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Bas Dost, ou como rematar só quando for obrigado

O avançado que marcou 36 golos a época passada decidiu o Sporting-V. Setúbal com um golo de penálti, a três minutos do fim - na primeira vez que rematou à baliza, depois da equipa ser intensa e veloz e lhe dar muitas bolas que recebeu, ou passou, na área

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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A vida não teria piada alguma, nenhum suspense, desafio nulo, caso a telepatia fosse capacidade que todos dominássemos e pudéssemos usar quando nos apetecesse. Podia ser interessante ao início, mas ler a mente do outro, imagino, não demoraria a ter bem mais do que um quê de desinteresse - estar ciente do que os outros estão a pensar, do que vão fazer e de como, quando e como o pretendem realizar, a toda a hora, perderia a piada. Talvez porque as coisas são tão interessantes quanto mais desconhecidas e inesperadas forem para nós.

Não há, que se saiba, pessoas telepáticas que tenham uma lupa para olhar o interior da cabeça dos outros e cuscar o que lá está. Muito menos Jorge Jesus, que brincou “ainda não ter essa capacidade” quando lhe perguntaram se sabia o que ia na mente de Adrien Silva, o capitão e motor e médio que dá rotação à equipa e que está fora de forma por ter passado uma pré-época fora, de férias, como se nota na primeira parte do jogo contra o Vitória de Setúbal. O treinador não faz ideia do que o jogador, que volta a estar num verão de vai-não-vai-embora, pensa, e a vida assim, nesta ignorância, tem mais piada.

Obriga a que se tirem ilações e se pense com o que se vê e antevê.

Pela forma como o Sporting se comporta, até ao intervalo, sem saber o que lhes vai na cabeça, acho que a ideias dos leões era entrarem no jogo a abrir, acelerados, a trocarem a bola rápido e a subirem as linhas para encostarem os sadinos à própria área. As cabeças de Gelson, Acuña, Adrien e Podence, seguindo o que sai da cabeça do treinador, terão pensado em arrancar de rompante e desconfortar o adversário com a ideia de que a bola acabaria por entrar na baliza por estarem perto dela. E, assim, se começaria a resolver cedo um jogo.

Esta pressa e urgência e ritmo forte iniciais, contudo, culminaram num remate de Acuña às mãos do guarda-redes e de outro, no calcanhar de Gelson, que apesar de espetacular, fez a bola voar sobre a barra. Um par de tentativas que acontece até aos 10 minutos, mais ou menos a altura em que o deixou de haver peso - leia-se, pulmão e pernas - para continuar a carregar, ao máximo, no pedal do acelerador. E mesmo pressionando alto, libertando espaço por fora e fazendo as coisas de maneira a que houvesse sempre tipos perto da área, com a bola, e de frente para a baliza, tudo o que o Sporting mais fez, até ao intervalo, foi sacar muitos cruzamentos que quase não deram em outros remates.

Parecia que havia cerimónia quando era altura para o fazer e, por isso, não se ouvia mas lia-se nos lábios de Jesus - “Chuta à baliza, c******!”. Não sei o que lhe ia na cabeça, porventura estava farto de tanto tempo perto da área com tão pouco proveito.

Porque faziam tudo bem, menos a parte de rematar a bola à baliza, os jogadores, e o treinador, terão pensado que mais valia carregar no mesmo. Começaram a segunda parte a viverem da mesma forma, pressionantes, intensos, rápidos no passe e nas jogadas, e viram a felicidade de Adrien a desviar num adversário e a bater de frente na barra. Aos poucos, tornaram-se ainda mais iguais ao que eram, a multiplicarem os passes para as alas e os cruzamentos para a área, que ou falhavam os alvos, ou eram acolhidos pelo altruísmo de Bas Dost, se comportava como o fiel empregado que só pensa em servir os outros.

O holandês apenas passava as bolas que recebia, distribuía oportunidades em segunda mão, recambiava passes e não os rematava. E o Vitória, morto-vivo com a bola e enfiado com os onze jogadores no caixão em que protegia a área, mantinha as linhas da equipa juntas. Roubava o espaço pelo centro do campo e obrigava, ainda mais, os leões a jogarem por fora e a demorarem mais tempo a fazer a bola chegar à área. Apenas quando Doumbia entrou, se fixou na área e rematou (por duas vezes) as bolas que Bas Dost passava, é que os sadinos começaram a abrir buracos no meio. Havia duas referências para marcar, demasiada atenção para dividir.

Os minutos passavam, a urgência aumentava e o tino, com ela, diminuía. A bola chegava à área sadina cada vez mais pelo ar, mesmo que já houvesse Bruno Fernandes, e os pés dele, certeiros, com técnica e ordeiros em qualquer confusão, em campo. O Sporting ia sendo cada vez mais direto, sem escalas de passes, rumo à área, e num desses cruzamentos com endereço em Bas Dost, o holandês de quase dois metros foi tocado, nas costas, por Nuno Pinto. Deixou-se cair e o apito e o braço do árbitro apontaram para o sítio onde, sim, ele seria obrigado a rematar a bola à baliza.

O avançado que mais golos (34) marcou no último campeonato não olhou para a bola, esperou pelo tombo do guarda-redes e rematou-a para o outro lado, com calma. Os leões suspiraram com ele, um tardio alívio dos 87 minutos, e garantiram a segunda vitória da época.

Fizeram-no com intensidade, velocidade por vezes aos repelões, facilidade em chegar a uma área coberta por tanta gente, e só tiveram dificuldade em inventar soluções ao centro, perante tanta dependência em cruzamentos caçadores de Bas Dost - que, assim, tão avesso a rematar as bolas que lhe chegam, não tem metade da piada.

Mas, se telepatia houvesse, saberíamos o que lhe passou pela cabeça neste jogo.

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