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O desalinhamento do cosmos, a Lei de Murphy, Lito Vidigal e o vapor do fumo (ou a queda do Arouca explicada)

A época do Arouca até começou mais cedo e tudo por uma boa razão: pela primeira vez na história, o clube do distrito de Aveiro ia participar nas competições europeias. Da euforia até a uma surpreendente descida de divisão foi um passo que teve na saída de Lito Vidigal para Israel o ponto de inflexão

Lídia Paralta Gomes

TIAGO PETINGA/LUSA

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A Lei de Murphy, aquela que nos diz que quando algo pode correr mal, vai correr mal e no pior momento possível, quando ataca, ataca a sério. Se não acreditam, perguntem ao Arouca.

À entrada da última jornada, a equipa do distrito de Aveiro era uma das três equipas que podia descer, mas para tal acontecer, era necessário um tal alinhamento (ou desalinhamento, conforme o lado da barricada) de astros que tornava a despromoção quase numa impossibilidade cósmica.

Assim, para descer, o Arouca tinha de perder com o Estoril e esperar que o Tondela não ganhasse ao Sp. Braga e, mesmo ganhando, que não anulasse a desvantagem na diferença de golos que tinha para os arouquenses.

Parece complicado, não parece? Pois bem, aconteceu tudo. O Arouca perdeu por 4-2 na Amoreira, o Tondela venceu por 2-0 e a temporada de acidentada da equipa da Serra da Freita acabou mesmo em desastre, com o regresso à 2.ª Liga quatro anos depois. Quatro anos, os mesmos que o Arouca demorou a escalar da II Divisão (atual Campeonato de Portugal) até à 1.ª Liga. Com a estreia no principal escalão, em 2013/14, vieram também os elogios: o Arouca era um projeto sustentado, de uma terra pequena mas que gostava de futebol, um clube sério que não entrava em loucuras, liderado por um empresário da região, Carlos Pinho, o grande obreiro da transformação do Arouca.

Nas duas primeiras temporadas na 1.ª Liga, com Pedro Emanuel, o Arouca conseguiu a permanência e o projeto parecia encaminhar-se para a consolidação entre os grandes. Em 2015/16, com Lito Vidigal, fez bem melhor: terminou em 5.º e chegou a uma inédita qualificação europeia, um feito impressionante tendo em conta que 10 anos antes o clube andava pelos distritais de Aveiro.

E foi na Europa que começou esta temporada. Os trabalhos arrancaram a 20 de junho, tendo em vista a preparação do playoff da Liga Europa frente ao Olympiacos: contra os crónicos campeões gregos, os arouquenses só caíram no prolongamento. Mas se fora de portas a equipa deixava boa impressão, no campeonato nacional o Arouca arrancou mal, muito mal: nas primeiras cinco jornadas sofreu quatro derrotas e chegou a visitar o último lugar da tabela à ronda 8.

Crivellaro não evitou as lágrimas, consumada a descida de divisão do Arouca

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TIAGO PETINGA/LUSA

Pelo meio, em novembro, o clube surgiu ligado a uma investigação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que terá notificado cinco jogadores do emblema para abandonarem o país, facto que Carlos Pinto negou. Antes já se tinha dado o famoso encontro imediato do presidente do Arouca com Bruno de Carvalho no balneário de Alvalade, que terminou com Carlos Pinto a acusar o líder leonino de o ter insultado e cuspido.

Sai Lito, começa a queda livre

Depois do início comprometedor, o Arouca emplacou seis vitórias em 10 jogos e à 20.ª jornada a equipa era 10.ª classificada, com a linha de água já a 14 pontos de distância. Mas deu-se então o ponto de inflexão da temporada: após a derrota na 21.ª jornada com o Benfica por 3-0, Lito saiu para o Maccabi Tel Aviv e para o lugar do angolano chegou Manuel Machado.

O experiente técnico português não foi feliz em Arouca: sofreu cinco derrotas seguidas e menos de dois meses depois de chegar foi substituído por Jorge Leitão, que não fez muito melhor. A 2.ª volta foi desastrosa: em 17 jogos o Arouca conquistou apenas 9 pontos, 4 dos quais ainda com Lito Vidigal no comando.

O presidente Carlo Pinto, acompanhado pelo filho Joel: as caras do desalento

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TIAGO PETINGA/LUSA

Em sentido contrário, o Tondela voltou a manter-se na 1.ª Liga com mais uma reta final impressionante: nas últimas seis jornadas, a equipa de Pepa fez 15 em 18 pontos possíveis. Já o Moreirense, que também podia descer, salvou-se graças a uma vitória frente ao FC Porto, com Petit, obreiro da manutenção do Tondela na temporada passada, a operar mais um milagre, agora em Moreira de Cónegos.