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A prioridade que devia estar num rapaz chamado Bruno

O Sporting, que parecia estar com dificuldades em marcar golos, foi a Guimarães golear o Vitória, por 5-0, e de lá voltar com uma certeza - funciona melhor com Bruno Fernandes, que marcou dois (como Bas Dost), jogou muito e fez jogar a equipa

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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A época começou para o Sporting há 54 quentes e abafados dias. Mais coisa, menos coisa, foi há oito semanas, e quem lá manda preencheu este tempo com treinos diários, por vezes bidiários, e umas poucas quantas folgas pelo meio, porque ninguém é de ferro e o descanso é amigo do progresso. Todo esse tempo, já lá vão dois meses, tem servido para uma equipa se formar à medida que os jogadores se vão formando uns com os outros, o que não é fácil, sobretudo, por terem chegado 16 tipos que, no último dia da temporada anterior, não estavam lá.

É por isso que Jorge Jesus, nisto, não é especial, é como todos os outros treinadores que andam no futebol, e se queixa da falta de tempo. “Como é óbvio”. No tempo que os dias, as horas, os minutos e a atenção dos jogadores lhe dão desde 26 de junho, diz ele que a prioridade tem sempre sido trabalhar toda a gente para, sozinhos e em conjunto, reagirem aos momentos de um jogo de futebol em que não têm a bola e é preciso recuperá-la ou, pelo menos, impedir que ela se aproxime da baliza. O treinador diz que daí vem a justificação para o bom de os leões não sofrerem golos em três jogos, e o mau de ainda lhes parecer custar tanto a marcá-los.

Jesus sendo Jesus, acha que o tempo que tem dedicado à organização defensiva melhorou quem joga à defesa e eles, por consequência, melhoraram a equipa e “puxaram-na para cima”, faltando acontecer o mesmo nos momentos ofensivos porque ele ainda não se focou muito nisso - apesar de ter um adjunto, Raúl José, responsável pelo jogo atacante.

Não tem sido prioridade, frisou e sublinhou, mas não há treino ou treinador que prepare o que Bruno Fernandes, bola recebida, corpo virado para a baliza e adversários passivos, afastados e apenas a observarem, faz a 30 metros da baliza e com três minutos no relógio. Pé cheio de força, pancada seca na bola e um remate que é um golaço do médio que Jesus ainda duvida ser boa companhia para Bas Dost.

Coincidência, ou não, o ataque do Sporting floresce na forma como Coentrão e até Piccini aceleram nos espaços que Acuña e Gelson abrem, indo para o centro; como Bruno Fernandes pede a bola entre as linhas e os adversários, irrequieto, fugindo de Dost para depois retornar embalado, com a potência de outro remate (8’) na bola que o holandês lhe amortece, para trás, de cabeça.

Todos se movem, as movimentações criam espaço para os outros e os passes fazem-se rápidos e certeiros. Tudo flui com a simplicidade de um livre cruzado por Acuña, na esquerda, para a cabeça importunada de Bas Dost (2-0, aos 21’), ou da bola com que Battaglia encontra a corrida de Coentrão e que o lateral cruza, de primeira, para o holandês (3-0, três minutos depois).

FRANCISCO LEONG

E o Vitória, murcho como não pode ser a defender, com os jogadores apáticos e passivos, como se uma noitada anterior lhes amolecesse os sentidos, a falharem passes e a perderem bolas no meio do campo, o pior dos sítios, não reage. Ou não consegue, porque, sem a bola, o Sporting fecha-se por todo o lado e os quatro de trás lidam tranquilamente com tudo o que os de Guimarães lhes dão. Só há cócegas no suspense com as duas bolas que Rui Patrício não agarra à primeira e no livre que Raphinha bate para o guarda-redes receber, de pé, e agradecer.

O melhor dos leões estava nos momentos em que recuperavam a bola e, rapidamente, se viraram para a frente, aceleravam e mostravam como, às vezes, o futebol pode ser tão simples.

E fácil para eles, que, com o tempo, foram beneficiando de mais espaço e tempo para pensarem e decidirem. O risco que o Vitória ia tomando só o desorganizava mais, demasiado dependente de bolas em Raphinha e com Celis sempre sozinho no centro do campo, onde Adrien e Battaglia pareciam nem suar para manterem as coisas equilibradas.

O Sporting continuava imperturbável sem a bola e conseguia já descansar com ela, que na cabeça de todos estaria, digo eu, o jogo que vão jogar na quarta-feira, em Bucareste. Onde a prioridade terá que ser a organização ofensiva, como não tem sido até agora, disse-nos Jesus.

Ou então o treinador tem mesmo razão - e a forma coesa como a equipa se fecha a sem a bola, controla o espaço nas costas da defesa, decide pressionar o adversário e opta por apertar para roubar a bola é o sustento de tudo. O meio caminho andado para, depois, a equipa ter mais condições para fazer mal aos outros com a bola, como Bruno Fernandes faz, de novo, ao disparar outro tiro fora da área (60’) e fazer o 4-0.

E mostrar como um segundo avançado pode ser um médio que tem muito futebol guardado nos pés, tem alma de toque, passe e vai, e dá à equipa a capacidade de mirar a baliza à distância.

Ainda apareceu o 5-0, por Adrien, numa jogada feita a um e dois toques entre Jonathan, Gelson, Iuri e o capitão, como houve muitas na segunda parte. No, supostamente, jogo mais difícil dos 54 dias de época, o Sporting jogou mais, marcou mais golos do que nas três partidas anteriores - que poderiam ter sido mais, não fossem os remates de Acuña e Iuri para a bancada, o de Gelson para as mãos de Miguel Silva e o chapéu do novo rematador de serviço à barra - e mostrou que, talvez, não seja assim tão urgente virar a prioridade para o ataque e a organização ofensiva.

A prioridade devia era estar em Bruno Fernandes.