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A mesma final, só que tudo ao contrário

Jamor. Benfica e V. Guimarães repetem duelo de há quatro anos, mas muita coisa mudou

Lídia Paralta Gomes

Ricardo Pereira fez em 2013 o golo que permitiu ao V. Guimarães levantar a Taça pela única vez na história do clube

FOTO FRANCISCO LEONG/AFP/Getty

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Vamos lá recuar até ao dia 26 de maio de 2013. Final da Taça de Portugal no Jamor. V. Guimarães, de Rui Vitória, contra Benfica, de Jorge Jesus. Melhor ainda: vamos recuar até ao dia 11 de maio do mesmo ano, porque foi aí que a história dessa final da Taça de Portugal se começou a escrever. Estádio do Dragão, penúltima jornada do campeonato, Benfica na frente da tabela. O 1-1 que se registava no momento em que o quarto árbitro ergueu a placa com os minutos de compensação dava praticamente o título aos encarnados. Mas eis que chega o minuto 90+2: Liedson deixa para Kelvin, e Jesus acaba de joelhos no chão.

Para contar esta história, convém também fazer uma paragem na Arena de Amesterdão, dia 15 de maio. Final da Liga Europa, Benfica contra Chelsea. Os ingleses marcam primeiro, o Benfica empata logo a seguir, e o 1-1 que se registava no momento em que o quarto árbitro ergueu a placa com os minutos de compensação levava o jogo para prolongamento. Mas eis que chega o minuto 90+3, há um canto, ninguém quer saber de Ivanovic, o sérvio remata de cabeça, em arco, e Luisão acaba de joelhos no chão.

Todo este chato interlúdio tem razão de ser. Serve para mostrar que a final da Taça de Portugal da época 2016/17 não será assim tão igual à de 2012/13. Só o local, o Estádio do Jamor, e o nome dos protagonistas, Benfica e V. Guimarães, são iguais.

O resto está tudo de pernas para o ar. A começar pelo videoárbitro (todas as dúvidas podem ser tiradas no P&R, abaixo), que há quatro anos seria apenas uma rebuscada ideia na cabeça de alguns e que amanhã terá a sua estreia mundial numa final de Taça nacional. Depois Rui Vitória, que em 2013 era um promissor treinador que já tinha levado o Paços de Ferreira a uma final da Taça da Liga e que, na segunda época em Guimarães, perante um cenário catastrófico em termos financeiros, conseguia o feito de chegar à final da Taça de Portugal. Hoje está precisamente do outro lado da barricada. Esse lado chamado Benfica.

Em 2013, os encarnados jogavam no Estádio do Jamor a salvação de uma época que nos 15 dias anteriores se havia desmoronado de forma dramática. Depois de perder duas competições já para lá dos 90 minutos, a Taça era o único título que restava a Jesus. Em 2017, o cenário é bem distinto: há duas semanas, o Benfica sagrou-se tetracampeão nacional.

“Estávamos tranquilos antes do jogo, porque sabíamos que a responsabilidade de ganhar a final da Taça era do Benfica, até porque vinha de uma final e de um campeonato perdido em apenas 15 dias. As declarações do Jorge Jesus diziam isso mesmo: queriam ganhar a Taça, porque queriam acabar a época com alguma coisa. Mas sempre respeitámos e nunca desmerecemos a equipa do Benfica. Acho que foi fator primordial para chegarmos ao êxito”, conta-nos Leonel Olímpio, o brasileiro que capitaneou a equipa do Vitória na final de 2013.

Respeito e a perfeita noção de que o Benfica estava fragilizado, em ponto de rutura. Ao intervalo, os encarnados venciam por 1-0, mas tremiam. “O Benfica entrou forte, mas teve a felicidade de fazer um golo numa jogada em que tínhamos a bola dominada: o Kanu chuta a bola para a frente, o Gaitán põe o pé e a bola entra. Na primeira parte chegámos a ter um contra-ataque de cinco contra dois e não conseguimos concretizar e ainda tivemos outras oportunidades. Sabíamos que, se o Benfica sofresse um golo, os jogadores iam reviver o filme das competições que tinham perdido. E foi isso que aconteceu: em praticamente dois minutos virámos o jogo”, lembra o médio de 34 anos, hoje jogador do Varzim.

Em 2017, o Benfica entra em campo como favorito, mas sem a pressão de 2013. E por isso a final de amanhã (17h15) arranca com premissas bem diferentes. O Benfica chega “como campeão e tem a vantagem de Rui Vitória conhecer muito bem o adversário”, explica-nos Leonel Olímpio. “Ele sabe que em momento algum pode vacilar frente ao Vitória e sabe também que do outro lado vai estar uma massa associativa a empurrar a equipa.” Porque os treinadores mudam, os jogadores também, mas os adeptos do V. Guimarães continuam a ser apaixonados pelo clube da sua cidade. “Quando os adeptos do Vitória começam a empurrar, a equipa parece que se transforma”, garante o médio brasileiro, que sabe do que fala: afinal de contas, jogou no Vitória três temporadas.

Aos 47 anos, Rui Vitória volta ao Jamor à procura da sua segunda Taça de Portugal e de repetir o feito de Jorge Jesus, que em 2014 conseguiu a dobradinha para o Benfica. E diz quem por ele já foi treinado que há poucos como Vitória na hora de motivar um jogador.

Leonel Olímpio estava no Paços de Ferreira quando os castores chegaram à final da Taça da Liga, em 2011. Nesse dia, recebeu uma carta personalizada de Vitória. Ele e todos os jogadores do Paços. Em 2013, repetiu a técnica. “Chegou a cada jogador uma carta, e nenhuma das cartas era igual. Ele escreveu sobre cada jogador, sobre a época, sobre o carácter de cada um. Uma carta de motivação que, acredito, foi muito importante”, refere o jogador, lembrando que Rui Vitória “sabe lidar muito bem com a parte humana do jogador, com a parte familiar, não apenas com o futebolista”.

De resto, a semana de preparação para a final de 2013 foi “normal” e “tranquila”, e ao intervalo do jogo, estando o V. Guimarães em desvantagem, Rui Vitória foi igual a si próprio. “Entrou no balneário muito relaxado e durante uns momentos não nos disse nada. E a partir do momento em que decidiu falar disse muito pouco: apenas para mantermos o nível da primeira parte e a tranquilidade, porque ia aparecer o momento para empatar e até ganhar o jogo. E foi o que aconteceu.”

Afinal de contas, todos os cenários tinham sido estudados ao longo da preparação. “Nós tínhamos trabalhado durante a semana essa situação, ou seja, as alterações que faríamos se estivéssemos a perder. A partir de certo momento, ele fez as substituições e acabou por correr tudo bem.” O Vitória ganhou, o Benfica voltou a cair. E, nessa noite, Guimarães não dormiu.

Pergunta & Resposta

O que é o VAR?
É o nome técnico que é dado ao videoárbitro — sigla de video assistant referee, em inglês.

Quando é que pode intervir no jogo?
Apenas em quatro situações específicas, para corrigir erros claros, uma vez que o objetivo é ter o máximo benefício com o mínimo de interferência: golos, penáltis, cartões vermelhos e casos de identidades trocadas.

Mas é o VAR que fala ou 
o árbitro que pede ajuda?
Tanto faz. Pode ser o árbitro a pedir ajuda, depois de tomar uma decisão da qual não está 100% certo, ou o videoárbitro a indicar ao árbitro que acha que o lance deve ser revisto. Contudo, o lance só é oficialmente revisto quando o árbitro principal assim o autoriza.

O que acontece depois?
Com o jogo interrompido e o lance revisto, o videoárbitro indica ao árbitro qual a decisão que acha que deve ser tomada. Aí, o árbitro ou aceita a decisão do colega e retoma o jogo ou vai até à linha lateral rever o lance, numa televisão, e depois toma uma decisão.

É o VAR que decide?
Não, apenas aconselha. A decisão final cabe sempre ao árbitro.

Mas o jogo é interrompido antes de o árbitro decidir um lance?
Não. Quando o VAR é consultado, o árbitro já tomou uma decisão no lance. Ou seja, o árbitro não pode parar o jogo, por exemplo, numa situação de penálti, e pedir ao VAR para dizer se é ou não penálti. A decisão já tem de estar tomada (mesmo que seja errada), e só depois entra em ação o VAR, para (in)validá-la.

Existe um tempo máximo de interrupção do jogo?
Não. O jogo estará interrompido o tempo que o árbitro entender que for necessário para esclarecer a situação.

Se um lance for revisto e o jogo não estiver parado, as faltas que forem feitas depois serão anuladas?
Se o jogo continuar depois de um incidente revisto pelas imagens, qualquer ação disciplinar tomada/necessária depois desse incidente não será cancelada, mesmo que a decisão original seja alterada (exceto faltas/expulsões pela paragem de um ataque promissor ou pela negação de uma clara oportunidade de golo).

Se houver um problema técnico e não houver VAR, o jogo é invalidado?
Não. O jogo é disputado.

Quem será o VAR da final?
Há a hipótese de haver um VAR ou dois, e neste caso foram nomeados dois: Jorge Sousa e Artur Soares Dias. O árbitro será Hugo Miguel.

O VAR já foi utilizado?
Em Portugal, já foi testado em nove jogos, mas sempre offline, ou seja, não existia comunicação efetiva com o árbitro, ainda que os lances fossem revistos pelo VAR. Este será o primeiro jogo oficial em que o videoárbitro poderá interferir na ação.

O VAR vai continuar 
a ser utilizado?
Sim. No dia 4, a final da Taça feminina, no Jamor, terá VAR, assim como, na próxima época, todos os 306 jogos da I Liga.