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O que dividiu o clássico: um olho nas costas, outro nos roubos de bola

No clássico de domingo, o FC Porto foi a equipa que mais vezes, e melhor, explorou a profundidade, ou seja, o espaço entre os defesas e o guarda-redes. E isso, apesar de um jogo sem golos, fez a diferença durante muito tempo, mostram-nos os dados da InStat analisados pela Tribuna Expresso

Diogo Pombo

José Sena Goulão/Lusa

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Bola recuperada, bola usada rapidamente, com os olhos e a intenção virados para a frente, apontando os passes - de preferência, logo o primeiro ou o segundo - para o espaço que há nas costas dos defesas, entre eles e a baliza. É a terra que o futebol conhece por profundidade.

Durante quase uma hora, foi a prioridade em atacar esse espaço com a bola e com jogadores que separou o Sporting e o FC Porto no clássico de domingo.

Só durante a primeira parte, os dragões somaram sete passes chave (11 no total), mostra-nos os dados compilados em relatório pela InStat, uma plataforma de análise e observação de jogos, à qual a Tribuna Expresso teve acesso, em exclusivo. Esses passes chave acontecem quando um jogador recebe a bola em posição de rematar à baliza e fazer golo ou quando o passe tira da jogada toda a linha dos defesas contrários.

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A equipa de Sérgio Conceição fê-lo muitas vezes, sobretudo até ao intervalo, e por três motivos: é para isso que está virada e foi montada pelo treinador; tem dois homens rápidos, fortes e agressivos no ataque às bolas (Aboubakar e Marega) que gostam de pedir para o espaço; e porque se organizaram, sem a bola, para a recuperarem em situações em que o Sporting tivesse aumentado os metros de espaço livre entre os seus defesas e a baliza de Rui Patrício.

Uma estratégia que se refletiu nos números, e sítios, de recuperações de bola.

A defender, o FC Porto juntava Hector Herrera, o terceiro médio, a Aboubakar, deixando Marega a fechar à direita e Brahimi a conter uma linha de passe à esquerda - o argelino não pressiona, não persegue adversários e raramente tenta ser ladrão. Os dois da frente apenas pressionavam Coates e Mathieu, os dois centrais do Sporting, ou um dos médios que se enfiava no meio deles quando tinham mais tempo para a saída de bola, quando eles já estavam próximos da linha do meio. Porquê? Para, quando recuperada a bola, haver espaço para explorar nas costas.

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Tirando partido do facto de juntar mais um jogador ao centro do campo e de Danilo ter anulado, quase por completo, Bruno Fernandes, os dragões recuperaram nove vezes a bola na metade do campo do Sporting. Seis desses roubos aconteceram no lado esquerdo dos leões, onde costuma estar Fábio Coentrão e, como tal, o hábito de a equipa sair a jogar por ali, mas onde esteve Jonathan Silva, o lateral mais precipitado e menos certeiro no passe.

Foi nesse flanco que Marega recebeu três passes nas costas dos defesas do Sporting (o segundo jogador que mais bolas teve na profundidade, depois de Aboubakar) e desequilibrou a organização defensiva adversária.

O Sporting, tendo mais posse e fazendo mais passes, era muito mais lento a tomar decisões e a tentar desorganizar o adversário através do uso que dava à bola. Acabou o clássico com apenas dois passes a quebrarem a linha defensiva do FC Porto e a encontrarem alguém do outro lado - em parte, pela pouca gente que partia em corridas de rutura, por outro lado, devido à inexistência de Bruno Fernandes e de William Carvalho na construção de jogo.

O médio rematador e intenso foi quase sempre anulado pelo raio de ação de Danilo, que o obrigou a mexer-se muito para as alas, à procura de espaço. Mas, nem assim, logrou ser ativo no jogo: apenas recebeu sete passes de William ou Battaglia, os médios a quem se devia ligar, e nunca entregou mais de duas bolas a Gelson, Acuña ou Bas Dost. A influência do jogador mais rematador e combinativo da equipa foi quase nula.

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A ausência de Bruno Fernandes da bola e das jogadas mais se notou porque o Sporting, ao sair com a bola, procura sempre mais Battaglia do que William. Mais o médio corredor, da garra, condução de bola e intensidade na reação à perda, do que o médio com pausa, toque de bola e visão/certeza de passe.

O argentino recebeu 16 passes dos centrais enquanto o português apenas 10, uma desproporção compreensível, em parte, por o Sporting ter jogado com Battaglia mais perto de Coates e Mathieu. À semelhança do que Jesus optara por fazer contra o Barcelona, para tirar William das zonas onde os catalães fossem, à partida, montar mais cercos de pressão alta.

O capitão do Sporting apenas teve espaço, bola e tempo a partir da hora de clássico, quando o jogo se começou a partir e os médios a colarem-se às áreas.

Até aí, em que o jogo ficou bem mais dividido pelo caos das transições ofensivas, o FC Porto teve quase sempre predominância nos momentos de ataque à profundidade e à baliza adversárias, sobrepondo-se aos leões pela forma rápida e vertical como aproveitava as bolas que recuperava: os dragões tiveram uma média de 18,3 ações de ataque por minuto, em comparação com as 15,8 da equipa de Jorge Jesus.