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Os fãs tornaram-se fanáticos e estão cada vez piores (e os dirigentes também)

Nas últimas três épocas houve mais de dois mil incidentes com adeptos, por ano, no futebol português, desde 2013/14. Só na época passada, 92% das multas cobradas aos clubes foram por mau comportamento dos seus aficionados. Estas são duas das principais conclusões de um relatório divulgado, esta quarta-feira, pela FPF, na Assembleia da República

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Casas de árbitros vandalizadas, esperas à porta de pequenos estádios onde eles estão a treinar, mensagens enviadas para os telemóveis dos senhores do apito, contactos arranjados sabe-se lá como, com ameaças a eles, às famílias deles e às pessoas de quem eles gostam. Estes são alguns comportamentos não de adeptos, mas de fanáticos, pessoas que encaram o futebol muito mais a sério e veem repercussões muito além de haver uma equipa que ganha e outra que perde, num jogo em que o objetivo é marcar golos.

Eis o ponto de partida do mini-relatório que, esta quarta-feira, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) entregou aos jornalistas presentes na Assembleia da República, quando Fernando Gomes falou perante a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.

O presidente da entidade lá foi chamar atenção para um problema cada vez mais gravoso no futebol português - o fanatismo que leva pessoas as cometerem atos irresponsáveis ou ameaças. Há muito mais incidentes deste tipo a acontecerem, todos os dias, do que os dias que existem num ano civil, tendência que se agravou, sobretudo, após 2013/14, como mostra um gráfico disponibilizado pela FPF:

Sim, há mais de 2.500 incidentes registados por ano.

Este tipo de casos, muitas vezes, resulta em multas, pois a federação tem um regulamento que visa ordenar para evitar este tipo comportamentos. Multas cujo dinheiro oriundo delas reverte para a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e, só esta época, já foi muito: quase 200 mil euros registados até 17 de outubro, 47,3% dos quais relativos a multas por “mau comportamento dos adeptos”.

Em termos de multas aplicadas diretamente aos clubes, esta temporada, o valor vai em pouco mais de 102 mil euros e quase tudo se deveu ao comportamento dos seus adeptos. Mas também os valores vindos de multas aplicadas a dirigentes também aumentaram, o que indica, das duas uma ou ambas - há mais infrações a serem cometidas ou as que se registam são mais graves e, portanto, exigem sanções financeiras mais pesadas.

O que o relatório pretende mostrar é que o clima agressivo, tumultuoso e de ódio no futebol português é cada vez mais notório.

No discurso que proferiu perante deputados, Fernando Gomes lembrou que tudo isto se passa no país que é Campeão Europeu de futebol, tem mais futebolistas federados do que nunca, é a terceira melhor seleção do ranking da FIFA e não falhou qualquer apuramento para a fase final de uma competição este século. E neste “isto” ainda cabe a vandalização de um prédio onde residente um árbitro, já esta época.

O que Fernando Gomes disse, mas não aprofundou, é que a culpa também do “clima de ódio que se instalou entre os responsáveis com maior acesso aos meios de comunicação social”, quando esse ódio não é dirigido aos homens do apito que falham e erram, sim, como os jogadores falham e erram no campo, durante um jogo em que há 90 minutos para se marcar golos e evitar sofrê-los.

“Infelizmente, a falta de respeito pelos elementos da arbitragem encontra eco na comunicação social”, resumiu o líder da federação, ao partilhar “três exemplos de frases ditas em meios de elevado alcance e audiência” que, porém, não constam na transcrição do seu discurso.

TIAGO PETINGA

O presidente da FPF talvez se referisse aos programas televisivos de comentadores afiliados aos três grandes, que trocam críticas e acusações e quase incitam a que se esteja mais contra os outros do que a favor dos nossos.

Para começar a tentar resolver ou, pelo menos, amenizar este clima, a FPF sugeriu três coisas ao governo:

1) criar uma autoridade focada na segurança e combate à violência no desporto, com recursos e não apenas competência para dizer o que deve ser feito; 2) apertar com as interdições de entrada de pessoas em estádios de futebol; 3) mudar as políticas de regulação de grupos de adeptos, defendendo que todas as claques devem ser legalizadas; 4) criar um sistema de identificação de adeptos, como o Fan ID que, por exemplo, foi utilizado pela organização russa na última Taça das Confederações.

A federação fala e dá números relacionados com o mau comportamento de adeptos. Mas, quando eles se comportam assim, não são apenas adeptos - são fanáticos. E o discurso de Fernando Gomes apontou para onde estará parte da culpa:

"A esse propósito, e antes de terminar, permitam-me que anuncie que a FPF vai aumentar a exigência em relação aos dirigentes desportivos, obrigando a um curso de formação para todos os que se sentarem no banco em competições nacionais.

Muitos dos dirigentes desportivos exercem funções de reconhecida relevância social. São figuras reconhecidas a nível local, nacional e às vezes até internacional.

O que dizem é ouvido.

O que fazem é imitado.

Influenciam.

Indicam caminhos.

A sociedade espera e exige muito destas pessoas."

E o futebol também deveria exigir.