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Do jogo e do fogo e do milagre: como a visita do Sporting é uma “sulipampa” no coração de Oleiros

Há momentos em que o futebol se transforma em mais do que é e passa a ser quase uma experiência religiosa. O espírito do jogo dilui fronteiras, passa para fora do estádio, e mobiliza a comunidade à sua volta. Na quinta-feira, o Sporting vai defrontar a Associação Recreativa e Cultural de Oleiros (ARCO), para a terceira eliminatória da Taça de Portugal. Se o Sporting vai ganhar ou não, essa não é a questão. Poderia ser um simples clássico David contra Golias, mas também não é. Oleiros foi um dos concelhos mais afetados pelos incêndios este verão. Por isso, os leões facilitaram, ajudaram, insistiram que o jogo fosse na pequena vila, quando o estádio, a princípio, nem tinha as condições necessárias exigidas. Bruno de Carvalho decidiu ser magnânime e oferecer a receita dos bilhetes ao bombeiros locais

Fábio Monteiro

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Falta uma hora para a abertura das bilheterias e um homem já está à espera. É segunda-feira e são cinco horas da tarde; ele está sozinho, com as mãos apoiadas na cintura, como se se estivesse a preparar para marcar um livre. Daqui a quatro horas e meia, os 500 bilhetes reservados a sócios para o embate entre Associação Recreativa e Cultural de Oleiros (ARCO) e o Sporting vão estar todos vendidos.

José Rodrigues quis garantir que seria um dos primeiros a comprar o bilhete para o jogo, por isso chegou mais cedo. “Isto é como o Euromilhões, só acontece uma vez na vida.”

À primeira vista, a estatura de ex-jogador de futebol não é evidente. É ele que o revela. Encorpado, baixo e de boina na cabeça - um pouco como se Maradona tivesse optado por reformar-se na Beira Baixa. José jogou como avançado, numa época em que “as posições em campo ainda nem estavam bem definidas”, conta.

Mas ainda sabe fintar. Logo depois de se apresentar, tira a carteira do bolso e mostra o cartão de sócio da ARCO. É o número 4, um dos cinco fundadores. “Éramos um grupo de amigos que queria jogar futebol, ter melhores condições e umas ‘botas’ melhores, por isso criamos o ARCO. Uma equipa local”, diz, a rir-se.

Na essência, é isso que a ARCO continua a ser hoje: fundada em 1976, trata-se de um clube de uma vila do interior, um projeto “local”. Joga na série C do campeonato nacional; a maioria dos jogadores tem outros trabalhos e mesmo o treinador é professor de Educação Física em Proença-a-Nova. Treinos? Só a partir das sete da noite - o horário pós-laboral.

Só que este ano os deuses do futebol decidiram baralhar os destinos da ARCO e cruzá-los com o grande de Alvalade na terceira eliminatória da Taça de Portugal. O Sporting, por sua vez, viu que era importante levar o futebol ao interior do país e facilitou. “Esperamos poder fazer em Oleiros, não apenas a festa da Taça, mas também a festa do carinho, da solidariedade e da paixão pela vida, homenageando as populações que sofrem, muitas vezes em silêncio, e que terão este jogo como oportunidade de demonstrarem, mais uma vez, como somos um povo bravo e digno”, disse Bruno de Carvalho na semana passada.

Na verdade, talvez Oleiros nunca tivesse precisado tanto de um jogo de futebol como este.

Oleiros ardeu, ficou em cinzas, como grande parte do país este verão. No domingo, um trabalhador da câmara, que ajudava no combate a um incêndio, morreu, após o veículo que manobrava ter capotado. Foi a 67ª vítima mortal desta época de incêndios, a primeira desde a tragédia de Pedrógão Grande. “Este jogo é uma daquelas alegrias capaz de nos dar uma sulipampa ao coração e que ajuda a esquecer a desgraça [dos Incêndios] por uns dias”, diz José Rodrigues.

Visão lateral do estádio do Oleiros

Visão lateral do estádio do Oleiros

D.R.

Um milagre no interior

O estádio do Oleiros, que conta com 30 lugares de estacionamento, tem um relvado sintético (má notícia para o Sporting) e dá para alugar à hora. De dois dos lados está rodeado de pinheiros e a publicidade mais destacada que se pode encontrar lá dentro é a uma iguaria culinária da região: o cabrito estonado.

Como fica situado numa colina, tem vista privilegiada para alguns dos montes que rodeiam a vila. Ao longe, essas encostas, atravessadas por faixas de corta-fogo, fazem lembrar alguns dos penteados que Cristiano Ronaldo teve ao longo dos anos.

Ainda antes de se entrar no estádio, na segunda-feira à tarde, ouvia-se o som repetitivo dos martelos e os silvos metálicos dos encaixes das bancadas portáteis. Cerca de 20 homens estavam a finalizar os requisitos impostos pela Taça, para que o jogo pudesse acontecer na vila: ampliar o estádio municipal de 400 para 2000 lugares, instalar um sistema de videovigilância, e garantir iluminação suficiente no campo.

O Sporting é um clube “de outra envergadura, enquanto o ARCO joga na série C do campeonato nacional”, diz João Lourenço, vice-presidente do clube, onde em tempos também jogou. Como todos os outros presentes, anda num zigue-zague, distribuindo tarefas, executando outras. Tudo o que está a fazer é “pela festa, não pelas expectativas depositadas no resultado”, diz, pois nem a fervorosidade pelo Oleiros lhe interfere no juízo futebolístico. “É praticamente impossível ganhar”, admite, encolhendo os ombros.

Ainda assim, este jogo, assume, tem também outro carácter. É importante devido à “vaga de incêndios que apanharam a região”, lembra. Já há algum tempo que o duelo entre a ARCO e o Sporting transcendeu o relvado: tornou-se quase uma causa local.

Ao mesmo tempo que João fala, escorre-lhe um fio de suor junto ao ouvido direito. Sintoma do esforço físico que anda a fazer, mas também do clima que se faz sentir. Apesar do calor, o céu está de um cinzento opaco, devido ao fumo que vem de incêndios próximos, que lavram na Pampilhosa da Serra. “Uma tragédia em outubro”, diz.

A paisagem da estrada nacional 112, que liga Castelo Branco à vila de Oleiros, mudou radicalmente de tons este verão e está ferida: onde antes existia um verde seivoso, imperam agora os cinzentos e pretos. As cores do carvão, os restos do que ardeu. Dos incêndios, sobram muitos vestígios: os esqueletos das árvores ardidas, que se parecem com homens de braços lançados ao ar, desesperados; os sinais de trânsito derretidos à beira estrada, tombados sobre si próprios, como que adormecidos. No meio das cinzas começam agora brotar os primeiros fetos. Mas isso é “pouquíssimo” por comparação com o que se perdeu.

O próprio facto do jogo vir a acontecer é “um milagre”, assume João Lourenço. Um milagre feito à custa de “muitos voluntários”, explica, enquanto aponta para alguns dos presentes, e do investimento feito pela câmara municipal. Sem o apoio do município, admite, seria “impensável” acolher este tipo de jogo. Até porque os custos de preparação ascendem a mais de 50 mil euros, conforme revelaram algumas das fontes envolvidas.

A população do concelho, que não chega aos cinco mil habitantes, é muito envelhecida e “um bom jogo tem cerca de 300 espectadores”, lembra Luís Antunes, comandante dos Bombeiros de Oleiros e responsável local pela Protecção Civil, que nestes últimos dias tem vivido um momento de trabalho redobrado.

Os bombeiros, além dos jogadores da ARCO, deverão ser os principais beneficiados pela realização deste encontro. O Sporting anunciou, na semana passada, que iria visitar os bombeiros de Oleiros, antes do jogo, e lá deixar duas camisolas assinadas pelo plantel, sendo uma para a instituição e outra para ser leiloada, com o valor angariado a reverter para a mesma. Mais: a receita do encontro irá ser oferecida aos bombeiros locais, atitude que “muito enobrece o Sporting”, diz Paulo Ourém, vereador da Cultura e do Desporto da Vila de Oleiros.

O responsável municipal vê muitas vantagens em “trazer a festa da Taça a Oleiros” e diz que esta é mesmo “uma excelente forma de acabar este verão terrível”. “Oleiros, que tem como principal referência o turismo de natureza, perdeu dois dos seus maiores atrativos, por causa dos incêndios, este verão. Perdemos duas das nossas rotas pedestres: a dos Apalaches e a Fraga de Água d’Alta”, lembrou.

Um encontro de futebol, porém, não pode “suprir a perda de uma vida”, como a do trabalhador da câmara de Oleiros, que morreu durante o combate a um incêndio a menos de uma semana do grande jogo. Essa lembrança torna impossível que quinta-feira seja um “momento de completa felicidade”.

Equipamentos do Oleiros a secar nas traseiras de uma das bancadas, antes do treino de final de dia.

Equipamentos do Oleiros a secar nas traseiras de uma das bancadas, antes do treino de final de dia.

D.R.

“Jorge Jesus é um dos treinadores mais criativos do mundo”

Três jogadores da ARCO, que moram juntos, “estão em casa com uma virose”. Outro partiu o pé na segunda quinzena de agosto, mas “ainda não foi chamado pelo seguro para ser operado”. E há dois chineses no plantel que ainda não sabem falar português. É com problemas a este nível que Nataniel Costa, 38 anos, treinador da ARCO, tem de lidar. Problemas que nem passam pela cabeça de Jorge Jesus.

Depois há outros detalhes que também significam alguma coisa: numa das laterais do estádio, dá para ver os equipamentos dos jogadores e respectivas toalhas de banho, presas por molas, a secar. Em algumas nota-se já algum desgaste.

Quando não está a treinar, Nataniel Costa é professor de Educação Física numa escola em Proença-a-Nova, a cerca de 30 quilómetros de Oleiros. Na verdade, esta é a sua primeira época como treinador principal, passados dez anos a ocupar o banco de adjunto.

Ao preparar um jogo contra o Sporting, diz, não se pode “inventar muito”. Apesar de saber que o Sporting não vem a Oleiros jogar com a equipa principal, é muito difícil preparar um jogo contra Jorge Jesus, “um dos treinadores mais criativos do mundo”.

Quanto ao nível de incentivo da equipa, não é preciso fazer nada. “Os jogadores estão motivados por si só” e o resultado do encontro dependerá da “capacidade de superação” da equipa, diz. E é essa a mensagem que circula dentro do balneário do Oleiros.

Pedro Luís, lateral-esquerdo, que só chegou à ARCO a 16 de agosto, assume que este jogo tem “um tipo de projecção que não há noutros encontros” e que pode ajudar a dar o “pontapé para outra liga superior”. Há quatro anos em Portugal, o brasileiro de 25 anos assegurou que ele e o resto da equipa darão tudo e farão por aproveitar o encontro como uma “montra” para as suas qualidades.

Porque são sete da tarde, chegou a hora do treino para o Oleiros. Chegou a hora de Pedro Luís ir treinar e apresentar-se à população que está nas bancadas do estádio para apoiar a ARCO. Há que tirar os equipamentos do estendal e fazer o aquecimento. À mesma hora, os jogadores do Sporting já deram o dia por encerrado.