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Um Aboubakar de barba rija

Manuel Machado dissera que este FC Porto é muito peludo e tem pelo na venta e o jogo não lhe tirou a razão. Os dragões venceram (3-0) o Moreirense e um avançado camaronês, seguindo o raciocínio, mostrou como está a enrijecer a pilosidade facial

Diogo Pombo

LUÍS VIEIRA / Lusa

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Poucos passes, mais rápidos, para a frente e a descortinarem jogadores entre as linhas contrárias, em terra de ninguém. Os extremos a irem pedir a bola dentro para os laterais, por foram, ficarem com mais metros livres. Um dos avançados, sempre, a dar opção no meio, frontal, para receber e dar a bola. E tudo a ser feito a alta rotação, a desenhar coisas na vertical, e obrigar o adversário a tentar sair a jogar pelo centro, para ali pressionarem ferozmente e roubarem bolas e passes.

No dicionário de uma certa pessoa, peculiar, eloquente embora, ao mesmo tempo, estranha, uma figura do futebol cá do burgo (se ainda duvida, leia isto), há uma expressão que usa para uma equipa que joga assim - “ter pelo na venta”.

Que é como quem diz que o FC Porto, essa tal equipa, é ousado, arrojado e corajoso com uma pitada de mau feitio, por querer o problema de um jogo começar zero a zero de forma rápida e vertiginosa. E não no embalo de uma lenga-lenga de ter muito a bola, circulá-la com calma, mais para o lado do que para a frente, como muitas vezes se viu nas épocas de Julen Lopetegui para cá. Essa nova forma, mais drástica, de Sérgio Conceição encarar as coisas é o que vale aos dragões, que em dois minutos mostram o que Manuel Machado quererá dizer.

Primeiro, uma jogada de poucos passes e muito olhar para a frente solta Alex Telles, na esquerda, e o mais requisitado municiador de bolas na área faz a bola chegar à cabeça de Aboubakar, um de três dragões na área que sozinho está pela forma como o trio se mexe e desmarca. Depois, o Moreirense é convidado a construir uma jogada pelo centro e, em dois segundos, é cercado, perde a bola, e o camaronês marca o segundo na recarga às paradas que o guarda-redes Jonathan faz aos remates de Marega e Óliver. Tudo muito rápido, repentino e imediato.

Nos entretantos, os dragões vão ficando mais peludos e barbudos, como náufragos solitários numa ilha onde a pilosidade lhes cresce à mesma velocidade a que se esntem num monólogo com uma bola. Continuam a ser intensos, a só olharem para a frente e, parafraseando em manuel-machadês, a comportar-se como uma equipa “mais agressiva, mais vertical, mais incisiva na sua ação por relação com as últimas épocas”. Há remates de Marega, outros mais de Aboubakar, de Alex Telles e até de Danilo.

O ritmo a que as coisas aconteciam para o FC Porto não iriam abrandar, deduzia. Mas, na segunda parte, tudo foi mais lento. Pareceu ser propositado: a bola olhava mais para o lado, Óliver já a pisava mais e jogava menos a um ou dois toques, os passes longos e pelo ar repetiam-se, a diligência de virar o jogo só porque sim.

E o jogo mais lento, com menos espetáculo e mais enfadonho ficou, também, porque o intervalo ficou com Brahimi, lesionado ou a para prevenir uma mazela - e nunca houve Ricardo Pereira, o extremo-lateral que está bem de saúde e nem para o banco de suplentes foi. Porque o argelino é o tipo que mais coisas inventa com a bola nos pés, deste campeonato, e o português é quem mais velocidade tem dado à forma de jogar do FC Porto.

Sem eles, os dragões ficam menos peludos, apenas com uma barba de três dias.

Aos poucos, foram afastando uns dos outros, deixaram de se movimentar em campo como um bloco e, portanto, não estavam juntos quando era preciso pressionar e reagir e recuperar. Três érres em que foram menos eficazes para deixarem que Rafael Costa, Peña e Arsénio tivessem mais espaço, o trio à boleia de quem o Moreirense, aos poucos, foi crescendo. Aproximaram-se da área portista e o derradeiro bruá na partida até foi para reagir ao voo de Iker Casillas que parou uma bomba rebentada por Arsénio, à distância.

Aí já restavam poucos minutos e estava-se no último quarto de hora, depois de Marega curvar uma bola contra a barra e de Aboubakar aproveitar a verdura e desorientação dos dois centrais adversários. Deixaram a bola chutada para a frente por Marcano bater na relva, passar-lhes por cima e ficar com o camaronês, cujo sexto remate no jogo serviu para lhe dar um hat-trick.

Manuel Machado, no seu tal jeito peculiar, eloquente com um toque de estranho, ao seu estilo, dissera que não gastaria gasóleo se não houvesse uma mínima chance de isto não acontecer - o Moreirense perder, sofrer três golos, poder ter sofrido muito mais e ver como a expressão do seu treinador se confirma.

O FC Porto, para já, continua a ser peludo e a ter muito pelo, coisas que o põem a par de Benfica, Sporting e Rio Ave, com nove pontos. E Vincent Aboubakar, com este hat-trick, já vai com quatro golos no campeonato e começa a ficar com barba rija.

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