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Duarte Gomes

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ex-árbitro de futebol

Videoárbitro? Um projeto bebé que fazia falta ao futebol moderno e à arbitragem. Ponto

Duarte Gomes

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Vamos então fazer um balanço sobre a atuação do Sistema do Videoárbitro na Taça das Confederações.

Por partes. A tecnologia em si é boa. Muito boa.

Está bem construída, bem pensada e funciona (quase sempre) sem falhas. É útil e fazia falta ao futebol moderno e à arbitragem. Ponto.

A partir daí, a questão central passa a ser outra: a da eficácia da sua utilização.

E sobre este aspeto, convém recordar algumas coisas:

Este é um projeto bebé. Um projeto que está a dar os primeiros passos e que ainda se encontra em fase de testes.

A introdução do Sistema de Videoárbitro no futebol foi um passo corajoso e arrojado, que terá impacto fortíssimo no jogo, nos jogadores, no sistema tático das equipas e sobretudo na rotina em campo dos árbitros. Terá também impacto nas expetativas dos adeptos e de todo o universo do futebol.

Algo assim leva tempo. Leva tempo a interiorizar. A afinar.

A FIFA, à semelhança de outros países (como Portugal), quis participar nesta fase piloto. Porquê? Porque tenciona aplica-lo no Mundial de 2018, na Rússia. Legitimamente.

Qual é que foi o grande risco dessa decisão?

É que, ao contrário das federações nacionais (que têm jogos de menor dimensão mediática para realizar os seus testes), só o poderiam fazer nas suas competições: Mundial de Sub 20, Mundial de Clubes, Taça das Confederações...

Tudo montras de grande dimensão, vistas e escrutinadas por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Foi uma decisão compreensível mas arriscada, que comportava riscos.

E o certo é que, tendo corrido bem na maioria das vezes (existiram sete situações claras onde a colaboração do VAR foi crucial para decisão final), naturalmente que teve menos bem em momentos importantes.

Num deles, terá falhado o próprio VAR: o penálti do José Fonte (pisão a um jogador chileno) foi claríssimo nas imagens mas o videoárbitro teve leitura diferente e absteve-se de intervir.

Noutros dois, falhou apenas e só o árbitro: no México/Nova Zelândia (tudo correu mal) e, de forma mais clara, na Final entre Alemanha e Chile, onde um vermelho (evidente e inquestionável em todas as imagens) ficou por exibir.

Reparem: em nenhum desses erros falhou a tecnologia em si.

O que correu mal foi a sua aplicação pelos árbitros. A intervenção humana.

E o que é isto nos diz a todos?

Diz-nos que esta é mesmo uma mudança de paradigma e que a sua afinação requer tempo, treino e formação contínuas.

Um bom VAR tem que ter um conjunto de competências, técnicas e humanas, distintas. Muito distintas. E isso não se aprende de um dia para outro.

Tem que conhecer bem as leis de jogo. Tem que estar familiarizado com o protocolo aprovado. Tem que saber analisar imagens e identificar potenciais erros. Tem que saber como pedir informação ao técnico de imagem de forma a que ele entenda qual o incidente a rever e qual a melhor imagem/ângulo a facultar. Tem que perceber quais os timings da sua intervenção junto do árbitro e, sobretudo, tem que saber qual a melhor forma de passar essa informação ao árbitro - que está pressionado em campo - com serenidade, segurança e credibilidade.

Tem ainda que saber juntar tudo isso a uma enorme eficácia, ou seja, fazer muito e bem, o mais rapidamente possível.

Isso implica, de facto, muita coisa.

E implica sobretudo que o VAR tenha uma forte personalidade. Que seja imune a pressões ou ruídos exteriores e que tenha a clareza de saber obedecer apenas e só à sua consciência.

Em suma, deve ser alguém tecnicamente muito competente e pessoalmente capaz, independente e corajoso.

Grande parte dessas competências, sobretudo as técnicas, requerem muito treino.

Treino em sala, com visionamento exaustivo de imagens e com a realização de sucessivas simulações (role play) ao nível da comunicação.

Mas também "treino" em competição. Porque só o ambiente real, a pressão dos tempos de espera, o ruído infernal do público e o enorme stress competitivo, colocarão verdadeiramente à prova a capacidade de alguém tomar excelentes decisões, de elevada responsabilidade, no menor espaço de tempo possível.

Um excelente árbitro não será, necessariamente, um excelente VAR. E é importante que todos entendamos isso com urgência.

Não esperem milagres. Seria pedir demasiado nesta fase e penso que já todos percebemos porquê.

Mas não duvidem: erros grosseiros, de lances objetivos e transparentes, que escapem ao olho do árbitro em campo, deixarão de existir.

E com o tempo, muitos outros também. Haja tolerância e tempo para deixar crescer, sustentadamente, uma iniciativa que tem tudo para dar certo.