foi melhor que os outros dois, ou é porque os números e as exibições o justificam. Ou porque não há justificações para ele ficar atrás dos restantes. E acaba por ser mais por causa da segunda hipótese. O sérvio do Benfica é, talvez, o jogador mais importante para a equipa quando ela não tem a bola, mas os encarnados não costumam defender com um bloco muito subido no campo. O português do Sporting teve talvez a época em que mais pachorrento e descuidado foi.

E campeão europeu do FC Porto melhorou no que costumava ser bom - a puxar a linha da defesa consigo e a pressionar alto, com o resto da equipa; a recuperar a posição a sprintar e a dobrar e compensar os laterais; a fazer as faltas a que os relatos chamam de cirúrgicas; e a impor-se nos jogos pelo físico e o corpo que lhe ganham duelos atrás de duelos. Depois, com a bola, teve a importância que os outros dois não tiveram (do que o sérvio, por a equipa não o exigir, e do que o português por ele ter sido bem mais errático do que anos anteriores), mesmo que vá acabar o campeonato com menor percentagem de passes certeiros e número de passes feitos por jogo.

MIGUEL RIOPA

Pizzi

27 anos, Benfica

Diz muito de um médio centro o facto de ter mais de 50 jogos numa época e, até ao momento, ter falhado apenas um, por castigo. Ainda mais se esse médio ter começado a época num resvés entre viver à direita ou sobreviver atrás do avançado, e só ter chegado ao centro do campo por causa de uma lesão (André Horta) e lá ter ficado por o treinador perceber que a equipa funciona melhor com ele ali.

Pizzi corre muito, não pára, é raro pedir uma bola parado e parece viver a mil com a preocupação de nele depender as viagens que a bola faz no Benfica. Talvez por isto ser a verdade das verdades, como se viu, principalmente, nas alturas em que não houve Jonas e, portanto, mais ninguém com discernimento e pés no meio do relvado. Pizzi é o jogador que mais passes fez, em média, por jogo (75.2) e o médio com mais assistências (sete). E tudo foi fazendo, durante muito tempo, enquanto evitou um quinto cartão amarelo. Pensem nele como o que move um carro da Honda - é pouco ruidoso, discreto e mal faz barulho, mas é ele o motor do Benfica.

FRANCISCO LEONG

Gelson Martins

22 anos, Sporting

Explodiu, de vez. Numa equipa do Sporting cada vez mais lenta à medida que a época avançou, toda a gente foi à boleia das acelerações, dos esticões e dos desequilíbrios ofensivos que Gelson inventou à direita. Completou 72 dribles até à penúltima jornada e o facto de ter sido o terceiro jogador que mais os tentou e falhou não é, necessariamente, mau - é sinal de que o extremo saiu mesmo da casca e arriscou e tentou ser decisivo num jogo que prospera quando conseguimos provocar desequilíbrios no adversário.

E, se tanto os tentou, pode ser um sinal de que o Sporting, como equipa, pouco conseguiu desequilibrar em relação à época passado. Daí o crescimento de Gelson Martins. Mesmo sendo um miúdo e de, muitas vezes, ainda ter pressa a decidir e pensar que decisão tomar, foi mais importante para a equipa do que Salvio ou Corona foram para as dele. O que diz tanto do português como das soluções que o Sporting não tinha e o Benfica e o FC Porto tiveram.

MIGUEL RIOPA

Brahimi

27 anos, FC Porto

É verdade que já íamos em dezembro quando ele começou a ser titular e a jogar. Não é mentira que estamos a falar do argelino que, se pudesse, seria o primeiro signatário de uma petição para mudar as regras e permitir que houvesse duas bolas em campo, para ficar com uma só para ele. Mas também é verdade que nos estamos a referir a Brahimi, talvez o tipo que mais talento e técnica e ginga naturais tem dentro do corpo.

É um facto que demorou muito tempo a convencer Nuno e a convencer-se a ele próprio de que valeria a pena driblar um pouco menos, passar mais a bola, recuar mais vezes a defender e não ignorar que existem outros tipos a jogarem na mesma equipa. Mas, quando o fez, voltou a ser o Brahimi que só é possível parar em falta e o homem com maior capacidade em Portugal para resolver problemas sozinhos. Ainda está para chegar o extremo que tenha mais finta, criatividade, simulações, agilidade, versatilidade a sair do alcance de um defesa e demais coisas que gostamos de ver num jogador de linha.

MIGUEL RIOPA

Jonas

33 anos, Benfica

Chegamos à parte em tudo o que escrevemos parece ser redundante. Ele até podia ter jogado um terço dos jogos que jogou, que já foram poucos devido à lesão que lhe arruinou a primeira metade da época. Mas o Jonas dos 33 anos e dos cabelos já muito brancos, quando voltou, era o mesmo Jonas: o avançado que faz de médio quando lhe apetece e vê passes para o espaço que não vislumbrávamos, ou protege a bola de uma forma que faz os adversários parecem crianças com dificuldades motoras. E continuou a ser uma espécie de versão boa de kryptonite - porque, quando ele joga, quem o rodeia joga melhor.

Mesmo que já não sprinte muito e não seja quem marque mais golos (mas é o que mais remates faz por jogo, 3.3 em média), o brasileiro continua a ser o melhor avançado do campeonato. Palavras para quê, já chega de sermos redundantes.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Bas Dost

27 anos, Sporting

É grande, parece tosco e tem ar desengonçado. Este pode ter sido o pensamento de muita gente quando o holandês chegou e fez os primeiros jogos. Depois, ele lá começou a marcar golos e a montar casa na grande área - só fez dois remates de fora da área, até à penúltima jornada -, mostrando que se sentia bem no seu habitat natural e não correr e fazer diagonais por todo o lado, como Slimani fazia na equipa em que o foi substituir. Quando o Sporting se habitou a ele, e não o contrário, Bas Dost deu-nos mais de trinta razões para o considerarmos como um grande. Mas em golos.

O avançado marcou 31, começou a estar na luta com Lionel Messi para uma Bota de Ouro que só dois em Portugal calçaram (Fernando Gomes e Mário Jardel) e foi o bom pinheiro que foi salvando o Sporting. É um tipo de avançado que nos mostra como o futebol é muitas vezes simples e quem o consegue jogar de forma simples (e for entendido), prospera. A simplicidade de Bas Dost é a mistura que faz entre uma calma imperturbável à frente da baliza e do discernimento de tudo tentar resolver ao primeiro, ou segundo toque. E, já agora, do abraço que dá a quem lhe passou a bola, que é sempre a primeira coisa que faz após marcar um golo.

JOSE MANUEL RIBEIRO