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Entre o grande e a equipa que joga como um grande, a vitória só chegou pelo buraco da agulha

O Benfica viu-se e desejou-se para vencer o Chaves, num jogo em que a equipa de Luís Castro jogou muito e muito bem até entrar em falência física. A vitória encarnada só chegou aos 90'+2, por Seferovic, num minuto que já foi fatídico, mas que esta segunda-feira foi de felicidade para os campeões nacionais

Lídia Paralta Gomes

JOSE COELHO/LUSA

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Luís Castro tem um proposta de jogo bem definida. E essa proposta passa por jogar futebol de qualidade, atacar com futebol apoiado, com critério - ou seja, jogar como equipa grande, mesmo contra um dos grandes.

Mas se o futebol está lá, faltará ainda ao Chaves a endurance para aguentar 90 minutos no mesmo registo e com a mesma intensidade frente a uma equipa como o Benfica - não porque não haja qualidade, mas porque o físico não aguenta tudo isso. E se o Chaves perdeu este jogo, foi mesmo porque, em bom português, estourou.

Um estouro que o Benfica acabou por só aproveitar no final, mesmo ao cair do pano, com Seferovic a provar que também há felicidade reservada para os encarnados ao minuto 90’+2, uma felicidade encontrada no buraco da agulha, por entre as pernas de Ricardo, o único sítio por onde aquele remate do suíço poderia entrar.

MIGUEL RIOPA/Getty

Em boa parte do primeiro tempo, os papéis da lógica do futebol inverteram-se: o Chaves a jogar em ataque organizado, em poucos toques, a chegar com facilidade à área contrária, muito graças à qualidade de passe de Tiba e à magia nos pés de Jorginho e Matheus Pereira, enquanto o Benfica tentava aproveitar os pontos fracos dos flavienses, procurando jogar em profundidade, nas costas de uma sempre muito subida defesa dos da casa.

E entre o ter e o haver, a verdade é que houve mais futebol do Chaves, mas as melhores oportunidades foram sempre do Benfica, com Salvio, em evidência, a falhar um punhado delas. Primeiro aos 8 minutos, num remate cruzado ao qual Ricardo se opôs bem. Dez minutos depois, de novo o argentino, que após um canto sacou de um daqueles remates raros que aliam força à colocação, esbarrando apenas e mais uma vez na atenção do guardião do Chaves. A maior oportunidade de todas aconteceria, porém, aos 25 minutos, quando lançado em profundidade, o argentino rematou mal, mas a tabela em Ricardo fez a bola rolar caprichosamente para a baliza, com Nuno André Coelho a salvar praticamente em cima da linha.

Nos intervalos dos falhanços de Salvio, o Chaves jogava bem, bastante bem até. Jorginho, do lado direito, e Matheus, do lado esquerdo, iam dando água pela barba a André Almeida e Eliseu - que tantas vezes foram obrigados a jogar em falta para os travar - mas faltava sempre o último homem, o elemento que desse sequência à proposta de Luís Castro.

Com o Chaves a não materializar em golos a superioridade no chamado jogo jogado, o final da 1.ª parte trouxe mais dois lances de perigo do Benfica. Aos 40’, a bola só não foi direitinha para um Seferovic isolado em frente à baliza porque Nuno André Coelho fez um corte de belo efeito, de calcanhar - ou pensam que o bonito está apenas reservado aos atacantes? E cinco minutos depois, novamente Nuno André Coelho decisivo: Seferovic e aquela locomotiva que parece trazer no peito adiantam-se rumo à área, mas o central cortou bem, em carrinho, no momento certo.

Aquele minuto 48… e o 90’+2

Os bons jogos são aqueles que não têm quebras, que recusam momentos mortos, que dizem não ao controlo. E as duas equipas voltaram dos balneários sem vontade nenhuma de tornar o que estava a ser um belo jogo de futebol em outra coisa qualquer.

De alguma forma, a 2.ª parte foi ainda melhor que a primeira: foi, pelo menos, mais louca. E apesar do ascendente do Benfica, houve perigo nas duas balizas. Paradigmático do que acabei de escrever mesmo foi o minuto 48.

JOSE COELHO/LUSA

Primeiro, Jardel falha espectacularmente o corte a um cruzamento na esquerda do ataque do Chaves e Jorginho, rapaz de talento e que, nota-se, aprendeu umas coisas enquanto junior na academia do Manchester City, aproveitou o voo falhado do brasileiro para ficar bem colocado em frente a Varela. O remate saiu em jeito, com bom jeito, mas o guarda-redes encarnado esticou-se bem - foi a primeira vez que o Chaves criou perigo iminente na baliza do Benfica.

E nada mais do que na jogada seguinte, a resposta, com Jonas a acertar no ferro após um belo cruzamento atrasado de Salvio.

A partir daí houve mais Benfica ao ataque, com Cervi em bom plano até, de forma estranha, Rui Vitória optar por o tirar de campo. O Chaves ainda voltou a criar perigo num remate cruzado de Jorginho, mas a quebra física foi mais que evidente e a partir do último quarto de hora a ordem foi mesmo para aguentar e suster o ataque encarnado e confiar em Ricardo, guarda-redes experiente que foi respondendo com segurança aos remates mais perigosos.

E talvez por isso aquele minuto 90’+2 tenha sido particularmente inglório para o guardião do Chaves, ao ver um cruzamento de Rafa ser emendado por Seferovic, com um toquezinho subtil, suficiente para colocar a bola por entre as suas pernas, ali, no buraco da agulha.