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Gelson não joga, Gelson bisa

O campeonato está de volta e, cinco anos depois, o Sporting voltou a ganhar um jogo fora de casa e sem sofrer golos. Os leões venceram o Desportivo das Aves (2-0) com um bis de Gelson Martins e com Adrien e Bruno Fernandes a coabitarem - mas a não encaixarem no jogo

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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Há tantos, mas tantos, clichés no futebol, como grãos de areia numa qualquer praia portuguesa, por mais rochas ou pedras que tenha lá pelo meio. Um deles poderá ser associar o Desportivo das Aves a um senhor calvo e de bigode, que é professor e sempre treinou o clube nas épocas anteriores em que este conseguiu subir à primeira liga. Aconteceu três vezes, o que é pouco, e a imagem colou. Outro é ouvir um treinador dizer que, por mais parecidos nas posições e nos sítios por onde andam no campo, dois jogadores são compatíveis - são bons de bola e os bons têm de jogar juntos, ponto final.

Mas sem parágrafo.

Porque quem o disse é Jorge Jesus, o treinador que sempre se julga dono da sabedoria e falava de Adrien Silva e Bruno Fernandes. O capitão que está no centro de como o Sporting joga e, quando tosse, a equipa fica engripada, e o médio que mostra o melhor dele quando corre em campo na posição do loiro que, todos os verões, é um vê se te avias para averiguar se vai, ou não, ser vendido. Apenas um deles tem titular como alcunha e o outro, portanto, teve de jogar onde pôde.

Vinte minutos passam no jogo até Bruno Fernandes receber uma bola, rasteira, virar-se com ela e ficar de frente para a baliza. Já houve tempo para os leões encostarem a linha dos defesas ao meio, de reagirem rápido às bolas que perdem e de colocarem os laterais por dentro, para atraírem adversários e deixarem Acuña e Gelson como antílopes com mais hectares de pradaria para correrem. Até se vê Bruno Fernandes a acolher uma segunda bola no peito, desviá-la de um adversário e, na área, rematá-la pouco ao lado do poste esquerdo da baliza. Mas é um ato isolado.

Ele está ensanduichado entre as três linhas que o Aves mantém encolhidas à frente da área, quando defende. Não pressionam, tão pouco são intensos sem a bola, mostram sintomas de serem a soma de onze jogadores em que apenas dois sobram da equipa que subiu à primeira liga, na época passada. Por isso dão espaço e sofrem com as corridas movidas a raça de Acuña e os dribles de Gelson, ou não estão nos sítios certos para reagirem a contra-ataques.

Dão espaço nas alas e nas costas, mas raramente no meio, onde está Bruno Fernandes, um tipo que só vive se tiver a bola nos pés e jogar com ela, e apenas existe se não tiver espaço ou tempo com ela. Como o que tem para lhe tocar duas vezes de calcanhar, lançar Acuña e deixar o argentino desmarcar Gelson, após um canto, para o extremo fintar um adversário e rematar de pé esquerdo (21’) para bater Adriano Facchini.

FRANCISCO LEONG

Um contra-ataque dá o golo ao Sporting, que domina, controla e joga ao ritmo que deseja, com um percalço um pouco antes do intervalo, quando a apatia faz Piccini perder uma bola e Coates parecer lento atrás de Guedes, que foge do uruguaio até rematar para Rui Patrício parar a bola.

Algo se passa com os dois do cliché, contudo.

Não é que um não encaixa no outro. Em Adrien, com os minutos, nota-se a perde de ritmo e rotação por ter passado férias e várias semanas da pré-época desfasado da equipa, por culpa da Taça das Confederações. Perde gás. Em Bruno Fernandes, vê-se como o estilo de o Aves se defender não o favorece, porque ele requer a bola, um jogo de toque, troca de passes e gente a correr à frente dele - e o jogo pede alguém que, atrás de Bas Dost, corra, se desmarque, faça diagonais e se mexe para ir buscar a bola no espaço ou abrir espaços para outros a terem.

É o que Daniel Podence, o pequenote que o substitui, faz depois.

Adrien e Bruno Fernandes são substituídos por volta da hora de jogo. O Sporting melhora, não tanto por isso, mais porque o Aves urge e precipita-se para a frente com Vítor Gomes em campo e arriscar mais nos passes para libertar Salvador Agra ou Guedes. O recém-promovido arrisca e, com isso, deixa mais espaço nas costas para Battaglia e Podence, os corredores que Jesus tinha no banco, conduzirem a bola até à área.

Quando Acuña, na esquerda (75’), arranja forma de cruzar a bola para a área - logo após o intervalo, o argentino, que é merecedor do elogio de se cansar mais a defender do que a atacar, bate forte numa bola que vai à barra -, é o ponto final. Diego Galo molda um corpo numa acrobacia, para cortar a bola, mas amortece-a para Gelson Martins, que perto da pequena área remata, ao segundo toque, para bisar e fechar o resultado. Facchini, três minutos volvidos, pára duas bolas num par de segundos, vindas dos pés do extremo e de Piccini.

O Sporting ganhou com calma, sem acelerar muito as jogadas e a confiar mais na velocidade com que Acuña e Gelson fazem as coisas com a bola. Ainda está algo lento como equipa e, com a bola, sem a intensidade que se quer para desmontar um adversário que se feche ou organize mais perto da área. Mas, retomando os clichés, é preciso tempo para que uma equipa com cinco reforços (ou nove, como o Aves) comece a jogar e a carburar, como deve ser, como equipa.

Até lá, Gelson bisa.

P.S. JJ, questionado sobre Adrien e Bruno Fernandes, tenha preferido justificar a posição do segundo sem referir o primeiro:

"O Bruno Fernandes tem golo, segura melhor a bola e assiste melhor os colegas, como segundo avançado, ou segundo médio. O Daniel tem mais velocidade, mas sem golo, desestabiliza de certa forma as defesas. Mas, em termos de produção, ainda não é o que o vou ensinar a ser."