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E alguém acabou a dizer: vamos ser campeões

O primeiro clássico da época acabou empatado (0-0) e há duas formas de o encarar: o FC Porto pode lamentar os dois pontos que deixou em Alvalade pelos 45 minutos atacantes, dominadores e rematadores que fez; o Sporting pode contentar-se por ser a primeira equipa a travar os dragões no campeonato pelo cansaço e falta de ritmo que foi acusando

Diogo Pombo

ANTONIO COTRIM/LUSA

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Eu conheço-te melhor do que tu te conheces a ti próprio.

Posso estar a exagerar, talvez esteja. Mas 20 e tal anos não são 20 e poucos minutos de conversa ali no túnel, apertos de mão à frente dos bancos para as câmaras, formalidades de “olá, tudo bem, gosto do que fazes e tens feito com a tua equipa e boa sorte para o resto do campeonato”. Começaste a jogar à bola comigo, porque eu te pus a jogar no Felgueiras e vi o que havia para aproveitar no tipo raçudo, que parecia correr com uma mochila às costas, os dentes a trincar o coração e uma garra que lhe davam a intensidade que compensava, ou mascarava, depende da perspetiva, algumas coisas que ele tinha a menos.

O que sei por te ter treinado e visto jogar, misturado com o que aprendi com as equipas que te vi treinar - mais os anos de amizade, porque aquelas almoços e jantares não se comem nem bebem sozinhos -, chegam-me para afirmar, e reafirmar, que te “conheço como pessoa e treinador”. E mais, até mesmo para dizer sobre ti que “se calhar só ele é que conhece as ideias dele melhor do que eu”.

Este hipotético, otimista, fanfarrão e presunçoso discurso na primeira pessoa de Jorge Jesus, sobre Sérgio Conceição, fez-se com base no que ele disse sobre o homónimo antes do Sporting-FC Porto.

Tantas certezas e seguranças tinha Jesus sobre o que pensa e vai na cabeça de Conceição e, por conseguinte, sobre o que ele quereria que os dragões fizessem, e como o deveriam fazer, que a forma como o clássico se desenrola, em Alvalade, é inesperada. O FC Porto entra forte, mandão e a mandar, com a equipa subida no relvado e a ter o bom sentido da agressividade a discutir os lances e a entrar às bolas que há depois de um chuto para a frente, de um passe falhado, de um cruzamento cortado, de uma finta mal feita:

As segundas bolas.

Os dragões, sempre juntos e mantendo um bloco compacto, unem-se em torno de Danilo, Sérgio Oliveira e Herrera, o trio de médios que leva a reboque a equipa. O trinco abafa o tipo com mais passe, maior raio de ação de remate e mais decisivo a ligar bolas para o ataque, Bruno Fernandes. O médio das tatuagens e do rabo de cavalo, que apenas se estreou contra o AS Monaco, vive inclinado para a esquerda, para ajudar a bloquear Gelson e tornar irrelevantes as fintas e pára-arrancas que faz. O mexicano que veste calções dezenas de números acima serve para pressionar a saída de bola e ser o homem que sobra para receber e usar as bolas que se recuperam.

O FC Porto é intenso e não abranda numa dinâmica que faz por o favorecer, porque dá a iniciativa de ter a bola ao Sporting, convida o adversário a tentar construir coisas pelos centrais e os dois médios, e força-o a errar. Em meia hora, os dragões fazem sete remates, metade de fora da área, mas todos vindos de um passe cortado ou um adversário desarmado, após os leões avançarem uns metros com a bola e, com isso, darem tamanho ao que os dragões mais querem e sabem explorar:

A profundidade.

O espaço que há entre a linha da defesa e Rui Patrício é onde Aboubakar e Marega, rapazes com mais velocidade, arranque e instinto para correr com a bola à frente, do que estar a tocá-la em espaços curtos (sobretudo o maliano), origina várias oportunidades ao FC Porto para marcar: o camaronês remata duas vezes (18’ e 31’); Herrera precipita-se ao terminar um contra-ataque ao primeiro toque, quase na área, num remate por cima quando ainda tem metros para correr (19’); Brahimi, rodopiando e insistindo em fintar sempre mais alguém, obriga Patrício a defender na relva (22’); e Marega cabeceia à trave um cruzamento de Alex Telles, a que se segue a recarga de Aboubakar, contra o guarda-redes (41’).

Entre tantos remates, chegadas à área e jogadas a chegarem ao ponto de ter gente a finalizá-las, ou perto disso, o Sporting parecia ter começado o jogo cansado. Ainda a sentir o esforço que fizera a correr atrás da bola do Barcelona, na quarta-feira. Bruno Fernandes estava escondido na sombra de Danilo, nenhum passe encontrava Bas Dost, as correrias de Gelson não agitavam nada além dos músculos dele. Tudo parecia ser infrutífero.

O primeiro, e único, remate à baliza dos leões é aos 43 minutos, quando a ressaca de um canto regressa a Bruno Fernandes e o médio volta a cruzar a bola. William, perto do primeiro poste, desvia-a com a cabeça para a luva de Casillas ser uma alegoria do que é o Sporting:

Desvia-a sobre a barra, para um lado - como a equipa de Jorge Jesus passa ao lado do jogo durante a primeira parte.

JOSE MANUEL RIBEIRO

E esta crónica terá dois lados desfasados um do outro porque tem de ser fiel ao que se passou, depois, em Alvalade. O jogo resumiu parecido com o que era, as equipas presas a meio campo, o Sporting a tentar dar bom uso à bola que tinha a mais e o FC Porto a estancar quase tudo com desarmes e cortes para eram os sinais para acelerar o jogo e atacar os espaços nas costas de Coates e Mathieu, os dois grandes, fortes e bons centrais que iam estancando o que os leões, em conjunto, deixavam passar.

Por muito que Jorge Jesus dissesse conhecer as ideias e a forma de pensar de Sérgio Conceição, os jogadores que treina não o mostravam, ou não estavam a ser capazes de cumprir o que ele lhes dissera para fazer. Nem com a aparição surpresa de Adrien Silva, que durante o intervalo foi ao relvado discursar e chorar.

Os dragões continuam a dominar em tudo menos no tempo com a bola, rasteira que prega ao adversário, até o jogo se tornar mais equilibrado no desequilíbrio que é provocado pela inevitabilidade que estreita diferenças no futebol - o cansaço.

Todos acusam o que correram a meio da semana, para a Liga dos Campeões, e a partida, com os minutos, fica com buracos de espaço a meio campo. Quem deve jogar ali demora anda mais colado aos defesas ou aos atacantes e o único a ser favorecido pelo caos partido é William Carvalho. Ele, com mais espaço e tempo para ter a bola, liga mais passes, encontra mais vezes Gelson ou Acuña, torna-se o único travão no meio de carros desgovernados que só têm cabeça para acelerar.

O clássico fica intenso, desorganizado, a viver de repelões e más decisões, como o lançamento lateral que Alex Telles marca como um infantil - para o centro, no próprio meio campo - e para Danilo, que controla a bola virado para o adversário. Bruno Fernandes desarma-o, fica com a área livre para entrar e, isolado perante Casillas, estoira um remate sem tino, por cima da baliza.

É a melhor, e de novo única, oportunidade que o Sporting tem para marcar.

Os dragões, com a mesma atitude e estratégia, apenas são perigosos em outro lançamento lateral, que Brahimi marca rapidamente para Otávio, à esquerda, cruzar rasteiro para Aboubakar rematar contra Rui Patrício, na pequena área, enquanto os leões achavam que a bola seria deles para lançar. Findos os esticões que o jogo levava pelos jogadores que estavam mais frescos ou com mais discernimento, prevaleceu um nulo entre uma equipa que fez um remate à baliza e outra, que contabilizou sete, e evidenciou o que os números não mostram:

Mais rotação, agressividade, querer, garra e sangue na guelra pela importância do momento.

Tudo o que Sérgio Conceição mostrou no final, quando, no relvado, reuniu os jogadores numa roda e, nos seus lábios, se leu como gritava: “Vamos ser campeões, nós vamos ser campeões, c******”. E não é preciso sermos Jorge Jesus ou travarmos uma amizade de anos com o treinador para sabermos que a forma como se dizem, se fazem ou se mostram as coisas importa e contagiam pessoas.

E este FC Porto, agressivo, rotativo, intenso e arriscado, que ainda não perdeu e só perdeu pontos esta noite, joga à imagem do homem que o treina. O treinador que disse o que disse só por a equipa ter sido superior no primeiro clássico da temporada e com 28 jornadas ainda por realizar.