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Vítor Pereira: “Este tempo que passei na Alemanha foi um conflito tremendo, frustrante”

O ex-treinador do TSV, que desceu da 2ª divisão alemã, falou pela primeira vez sobre a experiência na Alemanha (assim como uma série de outros assuntos), no I Congresso Internacional de Periodização Tática, esta tarde, no Porto. E está pronto para regressar aos relvados

Mariana Cabral

O I Congresso Internacional de Periodização Tática decorre na Universidade do Porto até sábado

Rui Duarte Silva

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Eis Vítor Pereira, ex-treinador do TSV (Alemanha), do Fenerbahce (Turquia), do Olympiakos (Grécia), do Al-Ahli Jeddah (Arábia Saudita), do FC Porto, do Santa Clara e do Sporting de Espinho, em discurso direto.

O professor Vítor Frade

"Tenho de agradecer a este grande senhor do futebol, que ainda está com um aspeto mais novo do que eu. Tivemos a sorte de apanhá-lo pelo nosso caminho. Quando entrei na faculdade, já o José Guilherme me dizia que ele era top. Mas nas primeiras aulas ele trazia aquele material todo e eu apontava frases e frases, mas, em casa, lia aquilo e não chegava lá. Era como um rádio, eu ainda estava longe da frequência do professor, havia muito ruído.

Só no segundo ano é que se fez luz na minha cabeça e as ideias começaram a encaixar. É por isso que digo a toda a gente que quer ser treinador: não vale a pena andarem a apontar exercícios quando estão nos cursos de treinador.

A paixão pelo futebol

Os meus olhos ainda brilham quando falo de futebol, ainda sinto as borboletas na barriga. O futebol dá liberdade à minha criatividade. Nunca estou satisfeito e estou sistematicamente a apaixonar-me novamente.

Quando deixei de jogar, a adrenalina dentro de mim era tanta que não parava de escrever. Às vezes até acordava a meio da noite para escrever. Fiz um dossiê enorme com o que achava importante trabalhar. Sabem quantas vezes o usei? Zero. Mas pensei tanto naquilo que quando o acabei já estava noutro nível, sem dar por ela. Permitam-se criar e experimentar e refletir porque é isso que vos vai permitir manter a paixão.

Os exercícios de treino

Os meus exercícios hoje são muito mais simples do que aqueles que quando comecei a treinar. Estive cinco anos na formação do FC Porto e tive oportunidade de fazer, errar, refletir. Quando cheguei ao futebol sénior sentia-me preparadíssimo, mas não por ler livros de exercícios. Aquele livro dos mil e um exercícios que nos oferecem no terceiro ou no quarto nível de treinador... nunca lhe tirei o plástico.

Os exercícios têm de ser meus, da minha cabeça. Tenho de andar sempre com um bloco ou com um guardanapo, ou o que for, para assentar tudo quando estou sentado a pensar, a beber a minha cervejinha, se for possível.

Para mim, jogar o jogo é controlá-lo do princípio ao fim, em todos os momentos. Mas reconheço que, por exemplo, no Santa Clara, tinha uma equipa muito organizada, mas faltava criatividade e liberdade. Por exemplo, o Hulk. Sempre que jogávamos em um ou dois toques, ele tinha grandes dificuldades, mas sem isso ele destacava-se. Ou seja, o exercício não pode ser castrador, tem de se expressar por si próprio. Se vocês têm necessidade de interrompê-lo muitas vezes, é melhor refletirem sobre o exercício.

Antigamente, antes do exercício, eu explicava tudo: o exercício é este, o objetivo é este e os comportamentos que eu quero ver são estes. Já não o faço, sabem porquê? Porque eles conseguem sempre fazer mais do que aquilo que a nossa cabeça consegue imaginar.

Vítor Pereira no I Congresso Internacional de Periodização Tática, organizado em homenagem a Vítor Frade, no Porto

Vítor Pereira no I Congresso Internacional de Periodização Tática, organizado em homenagem a Vítor Frade, no Porto

DR

O bicampeonato no FC Porto

Fui moldando a minha ideia de jogo, um jogo de posse, de domínio, de controlo dos ritmos a atacar e a defender. Não gosto de jogos partidos, isso é uma confusão na minha cabeça.

O meu FC Porto podia ter muitos defeitos, mas connosco a ganhar 1-0, a outra equipa cheirava a bola. E, se a perdíamos, ganhávamos logo outra vez, porque o jogo posicional era forte e mandávamos nos ritmos.

A Supertaça Europeia contra o Barcelona

Antes de entrar para o jogo, no meu quarto, ajoelhei-me e rezei. Pedi a Deus parar ter coragem e ser igual a mim próprio e para conseguir convencer os jogadores de que conseguíamos jogar assim [em pressão alta] contra o Barcelona.

Foi algo que aprendi nos iniciados do FC Porto. Íamos ter jogo contra o Sporting e sabia que eles nos iam pressionar. Então dei aos miúdos a hipótese de bater a bola longa para o avançado, para depois ganharmos as segundas bolas. O que eu fui fazer. Nunca mais jogámos, mesmo sem pressão. Porquê? Porque lhes pus aquela semente na cabeça e estraguei tudo. Perdemos 3-0. Na semana seguinte mudei aquilo e fomos jogar com eles e ganhámos 2-0.

Contra o Barcelona, tentámos condicionar todas as saídas de bola, encaminhá-los para as nossas zonas de pressão e fechar as linhas de passe próximas, porque se eles se instalassem no nosso meio-campo íamos andar atrás da bola o jogo todo. Perdemos, mas agradeci a Deus porque jogámos como queríamos jogar.

O golo de Kelvin ao Benfica

Só disse ao Kelvin para ir para cima deles quando recebesse a bola perto da área. O Liedson pensei que era rato de área e que se calhar podia encostar alguma segunda bola. Foi uma intuição. Estive ali cinco minutos com os adjuntos e eles a dizer que não, mas lá foi. Para mim, foi Deus, foi ele que me pôs aquela ideia na cabeça, porque eu olhava para o banco e só via aqueles dois.

Se tivéssemos empatado, não éramos campeões e teríamos perdido o campeonato sem derrotas. Em dois campeonatos tivemos uma derrota, não pode ser só sorte.

O ano na Arábia Saudita

As minhas opções são espetáculo, não é? Foi um choque tremendo. Podia aqui contar mil e uma histórias e ficávamos todos a rir um bocado, mas vou direto ao futebol. Para os árabes, culturamente, um futebol bem jogado é coração, é vê-los a correr de um lado para o outro. Temos de respeitar a cultura e ir introduzindo a tática de forma perspicaz.

Quis convencer os meus adjuntos que íamos conseguir jogar como pretendíamos. Mas também pensava: 'Há pouco tempo estava a jogar a Champions, como é que me vim meter nisto?' Claro que, ao final do dia, já tinha caído mais algum [risos].

Era muito dinheiro e ainda tinha mais um ano de contrato, mas não aguentei mais. Sabem porquê? Perdi a paixão. E assim não se consegue transmitir nada aos jogadores. Mas, na Arábia, ao fim de dois meses conseguíamos sair a jogar e ser muito fortes na transição defensiva - bem melhores do que agora na Alemanha.

A descida de divisão do TSV 1860 München

Este tempo que passei na Alemanha foi um conflito tremendo, frustrante, entre aquilo que gosto de ver e aquilo que os jogadores têm capacidade para fazer. Um treinador frustrado cria frustração e foi isso que me aconteceu este ano. Quem não tiver técnica não pode jogar futebol, meus amigos, não pode. Técnica e capacidade de decisão.

Um jogador de 30 anos abre para jogar, mas desconfiado, e depois diz ao guarda-redes: 'Não me passes'. E dá mais uns passos em frente. Eu insisto em abrir para receber, mas não ele diz que não dá. 'Ó mister, eu jogo assim há 30 anos, a pôr a bola na frente', dizia ele. 'Então se vires que vem pressão, dás um passo para dentro da área para repetir o pontapé de baliza'. E aconteceu mesmo, ele não queria a bola. É difícil desmontar isto, porque já não são miúdos.

O conflito é com a cultura do físico, ainda que haja algumas equipas que procurem jogar - o Guardiola deve ter deixado lá uma semente. Mas este plantel não tinha nada a ver com a minha forma de jogar. Normalmente dedico grande parte do meu treino à organização ofensiva e depois à transição defensiva. Na Alemanha, tinha de dedicar mais tempo à organização defensiva e à transição ofensiva. Não mudei a minha ideia, mas tive necessidade de dar passos atrás, porque percebi que não ia ter tempo para aquilo - e não tive.

A capacidade de resposta deles, especialmente sob pressão... Houve alturas em que estávamos a jogar até acima do nosso nível, mas quando a pressão aumentou, nos últimos jogos, já ninguém queria a bola, ninguém queria abrir para jogar, era só bola na frente. Com o Estugarda, numa quarta-feira à tarde, tínhamos 44 mil pessoas a ver. Muita pressão. Nos momentos de tensão, eles não conseguiam ter confiança para jogar.

Corri um risco e caí. Caí não, porque já me levantei outra vez. Tem de ser."