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A história “infernal” do regresso do Tondela a casa, em contramão na autoestrada

No domingo, a equipa do Tondela regressou, durante a tarde, da Vila das Aves. Esta é a história da viagem de Vítor Ramos, o diretor de comunicação do clube que fugiu às chamas em contramão na autoestrada, cruzou-se com um GNR “um bocado em pânico” e tentou descrever à Tribuna Expresso o “cenário dantesco” que viu

Diogo Pombo

Nuno André Ferreira/Lusa

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Para no meio da autoestrada.

Se é possível por ali passar, é impossível ter a certeza, apenas com o que os olhos recebem, que um carro é capaz de atravessar o fogo edificado em volta, e sobre, o alcatrão. As chamas são “absurdas”, escalam metros para o lado e para cima, não há cenário a não ser o laranja flamejante que têm à frente e parece formar um túnel. Uma suspeita de passagem que tanto pode ser ilusão de fuga como entrada para um beco sem saída.

Vítor Ramos tem o volante nas mãos, as hesitações na cabeça e as dúvidas de quem o acompanha. Todos sabem que o autocarro da equipa “arriscou muito” e seguiu, chamas dentro, para o risco desconhecido, e hesitam.

Estão receosos como os quatro ou cinco carros que têm à frente, parados, todos com os quatro piscas a sintonizarem cor com o cenário ardente. O diretor de comunicação do Tondela, condutor da carrinha de apoio que também regressava da Vila das Aves, onde o clube perdeu, no domingo, para a Taça de Portugal, vê-os rodeados pelo fogo. Faz um calor tal que não o adjetifica, pensa no risco de um pneu rebentar, vê chamas a avançarem “a uma velocidade louca”, nota o vento a soprar em todas as direções. Nada existe de divino ou comediante no cenário que descreve como “dantesco”.

Decidem-se pela inversão de marcha. Percorrem cerca de 100 metros da A25 em contramão, que seria “uma loucura” num dia normal, mas que é acautelar a vida e fugir ao perigo no anormal dia de incêndios que, a 15 de outubro, ardeu 15 dos 18 distritos do país e levou a vida a, pelo menos, 41 pessoas. A ideia que brota do pânico é aproveitar a reta de “boa visibilidade”, seguir a saída para Reigoso e Oliveira dos Frades, tentar contornar o fogo, conta o diretor de comunicação do Tondela.

Saem da autoestrada, querem flanquear as chamas, tentam-no por uma estrada nacional - onde encontram o pior.

Já não há fogo a aparecer pelos lados, duas ou três frentes de ameaça. Agora está em todo o lado. Tanto é o vento que tudo arde, tudo é ateado, tudo pega fogo. O carro de Vítor volta a parar, de novo numa reta. Passam dois minutos com as mesmas hesitações, as dúvidas, o medo de arriscar no que pode haver dali para a frente sem saberem “como já estava para trás”. Até que avistam um carro a aproximar-se.

É da GNR e de um guarda que está sozinho e “um bocado em pânico”. Também ele pára e, pausando um pouco o stress, diz-lhes que podem avançar, que “não havia problema”. Basta fecharem as janelas do carros e conduzirem encostados ao lado esquerdo da estrada. Vítor Ramos lembra-se da pouca distância dos 50 metros que percorrem nessa zona de fogo e do muito calor que sentem.

É um “calor infernal”.

Não é isso que mais o assusta, logo a seguir. Passam por uma bomba de gasolina demasiado vizinha de chamas que lhe parece um pequeno caos - há “pessoas a correrem, de um lado para o outro”, várias com ramos de árvores nas mãos, a tentarem travar o fogo. É uma luta “completamente desigual”, coisas que “uma pessoa faz sem saber o risco que está a correr”. Não vê bombeiros em lado algum, ausência que não critica porque “ninguém tinha mão naquilo”.

Prosseguem no caminho do fogo sem critério, das pessoas desesperadas e agarradas “a mangueiras à frente de casas”, a socorrerem-se com baldes de água, irrequietas.

São os últimos, após o autocarro e os dois ou três carros, com dirigentes e jogadores que não tinha sido convocados, a chegar a Tondela. São à volta das 21h30 e está tudo normal, o fogo ficou para trás. Vítor vê ao longe, no cimo da Serra do Caramulo, um incêndio, mais um pequeno clarão para os lados do IP3. O vento não sopra forte.

Vai para Viseu e, chegado a casa, liga a televisão e há um fogo em Dardavaz, a cerca de oito quilómetros de Tondela. É tão à beira da cidade que demora apenas 30 minutos a alcançá-la e o dobro do tempo até chegar a Viseu, distante em trinta quilómetros. Vítor pensa em regressar, mas a GNR já cortou as estradas.

A segunda-feira acorda com fábricas da cidade ardidas, “centenas de empregos perdidos”, casas escurecidas pelas chamas, até árvores “plantadas no passeio, no meio da calçada, queimadas”. Sabe-se que Ricardo Costa, capitão do Tondela, viveu o pânico no hotel que existe perto do estádio, onde teve que fugir para a cave. O diretor de comunicação conta que os pais de Miguel Batista, querido da terra, formado no clube e emprestado ao Nogueirense, perderam sete carros para o fogo e ficaram com as paredes de casa pretas, onde o jovem guarda-redes ainda mora.

Nada ardeu das infraestruturas do clube, entre Estádio João Cardoso e campo de treinos. O que afeta o Tondela desde domingo é o ar, irrespirável devido ao fumo denso, que arde nos olhos, irrita a garganta, faz doer a cabeça e já enjoou e fez vomitar pessoas. “Nos alertas das câmaras municipais aqui da zona, havia uma unidade de medida, em que o limite para o ar ser respirável e ‘saudável’ estava nos 50, e a situação aqui já ia nos 770”, descreve Vítor Ramos.

A equipa não treinou ontem e, esta terça-feira, apenas correu nos corredores do estádio, para os jogadores não ficarem parados.

O “pequeno dilúvio” que caiu durante a noite de segunda-feira ajudou, prevê-se que caia mais chuva esta semana. Mas não se sabe quando o fumo - “tão denso, tão denso, que uma pessoa intoxica sem dar conta” - vai dissipar e deixar os dias parecerem normais. Tudo está, ainda, caótico, com jogadores a pensarem em coisas pelas quais nunca tinham passado, pessoas da cidade “que não estão a trabalhar” porque os empregos foram queimados nas fábricas que arderam, o Tondela sem saber se possível será acolher o jogo com o Belenenses, no domingo.

Vítor Ramos fala na “calamidade” que ainda dura, mas tudo foi pior do que isso - “Foi mesmo um inferno na terra, sem exagero”.