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Há mais vida além do VAR?

Agora que o videoárbitro, a mais recente alteração às leis do futebol, está em uso, eis outras que podiam entrar - com as apreciações técnicas dos especialistas Pedro Henriques e Duarte Gomes

Diogo Pombo e Lídia Paralta Gomes

Getty Images

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VAR significa Video Assistant Referee, e teremos de nos habituar a esta sigla. O videoárbitro já está a funcionar e até foi bastante utilizado na primeira jornada do campeonato. É a mais recente alteração às leis do futebol, talvez a maior de sempre, pelo que resolvemos olhar para outras coisas que, porventura, poderiam ser mudadas na modalidade. Com a ajuda de dois homens que fizeram das regras profissão — Pedro Henriques, que até está mergulhado numa tese de doutoramento sobre o tema, e Duarte Gomes.

BALIZAS MAIORES
Porque a evolução 
só funcionou 
com os jogadores

Há muito, muito tempo, um conjunto de iluminados, as pessoas em cujas cabeças se acenderam as lâmpadas de como devia ser jogado o futebol, definiram as dimensões de tudo: campo, bola, linhas, áreas e, claro, balizas. As primeiras regras do futebol foram escritas em 1863 e mantiveram-se mais ou menos inalteráveis desde então. Ou seja, a baliza sempre teve 7,32 metros de largura por 2,44 metros de altura, e nada mais — enquanto a evolução, durante mais de 100 anos, funcionou nos humanos que rematavam bolas à baliza e nos que lá estavam para as defender. “Foi feito um estudo, ainda no século XX, no qual se concluiu que, em média, nos últimos 100 anos, os europeus cresceram cerca de 10 centímetros. Os holandeses, por exemplo, cresceram perto de 17 centímetros, em termos médios. Ou seja, os atletas hoje estão, garantidamente, mais altos e mais rápidos”, explica o ex-árbitro Pedro Henriques, alicerçando o argumento de que as balizas, a bem do espetáculo e dos golos, poderiam ser maiores. Conclusão: “Houve uma evolução na dimensão dos intervenientes, mas não na dimensão das balizas.” O ex-árbitro aplica a mesma lógica à distância (9,15 m) a que as barreiras ficam de uma bola parada. “As distâncias deixaram de fazer sentido”, argumenta, para defender que “faria toda a diferença” fazer “umas pequenas alterações, como passar de 7,32 metros para 8 metros ou de 2,44 metros para 2,60 metros”.

ADEUS FORA DE JOGO
Ou como acabar 
com o futebol como 
o conhecemos

Em janeiro, alguém que fez os simples mortais sem jeito para a bola curvarem-se perante a sua habilidade de marcar golos sugeriu a hipótese de os foras de jogo deixarem de existir. “Tenho muita curiosidade sobre como funcionaria o futebol, porque cada vez mais se parece com o andebol”, disse Marco van Basten, outrora distribuidor de golos holandês, hoje diretor para o desenvolvimento na FIFA. Ora, acabar com a lei do fora de jogo no futebol seria algo que “mexeria completamente em tudo o que conhecemos” da modalidade, resume Pedro Henriques. E não dá muito trabalho a perceber porquê. Tudo quanto são formas de uma equipa se comportar quando não tem a bola seria alterado; o fora de jogo, no fundo, é “a lei tática do futebol”, como diz o antigo homem do apito português, e tocar em regra tão cimentada implicaria falar, deliberar, discutir com “os grandes mestres da tática”. Duarte Gomes tem palavras mais duras para a ideia do holandês. “Já foram feitos testes de jogos sem foras de jogo e as coisas foram muito caricatas. Para já, não aumentou o número de golos, ao contrário do que se pensava: os jogos ficaram 0-0 ou 1-1. Mas sobretudo criou uma desorganização tática e uma perda tremenda de qualidade. Os jogadores começaram a colocar-se todos junto à área, e o jogo passou a ser muito direto. Cada pontapé livre, cada lançamento lateral, cada falta passou a ser um cruzamento direto para a área.”

MICROFONE NO ÁRBITRO
Mais transparência 
e um pouco de entretenimento

Há um lance duvidoso e o VAR entra em ação. Mas quem está no estádio não tem acesso a repetições ou ao processo de decisão dos juízes. A dúvida permanece. Um microfone no árbitro com ligação ao sistema sonoro do estádio (à semelhança do que se faz na NFL ou no râguebi) poderia ser uma solução? Duarte Gomes diz que sim: “Acho que contribuiria para reforçar a transparência, e as pessoas ficavam mais entretidas, porque em momentos parados do jogo, na expectativa da decisão, em vez de estarem entediadas, iam acompanhando o processo.” O antigo árbitro sublinha que “aqui e ali” as comunicações iriam “causar muito desconforto”, principalmente quando a decisão fosse “contra a equipa da casa ou mais dúbia”, mas o microfone parece-lhe uma solução “muito interessante, tal como a questão da imagem televisiva no estádio, pelo menos aquela que presidiu à alteração da decisão, para as pessoas saberem qual foi a imagem que fundamentou a decisão do VAR”.

SUBSTITUIÇÃO TEMPORÁRIA
Ou até mesmo volante

Estamos a meio de um jogo, a bola está num canto, há um pé a cruzá-la para a área e duas cabeças, aventureiras, a sincronizarem as trajetórias na tentativa de chegarem lá primeiro. Chocam, a cena é feia, a colisão abre feridas em ambas, e dois jogadores ficam na relva, a sangrar. A dinâmica de o árbitro reparar, apitar, chamar as equipas médicas, elas chegarem ao local, cuidarem dos feridos, levarem-nos para fora do campo e embrulharem as cabeças em ligaduras demora algum tempo. Talvez uns bons 10 minutos. Uma dezena de minutos em que as duas equipas ficam com menos um jogador, ou apenas uma fica precária, o que já seria injusto. Neste caso, poder-se-ia permitir a realização de uma substituição temporária, um jogador sair do banco e jogar enquanto o lesado estivesse a ser tratado. E se fôssemos mais longe? “Uma substituição volante, que permitiria ao treinador estar constantemente a intervir no jogo, a colocar mais um avançado, mais um defesa. Ou seja, uma substituição sem limite”, sugere Pedro Henriques, para que quem dá ordens numa equipa pudesse mexer numa peça como lhe conviesse. Duarte Gomes também é partidário das substituições volantes, supervisionadas pelo 4º árbitro. “Muito do tempo que se perde no jogo é no processo de substituições, e as equipas que estão a ganhar fazem-no de forma muito demorada.” O antigo juiz apoia um sistema semelhante para as intervenções dos massagistas em casos pouco graves. “Com isto não se perde tempo e não se promove a questão da fita.”

TIME-OUT
Para que a influência dos treinadores seja maior

Já ouvimos vezes sem conta um treinador queixar-se de que, durante os 90 minutos, pouca mão tem no que se passa dentro de campo. Ou melhor, a sua intervenção é quase nula, por mais que grite, gesticule, abane os braços ou tente corrigir o que os jogadores estão a fazer. E se, como no andebol ou no futsal, o treinador tivesse o poder de parar tudo e ter um tempo para falar a quem está a jogar? “Um treinador não pode estar 45 minutos a tentar chegar aos seus jogadores e não o conseguir. Poderia haver um time-out para aumentar a influência dos treinadores no jogo”, concorda Pedro Henriques, definindo essa interrupção em dois minutos, porque tem de se ter em conta “o tempo de o guarda-redes vir a correr da baliza”. Tal regra daria mais tempo de paragem aos jogos, claro, mas o antigo homem do apito, inspirando-se no desporto norte-americano, sugere que o tempo de tais interrupções poderia ser preenchido com anúncios e publicidade.

E UM CANTO MAIS CURTO?
Querem mais golos, então batam a bola mais perto

Quando a bola sai pela linha de fundo é assinalado um canto, que leva a bola a ser cruzada para a área a mais de 30 metros. A quantidade de cantos costuma ultrapassar a dezena, embora o número de golos não esteja a aumentar. O problema poderá estar na distância a que a bola é cruzada. Daí que uma hipótese seria criar um canto curto, marcado no ponto em que a linha da grande área toca na de fundo (a cerca de 16 metros do poste mais próximo), caso a bola saísse pelos limites da grande área. Isto já foi experimentado pela FIFA no último Mundial de sub-17, diz Pedro Henriques.

CARTÃO AZUL
Uma suspensão em vez 
de um simples aviso

Seria uma ideia ‘roubada’ ao hóquei em patins, em que o cartão azul, para infrações mais graves, vale dois minutos de suspensão. Duarte Gomes vê com bons olhos a sua adaptação ao futebol. “Há quem fale num cartão para uma suspensão temporária, há quem diga que o primeiro amarelo também podia ser uma suspensão temporária, depois o tempo (2, 5 ou 10 minutos) seria de escrutinar. Acho que era uma forma de punir uma equipa e não só um jogador. O primeiro amarelo, no fundo, não muda nada no jogador, só mesmo o ter o cuidado para não levar o segundo. Ele fica em campo e a equipa não perde nada”, explica.

Texto originalmente publicado na edição de 12 de agosto de 2017 do Expresso