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Futebol nacional

Venha daí ler o abecedário da bola

Chegámos à altura dos balanços e o nosso, sobre o campeonato nacional de futebol, faz-se com as 26 letras do abecedário

Diogo Pombo

FOTO Carlos Palma/NurPhoto via Getty Images

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No campeonato que termina este fim de semana coube muito de bom, de mau e de assim-assim. Há os exemplos dos golos de Bas Dost, a invasão ao centro de treino dos árbitros ou o caso Uchebo, e a época de André Silva. Para o resto, é só continuar a ler.

A
ndré Silva

Este miúdo que já tem um bom bigode, mas não deixa de ser miúdo, marcou o primeiro golo como profissional a 14 de maio de 2016. Foi na última jornada do anterior campeonato, dias antes de bisar na final da Taça de Portugal que não conseguiu salvar para um FC Porto à deriva e sem salvação. Mas esta época foi aposta para ser o salvador. E marcou e foi marcando muitos golos, a mostrar-nos como temos aqui um avançado que dá tudo, se esforça muito, procura sempre dar soluções e corre por todo o lado (o que nem sempre é bom). Acaba a temporada com 21 golos, com o problema de apenas seis terem sido em 2017, sintoma de um treinador que foi buscar outro avançado em janeiro e fez questão de deixar André Silva na corda bamba das suas experiências.

B
runo de Carvalho

Em março fechou-se um ciclo de quatro anos em que o Sporting passou a estar mais perto dos títulos, em que venceu uma Taça e uma Supertaça, em que apostou em treinadores bons e promissores, até ir buscar um muito bom e com currículo para prometer muito e começar a gastar os milhões que se achava que o clube não tinha. Em março, o presidente que liderou isto tudo foi reeleito, quando o clube já estava em terceiro lugar no campeonato e a desconfiar que ia terminar a temporada sem títulos. A reeleição de Bruno de Carvalho foi sinal de que a maioria dos sócios confiam nele e gostaram do que viram, mesmo que tenham ouvido picardias, críticas aos árbitros, bocas a outros dirigentes e culpabilizações públicas de jogadores. Ou um presidente a pedir mais militância quando terá uma das melhores médias de assistência no estádio de sempre.

C
haves

Imaginem uma equipa que não estava na primeira liga há anos e anos, que subia, tinha jogadores pouco conhecidos e um treinador que ninguém sabia bem o que valia. Durante oito meses, essa equipa só perde um jogo em casa. Em abril, lá perde dois jogos seguidos, contra Vitória de Guimarães e FC Porto, numa altura em que o treinador de quem pouco se ouvira falar já era conhecido por ter ido para Braga e ser demitido, meses depois. Mas o Chaves aguentou-se, bateu o pé a toda a gente e fez um campeonato mais do que tranquilo. E acaba como a terceira equipa que mais remates fez, em média, por jogo (13,1), sendo a segunda que menos tempo teve a bola (45,5%). É obra.

D
ost

É alto, parecia tosco e com pés que a bola quereria arrendar apenas a curto prazo. Já sabemos o que as aparências costumam fazer e este avançado holandês foi contrariando as ilusões com golos. Muitos golos. À penúltima jornada, Bas Dost estava com 48,4% dos golos do Sporting, ou com 31 dos 64 que a equipa marcou. O holandês começou a render a partir do momento em que a equipa e Jesus se habituaram a ele e a jogar para ele, um tipo de correrias e esforços medidos, de bola no pé e poucos toques nela, porque não precisa de muitos. E os pés até nem têm nada a ver com isso. O holandês, por exemplo, acaba com menos erros na posse de bola por jogo (1,2) do que um tipo que associamos a ter cola no pé (Jonas, 2,1).

E
mpates

Para esta letra se justificar, bastava escrever que este foi o campeonato que mais empates teve (78, pelo menos) nos últimos dez anos. E pronto, retomaríamos a nossa vida. Mas isto não ficaria completo sem referir os dez empates de uma equipa com intenções de ser campeã e sempre melhor que as outras. Assim fica difícil, FC Porto.

F
ortaleza

Quantas vezes ouvimos Nuno Espírito Santo querer ser o motivador de tropas, a cola entre equipa e adeptos, o professor que ensina uns a gostarem de outros, com esta palavra? O que todos conhecemos como Estádio do Dragão era uma “a fortaleza” para o treinador do FC Porto. A cassete foi repetida e tornou-se repetitiva, mas, de facto, a equipa não perdeu qualquer jogo em casa para o campeonato.

G
elson Martins

O que o Sporting jogou foi chegando durante uns tempos enquanto um pequeno agitador, de pequenas tranças e pequeno em experiência, foi a origem de tudo quanto era aceleração, jogada de perigo, cruzamento tenso ou desequilíbrio ofensivo. Tirando os golos de Bas Dost, nada foi mais importante para os leões do que tudo o que Gelson Martins foi conseguindo fazer pela ala direita.

H
2O

Se o Sporting não colheu mais frutos dos golos do holandês e das invenções de Gelson, tal deveu-se à forma como a equipa meteu água, lá atrás. O treinador viciado no pormenor de pôr toda a gente a defender como deve ser viu os leões sofrerem 35 golos, mais do dobro de Benfica e FC Porto. Foi o único grande a ser apanhado na curva das transições defensivas — sofreu dois golos de contra-ataque, contra nenhum dos rivais.

I
nvasão

É de criticar, lamentar, repudiar, e todos os demais verbos com significados semelhantes, o momento em que elementos da claque dos Super Dragões tentaram invadir o centro de treinos dos árbitros, na Maia, em janeiro, onde estava Artur Soares Dias. Depois de tantos e tantos anos, ainda há muita gente que não entende que não será por ser criticado ou ameaçado que um ser humano vai errar menos. Seja no que for.

J
onas

É uma letra e um nome para a redundância. Porque já nada resta a dizer ou a elogiar sobre o brasileiro que continua a ser o melhor jogador do campeonato, o que melhor parece pensar antes de a bola lhe chegar e quem exerce maior influência na equipa. Jonas é golo, é técnica, é segurar a bola, é o primeiro toque, é inteligência. É futebol.

K
arma

“Tenho uma equipa trabalhada por mim. E, se está trabalhada por mim, em Portugal, de facto, tem de ser a melhor.” A frase é de Jorge Jesus e o karma, aqui, resume-se de duas maneiras. Primeira: tudo o que vai, volta. Segunda: às vezes é melhor não ser fanfarrão, porque a vida farta-se de nos pregar partidas, como o campeonato mostrar como, esta época, houve duas equipas melhores do que a dele em Portugal.

L
uís Castro

Um homem que treina uma equipa que, com ele, em 11 jogos caseiros, apenas perde um. Um senhor que mede as palavras, explica as coisas sem despeito e quer sempre falar de futebol. Um treinador que arrisca e gosta do risco e quer a equipa a jogar de peito feito, seja contra quem for. Luís Castro pegou no Rio Ave e fez dele uma das melhores equipas do campeonato. O único problema? Só ter chegado ao clube no final de novembro.

M
edo

Do “medo de não voltar a ganhar”, como admitiu Nuno Espírito Santo, depois do 0-0 com o Feirense, que foi o nono empate do campeonato e outra oportunidade de aproximação ao Benfica deitada para o lixo. Também podíamos estar a falar do ‘m’ que há em “bloqueio mental”, por esta ser a equipa que chegou a empatar três jogos seguidos e cujos jogadores, às tantas, falaram do golo de um avançado de 18 anos, da equipa B, contra o Braga, como um ponto de viragem na época.

N
uno Espírito Santo (NES)

O FC Porto, sem a bola, foi talvez a equipa mais coesa, com todos nos sítios certos, a reagir bem conforme o adversário atacava. Do outro lado do campo, as coisas correram-lhe sempre pior, com uma vida feita à base de demasiados cruzamentos, poucos remates certeiros e ausência de jogo interior. O treinador não tem culpa quando um jogador erra, se distrai ou chuta mal na bola. Mas já é o responsável quando a equipa aparenta falta de soluções e forma de as criar. Ainda mais quando culpa, insistentemente, a arbitragem no final dos jogos.

O
ffline

Bruno de Carvalho abandonou o Facebook a 16 de maio, não sem antes nos deixar um longo texto na página a que, tantas vezes, recorreu. Disse-se cansado, queixou-se do efeito “perverso” da rede social, pediu para o deixarem em paz e, referindo-se aos jovens do clube, urgiu-os a serem “homens” e a “ganhar os seus jogos e conquistar títulos, sem desculpas, sem estar sempre a falar de arbitragens”. Offline, neste caso, quase que rima com ironia.

P
izzi

O comandante da continência para Bragança a cada golo marcado é o médio que já foi ala, fez de interior e que se fixou ao centro como emergência. E que, hoje, é uma absoluta necessidade. O Benfica não vive sem ele e sem as oito assistências, a média superior a dois passes por jogo para deixar alguém em posição de golo e sem as mais de 75 vezes em que costuma passar a bola.

Q
uatro

O ‘q’ de quá-quá também é do número de títulos, seguidos, que o Benfica acabou por conquistar. Vencer quatro campeonatos consecutivos é destaque em qualquer país e, ao fim de mais de um século, os encarnados conseguiram fazê-lo.

R
ui

É o jogo do adivinha: qual é o treinador, qual é ele, que muito raramente se exalta, é educado, mede sempre o discurso, não deixa as palavras fugir sempre do mesmo e, mesmo sem improvisar ou mudar muito, garante que a equipa é equilibrada, organizada, coesa e que, sobretudo, não treme? Para facilitar, ele treina uma equipa que ganha e que tem feito o que ele tem no apelido.

S
porting

Teria de haver uma letra para a equipa que, a época passada, não foi campeã por um ponto e fechou o campeonato com nove vitórias seguidas. Esse Sporting, o de Jorge Jesus que tanto prometera, contratou demasiados jogadores que não renderam, planeou mal a época, teve um treinador indeciso quando não devia (a companhia de Bas Dost) e acabou esta temporada a arrastar-se.

Turbo

Um turbocompressor é algo que os carros podem ter para aproveitar os gases do escape, injetar ar nos cilindros do motor e, resumidamente, gerar mais potência. O Benfica aumentou o peso no pé e carregou no acelerador depois de perder com o Vitória de Setúbal, à 19ª jornada — a partir daí fez 36 dos 42 pontos possíveis. Só que foi comum parecer mais um carro pequeno, a gasóleo, com poucos cavalos. Mas o turbo funcionou. Um pouco como a Vespa de Eliseu, aquele motor não dava mais do que aquilo, mas não deixou de dar.

U
chebo

Em novembro foi a gota de água para o jogador que não recebia salários há quase sete meses e já tinha passado alguns dias sem eletricidade em casa. O Boavista não queria Michael Uchebo, foi ignorando o contrato que os ligava e o presidente chegou a dizer ao nigeriano que não lhe ia pagar o que quer que fosse. O caso acabou por se resolver, mas foi a amostra de algo que, infelizmente, não é assim tão raro acontecer.

V
itória

Ou melhor, do Vitória, clube que mora em Guimarães, gosta de ser tratado pelo primeiro nome e vai terminar o campeonato à beira do último lugar de entrada na Liga dos Campeões. E se o Vitória foi assim, deve-se muito a Pedro Martins, que fez a equipa meter medo a muito boa gente e a levou até à final da Taça de Portugal. Todos sabemos o que aconteceu ao último treinador que fez isto. Uma pista: já apareceu neste abecedário.

W
illiam Carvalho

Nas duas épocas anteriores, ele foi um dos melhores a jogar futebol por cá. Em períodos, que não foram poucos, terá até sido o melhor a jogar pelo centro do campo. Alguém, contudo, que tem 25 anos, é capitão e foi o titular na seleção campeã europeia, tem de correr, e jogar, e passar, e sprintar e cobrar mais a ele próprio. No fundo, tem de render muito mais.

X
amã

É preciso alguém com poderes ocultos descobrir o que foge ao alcance de pessoas normais, ou para entender como o Nacional da Madeira teve uma época destas. A equipa que estava há 15 anos na primeira liga foi despromovida, teve três treinadores, só venceu quatro jogos, sofreu mais de 50 golos e ficou à deriva com uma equipa desequilibrada. E tudo fica mais estranho se pensarmos nos anos em que o Nacional foi sinónimo de luta pela Europa e terreno infértil para os grandes.

YouTube

A plataforma de partilha de tudo quanto é vídeo era coisa que ainda estava a três anos de existir (2005) quando o Sporting venceu, pela última vez, o campeonato (2002). Isto não é para denegrir o clube, mas para pegar num facto, que é o de que qualquer liga torna-se melhor, mais competitiva, interessante e atraente quantas mais vezes virmos outra equipa a ser campeã. É mais ou menos como escrever que a hegemonia de um clube, por muito que agrade a uns adeptos e entristeça outros, não é o melhor para o nosso futebol.

Z
eegelaar

A última letra acaba por calhar bem, por ser o apelido de um dos laterais do Sporting e puxar pela corda deste que foi um dos problemas do clube, esta época. Só à esquerda, onde jogou Zeegelaar, os leões experimentaram outros três jogadores (Jefferson, Bruno César e Esgaio), sem que algum tenha sido apanágio de seguro a defender e um incremento para a equipa atacar. Do outro lado, Schelotto e João Pereira fizeram pouco mais.