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Jonas a ser Jonas só podia dar nisto

O Benfica começou como sempre, rápido, urgente e a pressionar, para os golos aparecerem cedo e depois poder relaxar. No meio de tudo estava Jonas, o craque que atrai coisas boas e fez três golos na goleada (5-0) ao Beleneneses

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Em casa, para o campeonato, contra equipas que não os grandes e com Rui Vitória e os seus ensinamentos, o Benfica seria um criminoso que não demandaria grandes ciências forenses, peritos ou detetives com o dom de todos os enigmas decifrarem, para ser entendido. Porque a explicação está a vista de toda a gente e, julgo, é esta:

Quando, no Estádio da Luz, os encarnados começam um jogo, têm os jogadores elétricos, a pressionarem a campo inteiro, chatos de meio noite para com os adversários, reis da própria casa que querem receber mal e desconfortar quem os visita; a pressão que exercem é constante até aos pulmões e as pernas não abrandarem, o que é algo como 15 a 20 minutos a jogar assim - e este “assim” é o fazer tudo para os contrários perderem mais bolas do que as que guardam e perderem-nas em zonas do campo más para eles; depois, a ideia é por certos jogadores a serem ainda mais urgentes, rápidos e vertiginosos a usar a bola e a atacar a baliza com ela, se possível, com o menor número de passes possível; tentar que Pizzi, Salvio, Cervi e Seferovic corram muito e para o espaço, com Jonas a orquestrá-los por ter a cabeça que pensa mais rápido do que alguma vez eles correrão; depois, esperar que no meio deste caos organizado, enquanto o adversário cambaleia, se marquem o maior número de golos.

Em caso de sucesso, Rui Vitória e o Benfica têm o que pretendem, uma segunda parte tranquila, com os jogadores e as linhas juntas, ritmo lento e a abrandar, para que a equipa descanse e controle e domine com a almofada que moldou até ao intervalo.

Quase tudo o que está descrito acima, de facto, acontece, tão notório e acentuado pela confusão que o Belenenses instaura nele próprio, também. Tem três defesas que nunca alinham uma linha e deixam tanto espaço aberto nas costas, como entre eles. Tem um médio campo e ataque com os jogadores a quilómetros de distância, a dificultarem a vida uns aos outros, sem opções de passe que liguem Chaby e Diogo Viana, os que deviam estar perto da bola.

Coisas que se agravam e são letais porque, aos dois minutos, já sofreu um golo pela cabeça de Jonas num livre cruzado por Pizzi. E vão piorando com a forma com que Salvio, veloz, irrequieto, amante da bola e de sprints com ela, servido pelos passes à velocidade da luz de Pizzi, Cervi a atacar os espaços entre defesas e Jonas, pronto, a ser Jonas, inventam jogadas que demoram três ou quatro passes a deixarem alguém a rematar à baliza. Como o que sai em arco e com força do pé direito de Salvio, após um canto, e o que é ajeitado pelo canhoto Seferovic, no fim de uma corrida de 40 metros após um alívio de Luisão e um toque de cabeça de Jonas.

À meia hora já há um 3-0 e depois ainda há um pontapé, do meio campo, de Jonas, que ressalta na relva e bate no poste, e outras oportunidades mais evidentes, no meio dos 10 remates que o Benfica faz à baliza, até ao intervalo.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Cumprido o modus operandi habitual, feitos os estragos em velocidade, destroçada a defesa do Belenenses, os encarnados, naturalmente, abrandaram. Jonas aproximou-se mais de Pizzi, os melhores e os dois cérebros juntos, a equipa passou a gastar mais passes na mesma jogada e a ter menos gente a sprintar em movimentos de rutura.

Exceto Salvio, confiante e empolgante, que ia tentando todas as fintas que lhe vinham à cabeça e, num momento de pausa, bateu um livre para a cabeça de Luisão desviar a bola (55’) contra o poste. Foi pouco antes de Felipe Augusto teleguiar a bola que Seferovic, de novo num um para um com quem guarda a baliza, rematou ao lado.

Mais passes, menos velocidade, mais tempo com a bola e menos urgência, contudo, não significam menor quantidade de jogadas a chegarem à baliza do Belenenses, um desastre à espera de acontecer. Os encarnados já só aceleraram no penúltimo ou último passe, amoleciam para despertarem de repente, e as jogadas perigosas multiplicavam-se quanto mais perto o jogo ficava do fim. E Jonas, calmo, sereno e descontraído, ia tocando na bola com a tranquilidade de quem já não apanha surpresas da vida.

No meio da bola cruzada por Cervi contra o poste, de mais remates de Seferovic, de Pizzi deslocar a sua supremacia no jogo para a direita (Salvio lesionou-se e entrou Martin Chrien), a eletricidade de Jiménez começou a provocar choques. O mexicano pedia bola, tinha-a, sacudia com o ritmo e motivou a que o Benfica fechasse o jogo, de novo, a acelerar. À espera de tudo isto, claro, estava o peito de Jonas, que acolheu um cruzamento do mexicano para, de pé esquerdo, lhe agradecer com um bonito golo (90’), dos que tão facilmente é capaz de inventar. Não tanto como o que Pizzi lhe deu para desviar, à boca da baliza, a segundos do fim.

O Benfica, muito por ele, o brasileiro que padece do vírus que lhe aumenta os níveis de classe, esperteza e técnica no sangue, à medida que vai envelhecendo, fez um jogo agressivo, intenso, veloz e com poucos passes antes do intervalo, e outro, mais calmo, passador, com mais toques na bola e jogadas com muitos a mexer, na segunda parte.

Ambos lhe correram bem e haverá sempre maior probabilidade de assim o ser enquanto Jonas continuar a ser Jonas.