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Hoje temos quarta-feira de Lotação Esgotada com os filmes “A Panela de Pressão dos Culpados” e “Perigo de Incêndio na Enfermaria”

FC Porto e Benfica arrancam o campeonato esta quarta-feira com casa cheia no Dragão e na Luz. Os azuis e brancos recebem o Estoril de Pedro Emanuel, que tão bem conhece os cantos à casa, enquanto o Benfica tem um daqueles primeiros adversários muito incómodos: o Sp. Braga

Lídia Paralta Gomes

Carlos Rodrigues/Getty

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Era um acontecimento. A democracia ainda era jovem, o povo tinha curiosidade e cada quarta-feira servia para matar a sede. As noites de Lotação Esgotada mostraram a Portugal pela primeira vez clássicos como “Serenata à Chuva”, “A Janela Indiscreta”, “O Padrinho” ou “Um Homem Tem Três Metros de Altura” (como não amar as traduções portuguesas?) e provocaram um ataque de histeria púdica coletiva aquando da passagem de “Instinto Fatal” nos idos de 1995. Eram noites obrigatórias para quem gostava de cinema - e também para os outros, na medida em que até 1992 só existiam dois canais e não havia internet (sim, houve tempos de trevas e obscurantismo em que não existia internet).

Pois bem, após uma demorada busca no Guia TV do canal do estado, percebi que, por estes nossos dias, a Lotação Esgotada foi empurrada para as noites de domingo. Sabiam? Provavelmente não. Não vos condeno.

Mas, saudosistas e amantes do vintage, alegrem-se. As noites de Lotação Esgotada estão de volta esta quarta-feira. Com uma pequena diferença: desta vez não há estreias cinematográficas mas sim as primeiras aparições de FC Porto e Benfica na liga portuguesa, edição 2017/18, com dois estádios onde não cabe nem mais uma alminha a acompanhar.

Há duas sessões seguidinhas com casa cheia, uma a norte, outra a sul e logo dois desafios passíveis de se tornarem thrillers para os favoritos.

Seguem-se as sinopses.

Sessão 1: “A Panela de Pressão dos Culpados” (ou FC Porto-Estoril, às 19h, Sport TV1)

Um homem, uma equipa, uma panela de pressão. Se há coisa em que o FC Porto já ganhou esta temporada face à anterior é nas conferências de imprensa. Sérgio Conceição pode não ter o jeito de Nuno Espírito Santo para o desenho, mas ao nível do discurso, já não há cá “fortalezas”. E depois de no encontro frente ao Gil Vicente ter admitido abertamente que não tinha gostado nada do que tinha visto, criticando o relaxamento de uns e o não aproveitamento de oportunidades de outros, Sérgio voltou a dar show na antevisão ao primeiro jogo do campeonato, frente ao Estoril, deixando para lá a abordagem calma e fria a um dos temas recorrentes quando falamos de estreias: a pressão.

Octavio Passos/Getty

Quando questionado sobre a possibilidade da equipa sentir mais pressão após uma pré-época bastante positiva, Sérgio Conceição falou e disse. “Parece que somos culpados de fazer uma boa pré-época! Quem é que tem culpa de mostrar uma equipa competitiva? Parece que é um pecado! A panela de pressão está em casa! A pressão é sempre positiva: os jogadores sentem pressão diariamente, os resultados da pré-época não colocam mais ou menos pressão”, atirou.

Portanto, o pecado de jogar bem não mora ao lado, mas sim no Dragão (ao contrário da panela de pressão, que mora em casa) e o FC Porto, este FC Porto que foi impressionando na pré-temporada e abre sem culpas a época oficial frente ao Estoril, equipa que no último ano até criou algumas dificuldades aos dragões, que venceram sempre pela margem mínima (1-0 em casa e 2-1 na Amoreira) e sempre com golos marcados já para lá dos 80 minutos.

Octavio Passos/Getty

Esta temporada acresce o facto do treinador do Estoril conhecer bem o Dragão, não fosse Pedro Emanuel um antigo jogador do FC Porto, onde começou também a carreira de treinador, como adjunto de André Villas-Boas.

A seu favor, além do discurso, dos resultados e das figuras de estilo, Sérgio Conceição tem a história: é preciso recuar bastante para ver a última derrota azul e branca no primeiro jogo do campeonato. Foi frente ao Sporting, em Alvalade, na época 2001/02, já lá vão 16 anos.

Sessão 2: “Perigo de Incêndio na Enfermaria” (ou Benfica-Sp. Braga, 21h, BTV)

Então o plot é assim: num estádio que esteve em perigo de ser interditado, o campeão nacional com oito lesionados tenta controlar o fogo que o rival promete trazer até à capital.

Expliquemos. Na antevisão ao encontro com o Benfica, Abel Ferreira, técnico do Sp. Braga, disse querer virar a seu favor o inferno da Luz. “Temos de ser capazes de transformar o ruído em gasolina”, disse o antigo defesa-direito. Isto, logo para início de conversa, era um belíssimo negócio, derivado ao facto dos preços dos combustíveis estarem pela hora da morte. Depois, também dava um certo jeito desportivo ao Sp. Braga, quanto mais não seja porque uma vitória dos bracarenses seria a primeira da história (sim, da história toda) da equipa na Luz.

FRANCISCO LEONG/Getty

Não será exatamente fácil provocar um incêndio na Luz, na medida em que o Benfica vem de ganhar a Supertaça. Por outro lado, o boletim clínico dos encarnados está, e à semelhança do que chegou a acontecer no ano passado, muito concorrido e com alguns habituais pelo meio, caso de Grimaldo. Mas na enfermaria também estão Mitroglou, André Horta, Zivkovic, Júlio César, Carrillo, Krovinovic e Cervi, alguns recuperáveis para o jogo de estreia no campeonato, outros nem por isso.

Da parte dos minhotos, houve muitas saídas, ainda mais entradas e a pálida imagem deixada frente ao AIK deixa uma espécie de expectativa sobre o que vale este Sp. Braga, que na época 2012/13 também começou a época na Luz e, na altura, saiu de lá com um empate (2-2). Aliás, nos últimos 10 anos não se pode dizer que o Benfica tenha passado com distinção o exame do primeiro jogo da Liga: ganhou os três últimos arranques de campeonato, é verdade, mas antes vinha de sete empates ou derrotas.