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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Em defesa do rapaz sentado algures atrás de várias câmaras a fazer algo que nunca fez na vida

Duarte Gomes escreve sobre o videoárbitro, essa nova entidade que está a agitar o futebol português que tende a enredar-se nas teorias da conspiração de sempre

Duarte Gomes

Nuno Botelho

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De novo... o videoárbitro

Sim. Este é mais um artigo sobre videoárbitro. Se por acaso já estão cansados de ouvir falar neste tema, a sugestão mais honesta que vos posso dar é: não leiam esta opinião!

Se entenderem que vale a pena perceber a coisa na perspetiva de alguém que tem o privilégio de conhecer um pouco destes dois mundos (o da arbitragem e agora o que gravita em torno dela), então fiquem por aí e tirem as vossas ilações. Parece-vos bem?

d.r.

Por partes.

Sabem porque é que existe a vídeo-tecnologia no futebol? Por vossa causa. Por nossa causa. Por causa de quem gosta de bola.

Durante anos (anos a fio!) todos nós andámos a dizer que o International Board era muito conservador, que não evoluía, que não acompanhava os tempos.

Pois bem. Eles mudaram. Mudaram tudo.

E decidiram pôr a tecnologia ao serviço da decisão, ao serviço dos árbitros.

Quando começaram a criar um plano para o fazer, perceberam que isto afinal mexia com muita, muita coisa: com a forma como os árbitros teriam que lidar com esse apoio, com a necessidade de garantir que o processo fosse tecnicamente fidedigno e com as expectativas tremendas que essa iniciativa espoletou/espoletaria no mundo do futebol.

Estariam as pessoas verdadeiramente preparadas para que a máquina substituísse a decisão do homem? Estariam as emoções dos adeptos preparadas para abdicar de alguns momentos escaldantes em troca de uma verdade desportiva servida, aqui e ali, em prato morno? Estariam os homens do apito preparados para abraçar um apoio 'alien', que alteraria por completo as suas rotinas de sempre?

Tantas dúvidas criaram demasiada prevenção. E demasiada prevenção deu origem a um protocolo inicial menos flexível. Mas rígido. Menos abrangente.

Compreensivelmente. E só não o percebe quem não quer.

Estava então tomada a grande decisão: a coisa seria testada sim mas devagar, devagarinho. Com cuidado, cuidadinho.

Da ideia à ação foi um passo.

E hoje aqui estamos. Em Portugal como nos Estados Unidos, na Austrália, na Holanda ou em Itália. A servirmos de cobaias (voluntárias e bem intencionadas) à segunda fase deste majestoso tubo de ensaios.

Arriscámos tudo no timing, por isso escolhemos (bem, na minha opinião) tentar silenciar o ruído dos chorões com uma medida arrojada: invista-se. Aplique-se.

Venha daí o videoárbitro!

Não é para quem quer. É para quem pode.

Tamanha ousadia valeu à FPF o risco (mais que calculado, presumo) de saber que muitas seriam as pedras que iriam apanhar neste novo caminho.

Bem, na verdade, deduzo que nem eles esperavam que as tais pedras fossem, aqui e ali, verdadeiros calhaus. Pedregulhos. De tamanho industrial.

Mas conhecendo a malta cá do burgo como conhecemos, só ficará surpreendido da dimensão patética que tudo isto tomou quem emigrou há cinquenta anos e só agora regressou a casa.

As piores previsões, feitas logo em maio/junho por muitos de nós, confirmaram-se nas jornadas iniciais: agora (do mal o menos) pouco ou nada importa o erro, em campo, do árbitro ou do assistente.

O que importa mesma é o rapazito que está sentado algures atrás de várias câmaras, a fazer algo que nunca fez na vida, diferente de tudo o que sempre fez em campo e cheio de responsabilidade e pressão.

Esse sim, é o novo "corrupto" cá do bairro.

"Porquê só neste jogo? E porque não naquele? E porquê que ali disse e acolá não? E porquê que é sempre este e não é o outro? E a linha, do coiso? Está certa ou errada? Aparece sempre ou de vez em quando? Está ali e não está além? Ele vê ou não vê?"...

Tanta dúvida. Tanta pergunta.

Duarte Gomes a arbitrar um jogo do FC Porto

Duarte Gomes a arbitrar um jogo do FC Porto

FOTO PAULO CUNHA / afp

É importante que se diga, em abono da verdade, que todas essas questões (apesar de partirem quase sempre de quem perde ou de quem não gosta de ver o adversário vencer), fazem sentido.

São pertinentes quando se trata de um processo novo que decide vitórias e derrotas. Que mexe com objetivos desportivos e financeiros.

E mesmo sabendo que as regras deste projeto são definidas a nível internacional (e não a nível interno, como tantas vezes a maldade de uns quer fazer parecer), ele ainda levanta dúvidas.

As pessoas têm sede de saber mais. De saber melhor. De perceber mais. De perceber melhor.

Não obstante o trabalho de informação e transparência continuado que tem sido feito pela entidade responsável pelo Projeto VAR (foi até criada uma conta no Tweeter para explicar ao mundo o melhor que este projeto oferece), há informação que deve ser continuadamente reforçada e explicada.

Por exemplo, é importante que se volte a esclarecer que os videoárbitros não consultam imagens com linhas de fora de jogo (que os operadores, por vezes, colocam): os 'feeds' que recebem estão depurados de qualquer tecnologia que o operador entenda (ou não) implementar, visto que a tecnologia que utilizam (para a análise dos fora de jogo) não está certificada — como impõe o protocolo do IFAB — não sendo por isso considerada credível.

É preciso voltar a explicar também que, apesar do protocolo pedir que exista um écran na sala do videoárbitro que transmite o jogo na íntegra (tal como ele é visto em casa por todos nós), os VAR nunca devem assentar qualquer decisão na imagem que lá é facultada.

Porque, não estando — como não estão — certificados, poderia levar a que baseassem as suas intervenções/decisões num pressuposto ferido de credibilidade: isso não é suposto, porque prejudicaria claramente a imagem e a integridade do projeto.

Convém ainda explicar que, além de muitos acertos, também têm havido lapsos de análise ao nível da decisão final e eventualmente do próprio sistema tecnológico (falhas de comunicação, falhas na rede, etc).

E que isso, ao contrário do que podem pensar os agitadores da nossa praça, acontece. Faz parte.

Tem acontecido também noutros países e era até expectável que surgissem, na fase embrionária deste processo, cuja apreensão/adaptação tem sido desafiante para todos.

Tudo isso devia/deve ser, de novo, conversado com toda a tranquilidade.

Com a tranquilidade de quem sabe que está a fazer o melhor que pode e sabe.

Esta transparência, vinda de forma aberta e por quem de direito, seria (estou mais ou menos seguro disso) a única forma de contribuir — no imediato — para o fim de tantas novelas a que vamos assistindo em tudo o que é jornais, rádios e televisões.

É que o combate a tanto belicismo verbal e a tanta especulação falsa não pode passar por reações pontuais ou tentativas avulsas de silenciar críticas, ainda que se perceba a clara boa vontade que encerram.

Para acalmá-los é preciso mais. É preciso a verdade sem filtros.

É preciso abertura e transparência máximas.

E não tenham dúvidas, porque eu também não tenho: não há ali nada a esconder.

Não há manobras de bastidores, não há benefícios parciais nem prejuízos intencionais.