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Leonel Olímpio, o capitão do Vitória na final da Taça de 2013: "Lá você fala Guimarães e os adeptos vão puxar a orelha"

Em 2013, o V. Guimarães bateu o Benfica por 2-1 e conquistou a primeira Taça de Portugal do seu palmarés. Este domingo, repete-se o duelo. Leonel Olímpio, médio brasileiro de 34 anos, recorda-nos as emoções vividas nesse dia 26 de maio e o que significa o Vitória para a cidade de Guimarães, ele que agora joga no Varzim mas continua vitoriano de coração. Aliás, as suas duas filhas são sócias do V. Guimarães

Lídia Paralta Gomes

JEFF PACHOUD/Getty

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Era o capitão de equipa no dia mais feliz da história do V. Guimarães. É uma boa frase para a sua biografia?
É com certeza [risos]! Fui o capitão que entrou em campo, já que o primeiro capitão era o Alex.

E é também ainda o dia mais feliz da carreira do Leonel Olímpio?
Sim. O grupo de trabalho passou um ano muito difícil e no final da época poder jogar uma Taça de Portugal, defendendo as cores do Vitória e conseguir o êxito contra uma grande equipa como o Benfica… acho que ficou na história. É o auge da minha carreira. Queria ganhar mais títulos, nunca se sabe, só Deus sabe, mas acho que aquele que vai ficar na história da minha carreira é esse.

Vamos, e passe a redundância, começar pelo início. Como foi a preparação para esse jogo? Houve diferenças durante a semana face a um qualquer jogo do campeonato?
Preparação normal. Tivemos o último jogo do campeonato em nossa casa e a partir do momento em que o juiz apitou para o final, aí sim, começámos a pensar na Taça de Portugal. Foi uma semana boa, porque sabíamos que estávamos na final, uma semana tranquila. Claro que trabalhámos bastante, porque todos os jogadores queriam jogar aquela final, mas foi uma semana tranquila e completamente dedicada ao Benfica.

Já tinha jogado uma final com Rui Vitória (Taça da Liga de 2011, pelo Paços de Ferreira). Nessa final, Vitória escreveu uma carta personalizada a cada jogador. E nesta final, usou alguma técnica especial para vos motivar?
Repetiu o que tinha feito nessa final. Chegou a cada jogador uma carta e nenhuma das cartas era igual. Cada jogador teve a sua carta e ele escreveu sobre cada jogador, sobre a época, sobre o carácter de cada um. Uma carta de motivação que, acredito, foi muito importante.

Rui Vitória é o técnico conhecido precisamente por ter uma relação próxima com os jogadores e por conhecê-los bem.
Muitas vezes as pessoas pensam que os jogadores são diferentes mas um jogador também é humano. Eu acho que o Rui sabe lidar muito bem com essa parte humana do jogador, com a parte familiar, não apenas com o jogador de futebol. Isso é muito gratificante. Ele tem vindo a demonstrar isso desde o Fátima, Paços de Ferreira e no Vitória. Tive a oportunidade de trabalhar quatro anos com ele e ele sempre foi a mesma pessoa. Claro que mudando algumas coisas de um clube para outro, mas ele sabe trabalhar muito bem essa parte pessoal do jogador. E por isso é que está onde está e com certeza que ainda vamos falar muito dele em patamares muito superiores.

Há um par de anos postou nas redes sociais um vídeo que gravou no autocarro a caminho do Jamor. Aquela descontração era real ou havia ali nervosismo?
Estávamos tranquilos porque sabíamos que a responsabilidade de ganhar a final da Taça era do Benfica, até porque vinha de uma final e de um campeonato perdido em apenas 15 dias. As declarações do Jorge Jesus diziam isso mesmo: queriam ganhar a Taça porque queriam terminar a época com alguma coisa. Mas sempre respeitámos e nunca desmerecemos a equipa do Benfica. Acho que foi fator primordial para chegarmos ao êxito.

Ao intervalo o V. Guimarães perdia por 1-0. O que vos disse Rui Vitória no balneário?
O Rui Vitória estava bem tranquilo, entrou no balneário muito relaxado e durante uns momentos não nos disse nada. A partir do momento em que decidiu falar, falou muito pouco: disse-nos apenas para mantermos o nível da 1.ª parte e a tranquilidade porque ia aparecer o momento para empatar e até ganhar o jogo. E foi isso que aconteceu. Nós tínhamos trabalhado durante a semana essa situação, ou seja, as alterações que faríamos se estivéssemos a perder. A partir de certo momento ele faz as substituições e acabou por correr tudo bem.

O Benfica estava ali a jogar a época, depois de perder tudo. Vocês sentiram essa pressão nos jogadores do Benfica e aproveitaram esse nervosismo?
O Benfica entrou forte, mas nós soubemos defender muito bem. Tiveram a felicidade de fazer um golo numa situação em que tínhamos a bola dominada: o Kanu chutou a bola para a frente, o Gaitan põe o pé e a bola entra. Na 1.ª parte chegámos a ter um contra-ataque de 5 contra 2 e não conseguimos concretizar, tivemos outras oportunidades. Sabíamos que se o Benfica sofresse um golo, os jogadores iam reviver o filme das competições que tinham perdido. E foi isso que aconteceu: em praticamente dois minutos viramos o jogo.

No final do jogo há uma confusão entre Jorge Jesus e Cardozo. Apercebeu-se de alguma coisa na altura?
Não, não. Naquele momentos nós só queríamos festejar. Depois vi as imagens porque todas as televisões falaram da confusão. Perder três competições em menos de 15 dias… acredito que tenha sido um ano muito difícil para eles e os ânimos estavam à flor da pele. Eu no momento não me apercebi de nada porque queria aproveitar aquele momento que era único, queria festejar com os meus familiares, com a cidade de Guimarães e com os meus companheiros.

MIGUEL RIOPA/Getty

No final o Leonel não conseguiu conter as lágrimas
Só de me lembrar até me arrepio! É uma lembrança muito boa, todas as dificuldades que tivemos e chegar àquele momento e ganhar… para mim foi muito especial porque o meu pai tinha vindo do Brasil, ele que foi a pessoa que sempre acreditou em mim e sempre me deu força. Para mim foi gratificante saber que ele estava na bancada, a minha família toda estava na bancada, a minha mulher, a minha filha, os meus sogros e amigos, estavam todos na bancada! E a cidade de Guimarães estava toda lá.

O V. Guimarães estava numa situação realmente complicada na altura.
Não é segredo para ninguém que o Vitória passava uma problemas financeiros muito, muito, muito maus. O clube esteve praticamente à beira de fechar as portas, mas um clube como o V. Guimarães não tem hipótese de fechar as portas. A cidade abraçou, o presidente fez um trabalho extraordinário, conseguiu recuperar a imagem do V. Guimarães e conseguiu cumprir todos os objetivos e todos os compromissos. E nós termos chegado ao Jamor e termos ganho acho que ajudou muito o Vitória a ser o Vitória que é hoje. As pessoas sabem disso e é por isso que têm muito carinho por aquela equipa de 2013. Passámos muitas dificuldades mas nunca deitámos a toalha ao chão.

Os adeptos do Vitória são conhecidos pela paixão que têm ao clube da sua terra. Sabe-se, por exemplo, da história da adepta que ofereceu um rosário a cada um dos jogadores antes da final de 2013. Mas como é que se vê essa paixão no dia a dia?
A cidade de Guimarães respira Vitória 24 horas por dia. Eles vão dormir com o Vitória e acordam com o Vitória. Todas as pessoas têm carinho pelo clube e é como se o clube fizesse parte da família. Isso é gratificante, você jogar num clube em que os adeptos respiram futebol. Em Guimarães não se fala em FC Porto, Benfica e Sporting, fala-se em Vitória e o jogador que veste a camisola do V. Guimarães tem que perceber logo ou não vai virar um jogador à Vitória.

É essencial para um jogador que chega a Guimarães reconhecer a importância que o clube tem para a cidade?
O Vitória é isso. Você fala Guimarães e eles vão puxar-te a orelha [risos]! O Vitória tem essa mística e o jogador tem de ter a mística do clube senão não vai ser feliz lá.

E na semana que antecedeu a final da Taça em 2013 o que é que lhe diziam na rua?
Apoiavam-me, diziam aquelas coisas “vamos lá!” ou “vamos vencer!”, mas o jogador tem que se controlar e não ir na onda dos adeptos. Sabíamos que tínhamos de fazer uma semana de trabalho muito concentrada, mas a cidade respirava o Jamor e com certeza que esta semana não foi diferente. Só espero que a equipa possa trazer a Taça de novo para Guimarães.

E o que podem esperar os jogadores do Vitória caso vençam a final de domingo?
Ahh, com certeza vai ser uma festa linda, tal qual foi a de 2013! A cidade toda à espera dos jogadores e comissão técnica, a Praça do Toural lotada, as pessoas a cantarem as músicas do Vitória, famílias, crianças, mesmo idosos, toda a gente a festejar. Vai ser muito bonito.

O Leonel Olímpio joga agora no Varzim mas continua vitoriano?
Sim, o Varzim foi o clube que me abriu as portas para voltar a Portugal, estou muito feliz aqui mas não escondo de ninguém que na final da Taça vou torcer pelo Vitória. Se não for na bancada vou estar longe mas a torcer pelo Vitória. Porque aprendi a amar aquele clube, a minha família também aprendeu a amar o Vitória e nós não escondemos isso de ninguém.

E tem duas filhas sócias do Vitória.
Sim, sim. A minha filha mais velha foi criada no Vitória, cresceu dentro de Guimarães. No infantário as pessoas sabiam que ela era filha do Olímpio e sempre foi muito acarinhada. A mais nova tem 30 dias e a mesma adepta que nos ofereceu os rosários pediu-me se a podia colocar como sócia do Vitória. E eu dei permissão.

E no domingo, é possível o Vitória surpreender novamente o Benfica?
É uma final, um jogo só. Tudo pode acontecer. Acredito que vai ser um grande espectáculo e espero que no final o Vitória festeje mais uma Taça de Portugal. O Pedro Martins fez uma grande época, os números estão aí: 4.º lugar no campeonato e final da Taça de Portugal.

E da parte do Benfica, o cenário é diferente. Em 2013 vinha com a pressão das competições perdidas, este ano chega ao Jamor como campeão.
É claro que o Benfica chega como campeão e tem a vantagem do Rui Vitória conhecer muito bem a casa. Ele sabe que em momento algum pode vacilar frente ao Vitória e sabe também que vai ter uma massa associativa do outro lado a empurrar o adversário. E ele sabe bem que quando os adeptos começam a empurrar a equipa parece que se transforma.