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A velha senhora Juventus de Gaia

No mundo do futebol popular português, há equipas que se inspiram nos grandes da Europa para jogar à bola de forma desinteressada. A Tribuna Expresso visitou o Juventus de Pedroso, em Vila Nova de Gaia, um clube onde se privilegia a conduta em detrimento da ambição desportiva

Margarida Mota

Em cima ao centro, o galhardete do Real Club Recarei, exposto na sede do “rival” Juventus de Pedroso

Margarida Mota

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Real Madrid 1 - Juventus 3. Se o futebol popular português funcionar como prenúncio, a vitória na final da Liga dos Campeões, este sábado, sorrirá à equipa italiana. Foi esse o resultado, esta época, entre o Grupo Desportivo Juventus de Pedroso e o Real Club Recarei — o primeiro de Vila Nova de Gaia, fundado por admiradores da “Vecchia Signora”, e o segundo de Paredes, por fãs do Real Madrid. As duas equipas competem na Liga de Ovar e defrontaram-se para a taça local - o Juventus eliminou o Real.

Nos meandros do futebol amador, há vários clubes batizados com nomes que aludem aos grandes europeus. Em Recarei, leva-se muito a sério a rivalidade da capital espanhola: para além do Real Club, existe também o Atlético de Recarei. “Não se podem ver...”, comenta Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso. “Em V. N. de Gaia, há o Arsenal de Serzedo, mas a equipa está parada.”

Aos 55 anos, Joaquim Costa leva já 36 ao serviço do futebol. Tinha 18 anos quando, com um grupo de amigos, fundou o Juventus de Pedroso. “Uns viviam no lugar de Santa Marinha e outros na Alheira. Éramos da mesma idade e andávamos no coro da igreja. Costumávamos fazer jogos entre o coro de Santa Marinha e o da Alheira. Um dia pensamos em jogar juntos”, como equipa. Foram a Recarei. “Portamo-nos muito bem, todos gostaram. Então pensamos: ‘Por que não criarmos um clube de futebol?’”

Em finais de 1980, em Itália, a Juventus de Dino Zoff, Marco Tardelli e Claudio Gentile — treinada por Giovanni Trapattoni — ia a caminho de mais um título no Calcio e seduzia adeptos em todo o mundo. “Era um clube mediático, o melhor clube italiano”, recorda. Em Pedroso, para os que estavam envolvidos na criação do clube, o nome Juventus era oportuno, ou não fossem todos jovens. “O símbolo da Juventus de Turim é preto e tem um touro, o nosso é verde e tem um trevo. Escolhemos o verde porque éramos jovens, éramos verdes, e o trevo porque procurávamos a sorte.” Do nome ao emblema, “tudo tinha ligação com a juventude.”

O verde e o trevo distinguem o emblema dos de Pedroso do símbolo dos de Turim

O verde e o trevo distinguem o emblema dos de Pedroso do símbolo dos de Turim

Margarida Mota

Se no início jogavam de forma irregular, com o tempo e o gosto passaram a jogar todos os domingos de manhã. “Para pertencer à equipa, cada jogador pagava uma quota e não podia faltar muitas vezes senão era expulso. Até hoje, nunca deixamos de fazer um jogo por falta de gente.”

Os associados da coletividade são os dirigentes, os atletas e uns quantos voluntários. Todos pagam 10 euros por mês, treinador incluído, para fazer face às despesas, nomeadamente a renda da sede — onde Joaquim Costa recebeu o Expresso —, uma divisão única com paredes forradas de recordações: troféus, galhardetes e fotografias. A primeira taça conquistada data de 8 de dezembro de 1982.

Angariar mais sócios poderia ser uma solução para responder às dificuldades, mas “não temos nada para dar aos sócios”, nem um espaço de convívio onde possam tomar um café. “Lutamos por um espaçozinho um pouco maior.”

O clube não tem dívidas, mas para pagar as despesas correntes — os gastos anuais ascendem a 3500 euros e, por mês, entram à volta de 160 euros em quotas —, os dirigentes têm de arregaçar as mangas e ser criativos. A Junta de Freguesia apoia com algum, passam rifas de vez em quando, tentam arranjar patrocinadores para comprar equipamentos novos e associam-se a eventos onde possam lucrar alguma coisa. Entre 13 e 19 deste mês, lá estarão com uma tasquinha montada na Festa no Caneco, organizada pela Junta de Pedroso.

A placa foi retirada da fachada da sede para identificar a barraca do clube na Festa do Caneco

A placa foi retirada da fachada da sede para identificar a barraca do clube na Festa do Caneco

Margarida Mota

No rol das despesas, pesa bastante o aluguer do campo, 125 euros por mês. Os jogos “em casa” são disputados em Pousadela, Nogueira da Regedoura, fora da freguesia e mesmo do distrito do Porto. “Em Pedroso, não temos campo disponível ao domingo de manhã. Estão todos ocupados com as camadas jovens.”

Em tempos, chegaram a usar o Estádio Jorge Sampaio, inaugurado em 2003, com campo relvado, bancadas coloridas para cerca de 8500 espectadores e pista de tartan. “Agora o FCPorto tem a preferência. Dão-lhe utilização e asseguram a manutenção da relva, o que não é mau. Eu não defendo aquele estádio, é um elefante branco. Preferia mais campos adaptados à realidade da nossa freguesia que é rica em futebol popular. Nem que fossem pelados.”

Durante a semana, não há treinos. Os adversários pensam que sim, por causa dos resultados que conseguem. “Este clube e o futebol popular em geral existem precisamente para aqueles que não podem treinar à semana. Hoje trabalha-se muito por turnos”, explica Joaquim Costa. “Ao fim de semana estão livres, a malta encontra-se e o treino faz-se nos jogos. Vai-se experimentando jogadores em determinadas posições. Não vale a pena marcar treinos para aparecerem meia dúzia. É preferível não treinar.”

A dedicação e o compromisso tem dado frutos. Atualmente, o Juventus é o campeão da Liga de Ovar — disputada, esta época, por 20 equipas — e lidera a competição. “Nos últimos cinco anos, ganhamos quatro campeonatos e uma taça.”

Joaquim Costa define-se como “uma pessoa do futebol”. Tem formação de treinador, cursos de massagista, primeiros-socorros, de árbitro e de treino específico para guarda-redes. Em várias funções, designadamente a de adjunto, já subiu duas equipas ao Nacional, o Souzense e o Grijó. “Ter criado este clube, deu-me muito sentido de responsabilidade e ensinou-me muito na vida, desde logo a lidar com pessoas. Quando me dizem que eu me dedico muito ao futebol respondo que o futebol, a mim, não me deve nada. Ensinou-me tanta coisa que eu tinha de pagar ainda.”

Para além do Juventus de Pedroso, e da sua atividade profissional — é controlador de qualidade numa fábrica de vidro —, Joaquim está também ligado ao futebol distrital. “Ao domingo de manhã dedico-me ao Juventus, ao sábado dedico-me ao Avintes, onde sou coordenador do futebol juvenil. Já tenho 25 anos de carreira, recebi o cartão vitalício da Federação.” Nunca foi expulso, orgulha-se.

Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso

Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso

Margarida Mota

Fala com emoção dos jogos internacionais do Juventus, cerca de 40, em Espanha e com equipas espanholas em Portugal. Os mais especiais realizaram-se em Vigo. Todos os anos, a equipa portuguesa defrontava uma seleção de jogadores das várias equipas de futebol popular da cidade. O intercâmbio — ora lá, ora cá — deixou de se fazer em 2005, por questões financeiras. “Era uma coisa saudável. Os espanhóis gostavam muito de vir aqui. Pediam sempre que servíssemos frango assado — “Costa, queremos pito!”, uma coisa banal para nós. Lá, em termos gastronómicos, os primeiros anos foram difíceis, não nos adaptávamos à comida deles. Para nós, uma grande ida a Espanha era levar a lancheira, almoçar na praia do Samil (Vigo) e depois fazer o jogo. Independentemente do resultado do jogo, toda a gente se divertia. Era uma festa.”

O Juventus era sempre o clube português convidado. “Tínhamos uma conduta muito boa, nunca arranjávamos problemas. Quando surgia alguma confusão acabava depressa. E no futebol popular não é preciso muito...”

Em Vigo, Joaquim Costa tornou-se “uma autoridade”. Nas cerimónias de entrega de prémios da Agrupación Deportiva Primavera — um campeonato semelhante à Liga de Ovar —, era apresentado como “o presidente da liga de futebol popular em Portugal”. “Eles queriam apresentar aos alcaides alguém importante. Então, não diziam que eu era de Pedroso, mas antes que era de Portugal. Para os alcaides, se eu fazia aqueles quilómetros todos para ali estar era porque o evento era importante, e ficavam mais predispostos a ajudar. Os espanhóis diziam que ganhavam muito dinheiro com a minha ida lá. Eu nunca me importei com isso.”

Enquanto estiver no ativo, os planos para ir a Turim ver a Juventus ao vivo ficam adiados. “Gostava imenso, mas ando sempre tão envolvido no futebol que dificilmente teria um espaçozinho para sair. A minha filha vai casar agora e eu disse-lhe: ‘Cuidado com a data...’”

De Turim, nunca recebeu qualquer reconhecimento ou mensagem de incentivo. “Mandei para lá fotos, galhardetes, uma apresentação de quem somos, mas não responderam. Se calhar a altura também não foi a melhor... A Juventus teve uma fase menos boa, por causa de casos de corrupção, até chegou a ser despromovida. Mas não desmotivamos. Não vou desistir, vou voltar a mandar.”

Equipa do Juventus de Pedroso que disputou o 1º Torneio Internacional de Veteranos, no passado fim de semana, em Pedroso

Equipa do Juventus de Pedroso que disputou o 1º Torneio Internacional de Veteranos, no passado fim de semana, em Pedroso

Juventus de Pedroso

Quando, em fevereiro passado, a Juventus esteve no Porto para discutir com o FCPorto a passagem aos quartos de final da Champions, Joaquim ainda rondou o hotel onde a “squadra” estava hospedada. Mas de Buffon, Dybala ou Dani Alves, nem ve-los. “É muito difícil chegar a estas equipas profissionais.”

Este sábado, não sabe se vai ver a final da Champions pela televisão. Estará em Lisboa, num torneio, com o Avintes. Na pior das hipóteses, grava o jogo e vê depois. Sem surpresa, vai torcer pela Juventus, ainda que a presença de Cristiano Ronaldo na equipa adversária o faça hesitar. “Gosto que ele ganhe sempre tudo, é português e tem conseguido superar todas as expectativas. Mas sendo o adversário a Juventus, e uma vez que o Real Madrid tem ganho tanta coisa, torço pela Juventus. O Buffon está em fim de carreira, merece um prémio.”

No apoio à Juventus, os de Pedroso abrem uma exceção quando os italianos defrontam o clube português por quem torcem. “Temos a simpatia, mas não aquele clubismo... Se a Juventus jogar com o nosso clube, torcemos pelo nosso clube. Se a Juventus ganhar, já não é tão dramático.”

Na época passada, o Benfica convidou Joaquim Costa para ser o coordenador-geral da Escola Geração Benfica, em Lever (V. N. de Gaia), perto de Pedroso. Joaquim disse “não” ao clube do seu coração. “Ia ganhar dinheiro, mas tinha de deixar o Avintes. Antes quero fazer parte da história do Avintes do que ser um qualquer que foi à procura de dinheiro. Tenho pena, mas o Avintes ajudou-me muito na vida e agora, que precisa de mim, eu não vou abandona-lo. São coisas que mexem com o nosso coração.”