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Quando um 0-0 é um passo atrás e dois à frente

É o que dá mudar quase uma equipa inteira e começar a atacar uma competição que se quer ganhar com jogadores que poucos, ou nenhuns, minutos tinham esta época: um empate sem golos contra um Marítimo e um jogo lento, desconectado e aos repelões. Mas do qual Jesus gostou

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA / Getty

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O treinador enche o peito, é-lhe inata esta postura de confiança, e expele uma pequena frase que encapsula os pormenores que, pensando como imagino que ele terá pensado, passo agora a enumerar: 1) a equipa e os jogadores que tenho são melhores que os próximos adversários e o conjunto que eles formam; 2) é por isso que acho que vou ganhar; 3) é por crer que assim vai ser contra, mais ou menos, quem seja, que também acho temos, e devemos, ganhar esta prova na qual estamos metidos; 4) eu sei o que estou a fazer.

A tal frase, já agora, é esta:

“É uma competição que queremos vencer.”

O homem que a proferiu é Jorge Jesus, cuja maneira de ser, a personalidade e as coisas que já provou até se podem enquadram no imaginário dos pontos mencionados em cima. Mas há algo que não bate certo entre esta frase e o que já se adivinhava que ele ia fazer, tendo em conta o que há dez anos acontece na Taça da Liga (que, assim de repente, realizamos que já nos faz companhia há esse tempo todo) - jogá-la com jogadores que muito pouco costumam jogar até a equipa chegar à fase em que já é para levar esta competição mais a sério. Que é como quem diz, a partir das meias-finais.

É uma patologia de clube grande, pois, como o próprio Jesus diz, os adeptos têm esta prova no fundo da cadeia alimentar, como um resto de sobremesa que fica escondido na prateleira debaixo do frigorífico. E quem é o treinador para os contrariar. Daí, portanto, a contradição de o ver a afirmar que esta taça é para ganhar e vê-lo a escolher Salin, André Pinto, Tobias Figueiredo, Ristovski, Petrovic, Mattheus Oliveira e Bruno César, jogadores que muitos poucos minutos tiveram nas nove partidas que o Sporting fizera, antes desta. E já se sabe o que esperar quando se tenta fazer uma omelete com tantos ovos diferentes.

Jogadores desconectados, tanto ritmo coletivo quanto o de um trator a gasóleo numa estrada nacional alentejana, passes falhados na saída de bola - os centrais, com Petrovic no meio deles - mesmo sem que os madeirenses pressionassem para lá da linha do meio campo e buracos de espaço gigantes quando, por acaso, a pressão imediata após perdas de bola não funcionava.

Escrevo por acaso porque mais erros, ferrugem, distrações e enganos se viam no Marítimo, que também fez jogar muita gente sem minutos e se fartou de perder bolas perto da própria área. Uma deu origem ao canto que Bruno César bateu e Petrovic, com a cabeça, atirou contra a barra (20’). No desenlace da jogada, ainda deu para, na sua cabeça, Jonathan Silva visualizar um remate à baliza e o pé esquerdo executasse antes um cruzamento, com força, contra Doumbia, que desviou a bola e não acertou, por pouco, na baliza.

Os madeirenses tentavam manter a bola na vizinhança de Éber Bessa quando não a conseguiam aproximar, com rapidez, de Piqueti, o futebolista que tinham mais parecido a um velocista. Raramente eram capazes e os leões mostravam que nem tudo era enfadonho, lento, previsível ou desgarrado. Havia receções almofadas de Mattheus Oliveira, passes que só Alan Ruiz vislumbrava, piques e tabelas que Ristovski dava à direita, as faltas ganhas e as bolas aguentadas por Doumbia, que ainda cabeceou uma bola a rasar a barra (30’) na única jogada que o Sporting inventou de um lado, ao outro, do campo.

Bons momentos. O problema é que apenas apareciam aos repelões, sem nexo. Faltavam a consistência e fluência que já se esperava que faltassem.

Retomado o jogo, parecia que tudo seria diferente, mais acelerado e constante. Os leões juntaram-se mais em bloco, recuperaram mais bolas perto da área adversária, acertavam mais passes e eram mais intensos a fazer de tudo um pouco. A asfixia ia valendo um auto-golo de Gamboa, no desvio de um cruzamento, um golo a Doumbia, que não foi por um central de seu nome Dráusio tirar a bola quase em cima da linha, e outro de Iuri, cujo remate em arco que já registo como patente a ser parado por Amir, o guarda-redes vindo do Irão.

Momentos de emoção, bruás no estádio, acelerações, remates e fintas, de futebol melhor jogado - só que durou, apenas, uns dez minutos. A partir daí, retornou-se ao jogo entre duas equipas com as linhas de jogadores a binóculos de distância, um passe falhado a cada três acertados e, aos poucos, com cada jogador a dar o melhor por fazer algo sozinho antes de endereçar a bola a outro, para que ele tentasse o seu melhor também.

Com a coesão e a organização a decaírem ao minuto, o Marítimo ia-se aproximando da área do Sporting, embora apenas Piqueti, de longe, rematasse uma bola para Salin agarrar. Do outro lado, nem com Acuña e Battaglia, o extremo e o médio que sempre têm sido titulares, ou Podence, que não jogava há um mês, mas tudo faz com intensidade, os leões conseguiram mais do que levar a bola a Doumbia para o avançado fintar dois defesas e rematar a bola, rasteira, ao lado do poste esquerdo.

Os madeirenses não rematavam à baliza de Salin e baseavam-se em manter Éber Bessa, Gamboa e Filipe Oliveira juntos, ao centro, para obrigar um Sporting a jogar por fora, pelas laterais. Mais afastados da baliza, portanto. Um desvio que, sem uma equipa dinâmica, acelerada e com jogadores habituados uns aos outros e jogar sem pensar em modo manual - ou rotinados, como se costuma dizer -, é muito mais difícil de contornar, como o foi.

O Sporting entrou na Taça da Liga com um empate sem golos, enfadonho, lento e a puxar ao bocejo pela quantidade de experiências feitas. A frase inicial de Jorge Jesus nunca pareceu tão distante, não fosse outra que o treinador disse, no final, despreocupado:

"Foi um passo atrás, por não vencermos, mas demos dois à frente, porque lançámos estes jogadores. Têm mais jogo e agora tenho mais certezas em relação a alguns."

Se ao menos ele nos tivesse avisado antes.