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“O nosso caminho era este, vencer até debaixo de água” – a final numa carta de Rui Vitória para os seus

Rui Vitória é um treinador, como sabemos, que está sempre atento ao lado humano e motivacional, e por isso escreveu uma carta a cada jogador nas duas finais que jogou antes de chegar ao Benfica. Portanto, pensámos que, após vencer (2-1) o Vitória numa tarde chuvosa no Jamor, poderia ser esta carta que enviaria aos encarnados. O Benfica venceu a 26ª Taça de Portugal da história e fez a dobradinha pela 11ª vez

Diogo Pombo

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Os ditados populares têm muita razão de ser. Não são obra de criatividade ou de um rasgo de inspiração, são, sim, uma espécie de cão fiel, só com olhos para o dono, que se limita a ver o que acontece, a absorver tudo o que vê e a aprender com isso. Não há cá invenções, há conclusões que se tiram. Se existem ditados a dizerem-nos que não há duas sem haver três, ou que à terceira é de vez, é porque há coisas que se repetem tanto que acabam sempre por acontecer. Ou algo assim parecido.

Portanto, se continuarem a pensar comigo e a pensarmos em Rui Vitória, podemos deduzir juntos. Sabendo o que o treinador do Benfica fez em, pelo menos, duas das três finais a que chegou (Taça da Liga com o Paços de Ferreira, em 2011, e Taça de Portugal em 2013, com o Vitória), é normal que à quarta tenha feito o que fez nas anteriores:

Pôs-se a escrever cartas aos jogadores.

Quis motivá-los, puxar por eles, dedicar umas palavras especiais a cada um, sapiente de que um jogador confiante e cheio dele próprio é capaz de coisas que nem ele conhecia. Mas imaginemos, agora, que Rui Vitória resolveu ser diferente e dedicar-se à escrita apenas depois. Com a final jogada, com tudo visto, com os jogadores a caminho das férias, podia escrever uma carta geral, mais ou menos assim:

Ederson, meu menino. És jovem, grande e um íman de crescimento. Perdi a conta às vezes que nos salvaste esta época, e na anterior. Sabes que não sou de individualizar e por alguém por cima dos outros. Mas deixaste-me feliz, tranquilo e em paz com o que via em campo, nem pareceu que te esforçaste para defender os remates do Hernâni e do Raphinha. É pena que tenham sido os únicos remates à baliza na primeira parte. E também é pena que, pareceu-me, tenha gritado um “Minha!” no canto que deu o golo ao Vitória.

Terá sido também por isso, grande Luís, que guardei a sensação de que não saltaste nesse canto. Mas já falámos sobre isso. Sei que não é fácil, com a idade, manteres o andamento e o jogo de cintura e as viragens para acompanhar o ritmo. Mas foste um líder e mandaste no Victor, no Nélson e no Alex. E até ao intervalo, eu bem que vos avisei, não foi fácil.

Especialmente para ti, Grimaldo.

Só te livraste de uma lesão no último terço da época e vi como sofreste com os piques que te custavam a arrancar cada vez que o Bruno Gaspar embalava. Era assim, em contra-ataques, saídas rápidas, gente a partir de trás quanto tínhamos poucos atrás, que o Vitória foi a equipa mais perigosa até à segunda parte.

E sofremos mais, bem mais, quando o Ljubomir levou uma pancada do Marega e foi o azarento no meio do choque de dois tipos grande e rijos. Tive que te por a ti, Andreas, frio e resfriado pela chuva, e quando entraste no jogo e apanhaste o ritmo, já estávamos quase no intervalo. Sofremos, como uma equipa, com a forma como o Rafael Miranda e o Zungu e o Hurtado te apertaram, por perceberem que o Pizzi andava demasiado preocupado em juntar a equipa com passes. E correu-nos mal porque falhavas muitos e em sítios onde eles conseguiram sair rápido para o ataque.

Deu-me muito gozo, admito, ver-te a ser um dos que mais cresceu quando saímos do balneário. Alertei-vos para o ritmo que tínhamos de acelerar e os metros que devíamos avançar, na pressão e nos sítios para fazer faltas, e resultou. Acalmaste, Pizzi, e começaste a encontrar os outros com a bola, muito mais vezes. A chuva, que caiu durante hora e meia, deixou de te incomodar. E a ti, Jonas, o nosso craque e o sábio que parece saber, sempre, mais que os outros. Foste intenso e decidido e rápido a dominar a bola, a virar e a pegá-la com força, à entrada da área.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O guarda-redes do Vitória não a agarrou e o nosso mexicano apressou-se a chegar-lhe. Não imaginava que, ali, fosses picar a bola e brincar ao sangue frio com o Jamor, mas correu-te bem, Jiménez. Foi o melhor do teu jogo de diagonais, corridas para a profundidade e desmarcações para nos esticar a equipa no espaço. Estás a apanhar o jeito a orbitar em torno do Jonas e isso fez a cabeça ao Josué e ao Pedro Henrique, centrais pesados e a quem cai mal sair da posição (e a máscara de lucha libre até te fica bem).

Vocês sabem tão bem como eu que a final ficou nossa em cinco minutos. Os que passaram entre esse golo e a cabeçada que o argentino de quem eu mais gosto deu na bola cruzada pelo Nélson, da direita. É por estes momentos que sempre aposto em ti, Salvio, porque jogaste uma final certinha, com muitos sprints para trás, com esticões na direita e, sobretudo, a ter a calma que precisámos, quando precisamos dela. Um dia chegarás lá, Cervi, para lá das tuas corridas com bola que nos deixaram respirar quando estávamos pressionados.

Foram os últimos 25 minutos. Vocês sabem que gosto de nos ver resguardados, a defender no nosso meio campo, a olhar mais para os espaços do que para a pressão, quando temos o marcador do nosso lado. Mas sofremos porque amolecemos, encostámo-nos em demasia à área, e tudo isto piorou quando o Vitória marcou de canto e os nervos, a ansiedade e as tremedeiras aumentaram. E o Pizzi e o Jiménez, que apanharam os nossos adversários na curva da pressa, falharam golos na cara do Miguel Silva e não nos aliviaram já perto dos 90 minutos.

O alívio que o último apito me deu foi o de saber que chegámos onde queríamos. Ganhámos a 26ª Taça de Portugal para o Benfica e conseguimos a 11ª dobradinha da história do clube. Quando tanto falava em caminho para fora e para dentro, para vocês, era a isto que me referia. Acho que já sabiam.

Se pudesse, também escreveria uma carta ao Vitória, clube que, como sabem, treinei e trouxe aqui ao Jamor, em 2013. Eles lutaram e correram e foram rápidos a contra-atacar e decididos a apertar-nos quando já parecíamos estar mais do que à larga na final.

E pronto, um forte abraço a todos, parabéns pela vitória, pela época e espero ver-vos a todos daqui a mais ou menos um mês.